Madeira oferece ao Brasil equipamentos da ‘fábrica das moscas’

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O conselho de Governo reunido ontem decidiu ceder à Biofábrica Moscamed, em Juazeiro, no Brasil, a título não oneroso, o irradiador Nordion Gammacell 220 propriedade da Região Autónoma da Madeira, bem como outro equipamento existente associado à esterilização de insetos e que aquela venha a pretender.

Os equipamentos estão nas instalações da ‘fábrica das moscas’, na Camacha, desativada desde Novembro de 2011.

Os equipamentos serão oferecidos mas os encargos com a preparação e envio para o destino final dos equipamentos não serão da responsabilidade do Governo Regional da Madeira.

Segundo a resolução hoje publicada, “com esta cedência, o Governo Regional da Madeira associa-se aos esforços internacionais de apoio ao Brasil no combate ao avanço da microcefalia nas Américas, situação que, em fevereiro deste ano, a Organização Mundial da Saúde (OMS) veio considerar como uma emergência mundial”.

O Executico considera que “o irradiador Nordion Gammacell 220, se mantém nas instalações da ex-Biofábrica, está funcional, amortizado, e não tem qualquer utilidade atual ou futura para a Região Autónoma da Madeira”.

Em finais de 2015, a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) demonstrou interesse à Secretaria Regional de Agricultura e Pescas, em que lhe fosse disponibilizado o irradiador em causa, bem como outros equipamentos ligados à produção de insetos esterilizados, para cedência ao Governo de Marrocos que estaria a implementar um programa semelhante ao que existiu na Madeira, ficando a encargo do interessado as despesas de preparação e envio do material para aquele país.

Contudo, através de carta de 28/07/2016 dirigida à Secretaria Regional de Agricultura e Pescas, a AIEA solicitou que a cedência deixasse de o ser ao Governo de Marrocos, mas antes diretamente à Biofábrica Moscamed Brasil, em Juazeiro, no estado da Baía, uma associação civil de direito privado, sem fins lucrativos, de interesse coletivo, recentemente cooptada ao controlo da população do mosquito (Aedes aegypti) vetor, entre outros, do vírus Zika, cuja disseminação naquele país vem assumindo proporções alarmantes.

Para evitaroutras leituras, o Governo Regional lembra que “apesar de contactadas para o efeito, nenhuma instituição regional ou nacional que lidasse ou pudesse vir a lidar com aquele tipo de fonte de irradiação demonstrou interesse em receber tal equipamento, ainda que a título não oneroso”.

Recorde-se que o equipamento foi adquirido e financiado por verbas comunitárias ao abrigo do Programa Madeira-Med, concebido para combate da principal praga da produção frutícola regional, a mosca do Mediterrâneo (Ceratitis capitata).

O programa decorreu entre os anos de 1995 e 2011.

Foi no âmbito deste Programa que foi construída a Biofábrica para a produção em massa desta espécie de inseto, sua esterilização e largadas nas áreas a controlar, beneficiando de apoios financeiros da União Europeia, através dos Programas Poseima e Regis II, como também da AIEA, esta última através de Projeto de Cooperação Técnica, fundamental para a formação de técnicos, e o fornecimento de equipamentos específicos.

Com a conclusão do Madeira-Med e o consequente encerramento da Biofábrica, em novembro de 2011, ainda estão armazenados naquelas instalações muitos equipamentos exclusivos para os fins inicialmente preconizados, e sem qualquer utilidade para as atividades da Direção Regional de Agricultura da Secretaria Regional de Agricultura e Pescas, entre os quais se destaca um irradiador Nordion Gammacell 220, tecnologia que contém uma fonte de cobalto 60.