Incêndios: Desempregado com três filhos e sem casa a “vida virou do avesso no último mês”

img_04178 e 9 de Agosto de 2016 dois dias que os madeirenses não vão conseguir apagar da memória. O Funchal transformou-se num inferno de chamas. Um mês depois dos incêndios que assolaram, fortemente, a capital madeirense o Funchal Notícias (FN) foi à procura das famílias que ficaram desalojadas e encontrou “um mar de incertezas” sobre o futuro dos que ficaram sem casa, apenas com a roupa do corpo.

Foi no Bairro da Cancela, situado junto ao Estabelecimento Prisional da Cancela, que o FN encontrou Rui Gonçalves um dos mais de 1000 desalojados dos incêndios do passado mês de Agosto.

Com voz trémula e sorriso ténue Rui Gonçalves aceitou falar ao FN sobre a fatídica noite de 9 de Agosto, uma madrugada terrível, uma noite que não deu tréguas, na qual, as chamas não tiveram dó, nem piedade e destruíram a casa onde vivia com a esposa, os três filhos e uma sobrinha, em São Roque.

Tudo mudou no último mês e os dias têm sido difíceis, mas Rui Gonçalves tenta manter a calma e a esperança por causa dos filhos.“A minha gata salvou-nos. Eu estava a dormir com os meus filhos e por volta das quatro da manhã acordei com a minha gata a arranhar-me. Olhei pela janela e vi as chamas a aproximarem-se. Consegui acordar os meus filhos e só tive tempo de sair, lembrou, acrescentando que “saímos com a roupa do corpo, tudo ficou para trás, quando olhei para trás o lume já estava junto aos Horários do Funchal e meu filho ainda conseguiu tirar a bolsa com os documentos. Fui uma coisa que não me lembrei na ocasião porque foi tudo muito rápido”, esclareceu.

img_0410Às quatro da manhã entrou com a família num carro que descia para uma zona segura e na memória só recorda a chegada ao pé do pessoal da Protecção Civil que levou a ele à sua família para o RG3.  Não imaginava, na altura, que ia ficar sem casa. Foi avisado pelo senhorio que a casa estava inabitável uns dias depois.

Rui Gonçalves conta que foi muito bem tratado nos cinco dias que esteve no RG3 e diz que não tem forma de agradecer a todas as pessoas que o ajudaram a ele, à esposa e aos filhos. “Foi excelentemente acolhido no RG3, foram muito atenciosos connosco mas sobretudo com as crianças para que não se apercebessem do que estava a acontecer. Não tenho palavras para agradecer aos voluntários, aos soldados, aos enfermeiros, aos psicólogos que nos acalmaram e nos deram apoio naqueles dias. Foram incansáveis. O meu muito obrigado”, declarou.

Desempregado com três filhos e sem casa a “vida virou do avesso no último mês”

img_0419Depois do RG3 veio o realojamento no Bairro da Cancela, num apartamento tipologia T3. É por 60 dias e depois Rui não sabe dizer mais nada.

Em declarações ao FN Rui Gonçalves revelou como tem passado os últimos dias na nova morada. “Chegamos aqui sem nada, as crianças, estranharam um pouco mas nós tentamos amenizar as coisas. E têm vindo pessoas prestar ajuda. Já temos uma televisão e isso sempre distrai os miúdos e agora com o início da escola vamos tentar voltar ao normal”, diz, salientando, que o mais complicado é estar num sítio distante do Funchal e a escola das crianças ter sido alterada. “A vida virou do avesso no último mês, todos os dias é um novo dia em que não sabemos o que fazer. A situação complicou-se porque aqui ficamos longe de tudo temos de mudar a escola dos meninos e neste momento o meu filho ainda não sabe em que escola vai ficar, não sabemos se terá de apanhar dois autocarros e isto aqui no inverno é mais frio e húmido é tudo mais difícil”, desabafou.

Bairro da Cancela onde vivem algumas famílias desalojadas dos incêndios
Bairro da Cancela onde vivem algumas famílias desalojadas dos incêndios

Rui também referiu o problema do material escolar e diz que pediu ajuda à junta do Caniço mas até ao momento não obteve resposta. A situação agudiza-se porque Rui e a esposa estão desempregados, sem receber subsídio de desemprego e com quatro menores a cargo a situação torna-se quase insustentável. Este casal está apenas a receber um apoio da Segurança Social para a alimentação.

“O futuro é uma incógnita não sei o que vai acontecer ao fim de 60 dias aqui”

Esta família não pede muito, Rui Gonçalves, solicita apenas ajuda para arranjar um emprego porque com isso acredita que consegue dar sustento ao seu agregado familiar.“Ficamos sem nada, só com a roupa do corpo. Eu tenho andado a procurar trabalho mas está difícil e aqui longe do Funchal é pior. E também não temos dinheiro para ir ao Funchal de autocarro tenho tentado cuidar dos miúdos e procurar aqui nesta zona. Só preciso de um trabalho, o restante conseguiremos arranjar”, apelou.

Questionado sobre o que irá acontecer ao fim dos 60 dias no Bairro da Cancela a resposta de Rui só transporta dúvidas, “o futuro é uma incógnita não sei o que vai acontecer ao fim de 60 dias aqui. Falam que depois deste tempo teremos de pagar uma renda de acordo com os rendimentos familiares, mas não sei mais nada”, declarou angustiado.

Rui Gonçalves com os filhos e a sobrinha
Rui Gonçalves com os filhos e a sobrinha

No pátio do Bairro da Cancela a três crianças brincam alheias às dificuldades que estão a passar, mas o sofrimento dos pais que não podem fazer muito mais, é visível no silêncio do olhar de Rui Gonçalves.

Relembre-se que os incêndios que assolaram a Madeira entre os dias 8 e 10 de Agosto de 2016 provocaram três vítimas mortais, mais de 1000 desalojadas e destruição em 227 habitações.