O ciclo do poder

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O Zé era proprietário de um café muito bem visto na aldeia. O Zé emigrou e juntou muito dinheiro, fruto da exploração do povo nativo do país para o qual emigrou. Com a ajuda de alguns amigos conseguiu trazer esse dinheiro para a aldeia e construiu de raiz esse café. A aldeia nunca tivera um lugar assim de convívio. O presidente da Junta viu o Zé como um benfeitor da aldeia e premiou-o com condecorações. Consequência do êxito e gozando de uma boa relação comercial com o Presidente da Junta, o Zé resolveu que todos os clientes que bebessem um café e o pagassem recebiam de oferta um jantar. A oferta era generosa e mais uma vez os aplausos não tardaram. O Zé era um herói que tirava lentamente aquele povo da pobreza, alimentando-o e oferecendo a possibilidade de uma vida cultural e social mais enriquecida. O Zé ampliou o café e montou uma sala de cinema. Fazia planos para construir um centro de saúde, um lar de idosos. Tudo o que os habitantes teriam de fazer era beber um café. Aproveitando este êxito, o Presidente da Junta começou a construir casas, melhorar as estradas e oferecia bons e rijos jantares aos seus apoiantes diretos. Havia na aldeia quem se questionasse de onde vinha tanto dinheiro. Mas o importante é que a vida económica da aldeia tinha mudado com o regresso do Zé da excolónia e tudo corria maravilhosamente bem. A Junta de Freguesia passou de 3 funcionários para 200 e quase todas as pessoas da aldeia estavam agora em empregos seguros. Sem o Zé nada disto seria possível.

Um dia apareceram na aldeia uns senhores de fora, muito bem vestidos, num bom automóvel e com pastas negras. Via-se logo que vinham negociar. Claro. O nosso Zé tinha muito poder e riqueza, apesar de haver sempre alguém irritante que se lembrava de questionar a origem inesgotável de tanta riqueza. Gente aborrecida que não sabe aproveitar o bom que as pessoas da terra oferecem.

Passadas umas semanas, o Presidente da Junta disse que o Zé tinha umas dívidas àqueles senhores e que não as tinha pago. Acabaram-se os cafés com refeições gratuitas. Mais grave ainda: os cafés aumentaram de preço 100%. Muitos aldeões foram despedidos da Junta pois não havia dinheiro para lhes pagar. E foram impostas aos aldeões pesadas rendas para pagar as dívidas do café do Zé. A solução era vender o café do Zé. Mas quem queria comprar um café cheio de dívidas? Bem, o plano B é ir pagando as dívidas e talvez apareça alguém que compre o café do Zé. O problema é esse: quem estaria disposto a comprar dívidas? A aldeia, que antes vivia de alguma atividade agrícola, tinha passado os últimos anos a viver da riqueza do Zé que, agora sabemos, não era de riqueza própria acumulada pela boa gestão económica, mas alavancada em empréstimos que o Zé contraía para fazer vida de rico e de herói. Rico poder este!

O Presidente da junta demitiu-se e foi substituído. O novo presidente teve a ideia de vender o café do Zé sem as dívidas. Teve de baixar muito o preço até que apareceu uma multinacional do setor, uma empresa que tinha vários cafés em várias aldeias e lá comprou o café do Zé sem as dívidas. Claro que o novo proprietário comprou barato, mas teria de enfrentar um cenário de pobreza para poder fazer render a sua compra. Valeu a pena? Sim porque foi quase dada. Mas não havia outra forma de vender, pois o novo presidente percebeu que o café aberto gera mais dívidas do que se for vendido. E haveria de estancar essa fonte aparentemente inesgotável geradora de dívida. Assim, a Junta ficou com uma dívida grande, mas pelo menos não irá aumentar mais. E o novo proprietário teria de gerir à sua maneira o café da aldeia.

Os habitantes ainda estavam habituados à cultura daqueles anos dourados no nobre Zé. E foram violentos com o novo proprietário. Não só exigiam que o novo proprietário investisse na aldeia, como exigiam que lhes pagasse todas as dívidas contraídas pelo Zé. Enquanto isso, o Zé apoiava os aldeões e até pensava em candidatar-se a presidente da junta.