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O sol deu nome às areias. A longa extensão em barra entre o mar e a terra fez-se praia, das mais amplas e iodadas. A dois passos da ilha grande, basáltica, verde, montanhosa, aninha-se a ilha pequena, calcária, áurea e ondulada. Braço dourado dum território de magmas que o mar apartou num tempo geológico de grandes convulsões, a pequena ilha implanta-se em mancha clara, sobre um azul turquesa profundo, cor única, dizem, como só a das largas orlas oceânicas à volta das terras tropicais.
Promessa de bom acolhimento, este lugar marinho surgiu providencialmente, no meio da procela, aos marinheiros de outrora que se aventuravam no Atlântico. Logo, logo o sol se mostrou benéfico guardador desta estância pacífica e os povos designaram-na então por ilha dourada, depois do primeiro encontro em que se tornou um porto santo.
Porto Santo, Ilha Dourada, ficou assim pelos séculos.
Preferida dos ventos e, naturalmente, pelo sol , durante muito tempo cobriam-se os campos de gramíneas, construíam-se as eiras e alçavam-se os moinhos. Os bois cruzavam pacientemente os caminhos, os burros percorriam os trilhos, circulavam livres, cientes dos percursos, animais de carga e mansidão. As pequenas casas esparsas, de pedra e terra de “salão”, confundiam-se com o terreno cor de ouro velho e mal se avistavam na paisagem. Estendiam-se as colinas, tecido movediço rociado de papoilas. Foi então que atravessei, em ritual votivo, as searas e galguei a corta-mato as faldas do Pico Castelo. Agilidades de juventude que hoje alegram a lembrança. Por virtude de ecos lendários e agentes mágicos, talvez fosse possível ouvir alguém tocar os “tubos de órgão” do Pico Ana Ferreira.
As estradas de agora cortam a ilha em várias direcções, cresceram os povoados, a gente está mais servida de haveres que dantes escasseavam no mercado. Mas, por bem, a ilha mantém-se a serena nesga de terra que oferece espontaneamente a quem chega, a paz dos campos, o magnífico sortilégio do mar e os esplendor das areias. É de esperar que não se destrua esta marca de excelência, que não se avilte este espírito do lugar.
Dos primitivos habitantes desta paisagem singular resta uma numerosa e fértil descendência que a cada momento se insinua pelas encostas, atravessa as estradas e se acachapa no mato. Vultos fugidios, mas simpáticos, assustadiços mas inofensivos, afora o apetite voraz com que dizimam as parcas hortaliças. Ser privilegiado, o prolífico coelho superou a sua condição de animal, para se tornar figura mitológica, espécie de semidivindade irmã-da-lua, ligada à Terra-mãe por virtude do seu notável dom de fertilidade. Agilidade e abundância são-lhe atribuídas como simbologias de poder.
Teve honras de protagonista ao longo da história da literatura como figura conselheira provida de subtileza e argúcia. Alice tinha-o por perto no País das Maravilhas e o palhaço Arlequim trazia consigo uma cauda de coelho, como amuleto portador de sorte.
O que me trouxe a esta crónica foi o meu encontro com uma destas especiais criaturas numa tarde memorável na Fonte da Areia : Vindo de entre o canavial que cobre a encosta à volta da Fonte, um coelho malhado de branco e castanho, acolhe-se à sombra duma mesa, no recinto das merendas, deserto àquela hora. Estranho não ser cinzento, nem fugidio como a maioria. Despojado e tranquilo, completamente dado à presença humana, aproxima-se. Falar não pôde, mas quase lhe imaginei a voz. Colhi uma folha das mais verdes dum caniço e o bicho, apoiado nas patas traseiras, levantou as dianteiras para chegar à minha mão. Saboreou gostosamente a verdura com o “piscar” característico do nariz e da mandíbula ligeira. Belo exemplo de inocência e brandura, a cena repetiu-se uma segunda vez. Logo depois, perdendo o corpo a postura da curva habitual, alongou-se, de perna estendida e orelha murcha, partilhando languidamente o meu lazer, tal como recomendava o silêncio morno da ilha nessa tarde sonolenta de Junho. Poder-se-ia então acrescentar ao rol de faculdades que o imaginário colectivo atribui à figura salutar do coelho, o dom da afabilidade, a capacidade extraordinária de preencher um espaço humano e, como se humano fosse, pronto para abandonar a vida selvagem, de repente se tornasse num particular amigo. Propositadamente, demorei-me em sua companhia por algum tempo. Como bom anfitrião, sendo eu a visitante, esperou que fosse eu a retirar-me. E lá ficou. Sereno e invulnerável.
Feitiço da Ilha, ou sedução do mito ? Seja como for, tive assim o privilégio de contracenar com um coelho, sem que ele tivesse saído duma cartola, do país da Alice, ou dum livro de *Clarice Lispector. Um coelho de verdade, movido por invulgar impulso, num amigável cenário de excepção.
*LISPECTOR, Clarisse – O Mistério do Coelho Pensante, 1967
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