Francis Zino sofre acidente grave a bordo do patrulha na viagem de regresso das Selvagens

Selvagens

* Rui Marote (texto)

O médico e investigador Francis Zino, proprietário da única casa particular das Ilhas Selvagens, sofreu esta quinta feira um lamentável acidente a bordo do navio-patrulha “Cacine”, durante a viagem de regresso ao Funchal.

Ao que o FN apurou, a lesão foi de alguma gravidade e obrigou à evacuação do reconhecido investigador por helicóptero, rumo ao Aeroporto da Madeira e posteriormente ao Hospital Dr. Nélio Mendonça.

O dr. Francis Zino sofreu um ferimento sério numa das mãos, situação que mereceu procedimentos de emergência em alto mar e, já no decorrer desta sexta feira, a uma intervenção cirúrgica no hospital.

Infelizmente, apesar da pronta assistência, ainda a bordo, e da intervenção por parte da equipa de cirurgia plástica em terra, não foi possível salvar o polegar da mão direita.

Ao que apurámos, o médico terá sofrido um traumatismo violento ao ficar com a mão entalada numa porta devido à forte ondulação, incidente que resultou na amputação de um dedo.

Francis Zino regressava ao Funchal na companhia da esposa, depois de uma estadia de quinze dias na Selvagem Grande, onde fez questão de estar presente para receber o Presidente da República, em finais de agosto. Aliás, o reconhecido investigador na área da ornitologia é o proprietário da única casa particular existente nas Selvagens, construída no final da década de 60 pela sua família, e pela qual paga IMI. Sabe-se que terá prolongado a estadia naquela reserva natural precisamente para receber Marcelo Rebelo Sousa, naquela que foi a sua primeira visita oficial à parte mais a sul do território nacional.

Foto: Esquadra 751
Foto: Esquadra 751

Esta quinta feira, a viagem de regresso a bordo do navio-patrulha da Marinha decorria um pouco atribulada devido à forte ondulação, o que terá provocado o acidente com a porta e a consequente amputação do polegar da mão direita, numa altura em que Francis Zino se encontrava sozinho.

O FN sabe que o médico, apesar de gravemente ferido, manteve o sangue frio necessário para procurar ajuda e tentar preservar o membro amputado.

Foi socorrido pelo enfermeiro de bordo que aplicou a técnica do torniquete de maneira a controlar a hemorragia. Foram solicitados de imediato meios de socorro, tendo o sinistrado sido evacuado de helicóptero para a Madeira, encontrando-se a recuperar de uma cirurgia realizada esta sexta feira.

Cacine navio patrulha marinhaMadeira com navios-patrulha obsoletos

O acidente sofrido pelo dr. Francis Zino, reconhecido também pelo trabalho desenvolvido há décadas na defesa e preservação, entre outras, da comunidade de cagarras existente nas Selvagens, vem levantar uma questão mais abrangente e de âmbito nacional: a da falta de investimento na renovação dos meios marítimos afetos à Zona Exclusiva da Madeira.

Trata-se de uma situação de desigualdade que compromete a eficácia da ação numa das áreas mais vastas do território nacional: o mar.

Os navios-patrulha a operar nas águas territoriais portuguesas têm mais de 46 anos de serviço. Altos quadros da instituição militar, atualmente almirantes e vice almirantes, estiveram já ao comando destas unidades navais no passado. São navios que serviram a Marinha em Angola, na Guiné, em Moçambique e no Lago Niassa.

Guardam-se ainda na memória a odisseia do transporte destes navios, desde Nacala, através da via férrea, até Catur e Meponda, onde foram então lançados à água.

Os poucos que restam dessa época estão ao serviço na Madeira. São unidades desatualizadas face aos novos desafios e desadequadas ao cenário de operação. Não se compreende a manutenção destes patrulheiros próprios para rios nas águas da Madeira. Melhor seria, sugerem algumas opiniões, afundá-los como futuros viveiros, à semelhança do que recentemente aconteceu com a corveta Pereira d’Eça.

Em seis meses, a Região deu um salto de gigante em matéria de vigilância graças ao representante da República, Ireneu Barreto. Neste momento, existem já em permanência nas Selvagens equipas da GNR e da Polícia Marítima, reforçando a presença portuguesa.

Foto: Esquadra 751
Foto: Esquadra 751

O navio-patrulha limita-se a render, de 15 em 15 dias, os efetivos destacados e a reabastecer a reserva natural com víveres, materiais e equipamentos.

No entanto, as viagens de ida e volta levam quase 50 horas. Uma odisseia nem sempre bem sucedida, resultando no regresso à Madeira sem o transbordo planeado.

Foto: Autoridade Marítima Nacional
Foto: Autoridade Marítima Nacional

Quanto custa manter um patrulha?

Perante estes condicionalismos, a pergunta impõe-se: quanto custa diariamente ao Estado português o navio-patrulha e toda a sua guarnição?

Os madeirenses continuam à espera dos sofisticados navios prometidos pelo então ministro Paulo Portas.

Poderá ser uma ideia estranha, mas há quem já equacione a possibilidade de se contratar o “Lobo Marinho” uma vez por mês para esta deslocação às Selvagens. Faria a rendição dos vigilantes do Parque Natural e dos efetivos da GNR e PM. Transportaria os mantimentos e os materiais necessários à construção das duas casas de apoios projetadas para a Selvagem Grande e Selvagem Pequena. Poderia ainda ser aproveitado por turistas e locais interessados em conhecer estas ilhas. Sempre era um ferry mais confortável e rápido.

A questão é saber se é viável. Basta fazer contas. O que não pode continuar é a Madeira ser servida por navios-patrulha obsoletos, enquanto os Açores recebem corvetas.

Atualmente, as Selvagens estão na “boca do mundo”. Desde Mário Soares que os Chefes de Estado fazem questão de marcar a portugalidade, visitando aquele território inóspito, a primeira reserva natural do país, famosa pela sua biodiversidade, sobretudo de aves marinhas.

A cobiça dos espanhóis levou as autoridades portuguesas a colocar nesta ilhas forças do Parque Natural, GNR e Polícia Marítima.

As dificuldades no desembarque e acesso às Selvagens são questão antiga. Quem não se lembra do célebre vigilante Almada que chegava a permanecer dois a três meses sozinho na Selvagem Grande, sem comunicação rádio e até sem alimentos. Um autêntico herói, esquecido até hoje das homenagens oficiais e que mereceria um reconhecimento póstumo.