Choupana Hills no rescaldo do fogo inclemente

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Fotos: Rui Marote

As imagens não são bonitas, mas espelham a realidade. E importa reflectir nela, não deixando as responsabilidades inteiramente aos ventos, ao clima, às fatalidades do destino. Ao longo de dias, durante os incêndios recentes e desde que os mesmos foram debelados, que o FN tem percorrido a Madeira na tentativa de levar aos seus leitores o retrato da natureza inclemente, ajudada pela maldade dos incendiários e pela incúria dos homens. Foi esse desiderato que nos levou aos mais diversos locais, e não a vontade de expor a desgraça alheia. Em quase todo o lado nos foi facultado livre trânsito e compreendida a nossa missão, menos num local, precisamente um dos mais atingidos pelos incêndios que assolaram o Funchal: o Choupana Hills, uma unidade hoteleira que era símbolo de paz, sossego e bom gosto.

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Não fomos os únicos. Segundo nos disseram os funcionários com quem falámos, já outros jornalistas quiseram visitar, fotografar ou filmar o Choupana Hills, e viram a sua entrada negada. Sem sentido, já que foram vários os fotógrafos de agências noticiosas que conseguiram fotografar o hotel, antes que fosse vedada a entrada. Quanto a este último aspecto, não fomos pois excepção entre os recusados. Até nos disseram que já havia várias imagens do Choupana Hills queimado, disponíveis na Internet. Que mais quereríamos ver?, questionavam.

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Tentámos explicar que não queríamos as fotos dos outros, mas colher as nossas, ver com os nossos olhos, firmar as nossas próprias impressões. Não serviu de nada. Contactado telefonicamente o administrador por um elemento do pessoal, a entrada foi liminarmente recusada, sem que este se dignasse falar directamente com os jornalistas. Em 2016, há ainda quem não perceba o que está escrito na Carteira Profissional de Jornalista: “As autoridades a quem esta carteira for exibida deverão prestar ao respectivo titular todo o apoio imprescindível ao bom desempenho da sua missão profissional, sem prejuízo da observância dos preceitos legais aplicáveis”. Muito menos entendem o direito de acesso dos profissionais da comunicação social, sobretudo quando na missão de informar o público sobre assuntos de interesse geral relevante. E é esse, indubitavelmente, o caso dos incêndios… Os jornalistas não são abutres.

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Tivemos, claro, de respeitar a recusa, vimo-nos obrigados a tal, mas não nos impedimos de denunciar aqui a atitude, nem de fotografar, do exterior, o que é visível do local. E não colhem, aqui, argumentos de eventuais danos ao turismo local, de que “é prejudicial” que se vejam imagens destas… prejudicial é ignorar ou procurar ‘esconder’, ridiculamente, o que se passou. E o que se passou é que as áreas comuns do hotel (exceptuando, aparentemente, o Spa) foram destruídas, bem como vários dos ‘bungalows’ daquele que foi merecedor de vários prémios que o classificaram, inclusive, como o melhor boutique resort da Europa. Os turistas que lá estavam foram realojados em segurança. Os prejuízos são obviamente de lamentar.

oi001197.jpg O Choupana Hills encontra-se aninhado num sítio da anfiteatro funchalense com uma vista privilegiada, sem sombra de dúvida. Mas o acesso é estreito e sujeito a condicionalismos. Um incêndio florestal coloca uma séria ameaça, e não só para a unidade hoteleira, mas para os residentes nas imediações. O FN constatou, nesta imagem, o tanque de gás que felizmente não foi afectado pelo fogo. Se o tivesse sido, certamente que o resultado não teria sido bonito.

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O hotel foi inaugurado em 2002, num investimento de 24 milhões de euros. Ocupando uma área de 17 hectares, as dificuldades económicas atingiram-no já em 2008, agravando-se progressivamente até 2012, data em que o Banco Espírito Santo pediu a insolvência. A dívida do Choupana Hills Resort & Spa atingiu 15 milhões de euros, à banca, ao Estado (Segurança Social e Finanças) e o mesmo passou a ser gerido pela empresa Amazing Evolution, especializada em conduzir empresas hoteleiras em cenários de grandes dificuldades. Agora, enfrenta novamente uma grande machadada.

Nas imediações, ardeu também uma oficina, deixando alguns automóveis neste triste estado, e um negócio destruído. Os edifícios queimados e as áreas calcinadas em volta são bem eloquentes do perigo que ameaçou toda esta área, localizada nas proximidades do estádio do Nacional.

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A Choupana não escapou às chamas que ameaçaram o Funchal. Também ali houve prejuízos materiais elevadíssimos, houve pessoas que fugiram, face ao grande perigo, outras que teimaram em tentar proteger o que é seu, com a razão que assiste a cada um nestes momentos, ali houve também quem, a dois passos, escapasse ‘sem um arranhão’ por pura sorte. Todo o Funchal, toda a Madeira sofreu com estes fogos. Agora é tempo de começar de novo. Só se espera que a culpa das situações que correram mal – não haver água em certas bocas de incêndio, por exemplo, não se pedir ajuda quando se devia – não morra inteiramente solteira.