Crónica de viagem: As gorupas do sul da Índia

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Rui Marote

Muitos questionaram: novamente para a Índia? Pela quarta vez, sinto-me forte e feliz! Estou convencido de que tomei a decisão certa. Já estou habituado com este estilo de viagem e a Índia tem muito por onde escolher. Depois de conhecer o Norte, Este, Centro e Oeste, resta-me o Sul… embora já conheça Trivandrum, Cochim e Goa.

A Índia é muito intensa e faz-nos sentir fortemente presentes e conectados com o seu tsunami de cores, cheiros e vibrações.

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Com estes atentados na Europa, no meu regresso da Macedónia projectava uma incursão pelos Balcãs. Cróacia, Montenegro, Bósnia e Kosovo… queria numa assentada fechar o mapa em toda esta área, completando a grande ex-nação da Jugoslávia. Do continente europeu, são poucos os lugares que me faltam preencher no meu mapa interior… Quanto ao Oriente, sempre me fascinou, ou não fôssemos “descendentes” de Vasco da Gama. Porquê o Sul da Índia? Descobri uns monumentos entre Chennai e Madurai que são as Gorupas, elemento característico da arquitectura hindu no Sul indiano. Assinalam as entradas cerimoniais no recinto sagrado dos templos, protegidos por altos muros.

São normalmente constituídas por uma base em pedra, sobre a qual se aplicam estruturas em madeira, criando um conjunto de pisos sobrepostos, em forma de pirâmide, que chega a ultrapassar cinquenta metros de altura.

As suas fachadas, revestidas em estuque, são totalmente recobertas com figuras de divindades, animais ou monstros mitológicos, pintados com cores vivas. Periodicamente, são restauradas e reconsagradas, num ritual religioso.

Permanecerei nesta nação cerca de 35 dias, percorrendo 1200 km nos autocarros do povo.

Ao longo desta faixa sul percorrei Chennai, Kanschipuram, Chidambaram, Tanjavur, Tiruchirapalli e Madurai, onde existem as Gorupas. Em Chennai, antes de iniciar esta tournée, faço uma visita às ilhas Andaman (Port Blair de avião, cerca de 1h50) que pertence à União Indiana e que foi uma antiga colónial penal inglesa, conhecida por ‘Águas Negras’, destruída pelos japoneses quando ocuparam a ilha na Segunda Guerra Mundial. Regresso a Chennai, inicio a maratona de autocarro, permanecendo dois ou três dias nas cidades acima mencionadas.

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Chegando a Madurai, vou para Cochim, e aqui vou descobrir vestígios portugueses. De Cochim voo para Nova Deli, matar saudades, somente para visitar o Templo Dourado da cidade, Amritsar, o mais importante santuário da comunidade sikh, rodeado por um labirinto de ruas e 18 portas fortificadas.

É muito difícil transmitir o que sente o viajante na Índia. É o país da diversidade, dos saris, do incrível caos e sincronismo de trânsito, da superpopulação, da latente espiritualidade, onde quatro pessoas andam numa moto, da cultura milenar, onde há maior abertura no coração, das belezas naturais, do olho-no-olho, dos muitos sorrisos, da grande devoção, com as maiores peregrinações do mundo, dos despojados, do mágico Ganges… é um país onde se fotografa e se é fotografado, dos sadhus, onde a agressividade é menor, uma terra abundante em temperos e cheiros, onde as ruas estão repletas de pessoas e de sujidade, onde vivem homens e mulheres sagrados, onde os homens andam de mãos dadas… A Índia é uma “divina anarquia” e uma terra única, que merece ser vista com os nossos próprios olhos.