Notas da Índia: Madurai, onde há dois mil anos se encontraram escritores e poetas

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Rui Marote (texto e fotos)

Chegámos à meta com a missão superada. Concluímos a ultima gorupa, em Madurai sinónimo do afamado templo de Minaskski a encerrar a rota traçada. Infelizmente não poderei ilustrar este apontamento para os leitores com as imagens grandiosas dos interiores dos templos. Foi vedada a entrada da máquina fotográfica e de vídeo, o que não sucedeu nas outras cidades.

Ancião pedinte
Ancião pedinte

O templo já foi alvo de ameaças de atentado bombista. Todos estes meios de captação de imagens ficam retidos à entrada, guardados em cacifos. O telemóvel, porém, tem livre acesso,podendo efetuar captação de imagem. Outra proibição é a indumentária: não se pode entrar de calções ou shorts, a calça terá de ser comprida. Só resta ao visitante regressar ao hotel, deixar o equipamento e mudar de roupa. O templo de Minaskski tem quatro gorupas nos quatro pontos cardeais com entradas a Norte, a Sul, a Este e a Oeste, além de outras oito gorupas de menores dimensões. A área é muralhada, e com policias fortemente armados com metralhadoras ligeiras.

A última gorupa
A última gorupa

A gorupa de enormes dimensões é espectacular e consagrada a Xiva, aqui conhecido como Sundareshvara (o belo deus ), e rodeada de vários altares menores e grandiosos salões com pilares. As doze gorupas sao particularmente admiráveis. As suas torres altaneiras assentam em sólidas bases de granito e estão cobertas com figuras e divindades de animais e de monstros mitológicos de estuque, pintados de cores garridas.

À porta do templo
À porta do templo

Esta proibição de entrar com câmara e ter de envergar a calça comprida deitou por terra o objectivo da minha vinda a Madurai não podendo registar e oferecer as belas imagens que vos descrevo e quero destacar. A Leste, o salão dos mil pilares, com 985 colunas finamente decoradas. Não pararia de disparar se tivesse a máquina. Não consigo descrever estas obras-primas.

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Dois mil anos atrás realizaram-se aqui os famosos Sangams (encontro de escritores e poetas) de onde nasceriam algumas das obras memoráveis da literatura Tamil. Hoje a religião e a cultura continuam o dia a dia da cidade. Com um tráfego bastante intenso, o comércio oficial convive com o mercado paralelo ao longo de todos os passeios numa venda desenfreada de todos os produtos. Dezenas e dezenas de máquinas de caldo de cana em todos os lados, com frutas e flores ocupando nalguns casos as faixas de rodagem.

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Bebe-se um cafézinho por 10 cêntimos, um chá por 7, uma salada de papaia por 12 cêntimos e uma garrafa de água de um litro por 20 cêntimos, e por fim duas chamuças por 20. O europeu não se pode queixar, mas não se admire que por vezes o prato da papaia seja um bocado de papel de jornal e um palito, feito na hora. Há quem não tenha estômago para isso, mas o que não mata engorda e a papaia é do melhor para os intestinos. Os restaurantes na sua maioria são vegetarianos: tenho já saudades de um bife ou de um filete de espada, de um copo de vinho tinto alentejano ou de uma Coral bem geladinha.
O grande negócio era conseguir um alvará de montagem de uma fábrica de cervejas… Era sair o Euromilhões todas as semanas.

Uma agradável variação dos autocarros miseráveis nos quais viajei até agora…

Esquecia-me de falar-vos do meu penúltimo trajecto de autocarro para Madurai. Choveu toda a noite; acordava no hotel, estava a chover; voltava a dormir, sempre a chover. Finalmente, às 5 horas da madrugada parou a chuva. Como eu já tinha a bagagem pronta a avançar, pensei: não é tarde nem é cedo, toca a andar para a Rodoviária, para apanhar o autocarro entre cidades. Ao chegar ao autocarro para Madurai nem quis acreditar: desta vez o “carro da galinha” passou a ter estrelas, e viajei bem acomodado num assento tipo barbeiro, e num ambiente tipo sala de cinema, com as cortinas das janelas cerradas, preparado para exibição de um filme de acção indiano no aparelho de televisão. Felizmente que a música indiana habitual nos autocarros foi substituída por um filme que ajudou a passar os 130 km do percurso numa auto-estrada quase impecável. O preço da viagem é inacreditável: 120 rupias, cerca de um euro e vinte cêntimos. E, que eu saiba, a companhia nao está na bancarrota nem apresenta défice nas suas contas, ao contrário de muitas transportadoras em Portugal.

Tudo se vende na rua
Tudo se vende na rua

A minha próxima reportagem será na cidade onde morreu Vasco Da Gama: Cochim.