SPM tem programa de luta contra o desgaste profissional que será divulgado em breve

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Fotos SPM.

Hoje, o segundo e último dia do seminário “Desgaste Profissional Docente: Causas, Consequências, Medidas a Tomar”, no auditório do Sindicato dos Professores da Madeira (SPM), teve como protagonistas os preletores Sofia Henriques e Carlos Alberto Gomes.

Este professor de sociologia da Educação da Universidade do Minho falou de “Guerra e Paz na Sala de Aula”, decorrente do seu extenso trabalho de investigação em contexto de sala de aula nas últimas décadas.

Começou por fazer um enquadramento sobre a escola, os professores, os alunos e o País. Alertou para as mudanças sociais, culturais e tecnológicas entretanto ocorridas.

Referiu que há um cocktail sociocultural e histórico na base do mal-estar docente, que agora é transversal já não distingue escolas ou zonas do território.

Os professores sofrem «expetativas e pressões de todos os lados», num trabalho «colossal e altamente complexo», para além da «esquizofrenia» desse trabalho devido à variação que sofre de uma aula para a outra.

Explicou que aos alunos interessa é desenrascar-se e sobreviver, centrando-se em ter uma estratégia para cada professor e a escola como instituição é como se não existisse. Esse salve-se quem poder terá um preço e consequências nefastas na sociedade, notou.

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Carlos Alberto Gomes

O orador não tem dúvidas que, atualmente, o problema é «cívico e de educação». E incentivou os professores a recusarem ser «domesticadores».

Considera que o desafio na escola atual é «construir a unidade na diversidade», isto é, sermos mais eficazes e assumir «estratégias de forma coletiva». Porque a sociedade e a escola portuguesas mudaram muito nas últimas décadas.

Numa sociedade que é agora narcísica, hedonista, individualista, de cada um a estar na sua (“my way” e “be yourself”), em que se relevam mais os direitos do que os deveres.

E salientou: «este tipo de liberdade, no limite, impede qualquer tipo de ensino». A cultura pós-moderna de «gratificação permanente não aceita qualquer restrição», em que é «quase proibido proibir», e isso chega à escola, em que o aluno quer estar na sala de aula como está no bar e noutros contextos. E não pode ser, porque a «escola requer uma atitude especial» e difere do bar ou da praia. Os «limites» (disciplina) têm de ser «articulados com a liberdade individual».

Defendeu, por isso, que é preciso «ordem democrática», com «firmeza e diálogo», com responsabilização dos pais e alunos, sendo a indisciplina um «problema de toda a sociedade». Porque os jovens querem ver nos adultos uma segurança, uma referência.

Aconselhou: «deixar voar, mas com controlo remoto», isto é, com supervisão e acompanhamento pelos adultos.

spm2Se fosse para dar uma receita, Carlos Alberto Gomes diria que é preciso «mudar a escola, a pedagogia e o modelo de relação», mas reconhece que com determinadas condições de trabalho nas escolas impede que os professores tenham tempo para inovar pedagogicamente. Porque são precisas condições objetivas e reais e a inovação individual (não coletiva), apesar de meritória, «dá cabo de nós».

Daí remeter para a dimensão política e a ação coletiva para criar essas condições de trabalho aos professores no que toca a horários, número de alunos e turmas por docente, programas, entre outros fatores, que são decididas a nível político, fora da escola. Incentivou mesmo um «grito de revolta» na defesa de um certo tipo de escola e não se ficar apenas pela reivindicação de tipo sindical no que toca a carreiras e salários. A mudança na escola tem de contar com o apoio político e social.

Por seu turno, Sofia Henriques, educóloga, coach e formadora na área do desenvolvimento pessoal na RAM, falou de Eustress e deixou conselhos de como o promover nas diversas áreas da vida. Por exemplo, ter expetativas realistas, equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, gerir bem o seu tempo (recusar demasiadas tarefas), sentido de humor, elevada auto-estima, ser assertivo, comunicar de forma clara, precisa e eficaz, ter espaços de lazer e relaxamento, estar com pessoas mais afetivamente mais próximas, atividades em contacto com a natureza, colocar entusiasmo em tudo o que se faz.

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Sofia Henriques

Após um período de debate e de construção coletiva de propostas de ação, isto é, medidas concretas a tomar de combate ao stress na profissão docente e melhoria das condições de trabalho na escola e sala de aula, foi apresentado pelo coordenador do SPM, Francisco Oliveira, um manifesto reivindicativo que materializa um programa de luta contra o desgaste profissional na profissão docente. A divulgar publicamente, além seminário, em breve.

O encerramento do seminário/formação foi feito às 13h30 por Micaela Santos, diretora do Centro de Formação do SPM.


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