Degradação de infraestruturas reflecte crise sócio-económica no Porto Santo

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O estádio de voleibol no qual se investiram milhões tem hoje este aspecto confrangedor.

Fotos: Rui Marote

O Funchal Notícias inicia hoje uma pequena série de artigos que pretendem lançar um olhar clínico e crítico sobre o Porto Santo, antecipando as atenções que são devotadas, tradicionalmente, à ‘Ilha Dourada’ durante o período estival. O que nos interessou foi procurar sentir, no terreno e junto das pessoas, como vive o Porto Santo durante o resto do ano, quais são os legítimos anseios e expectativas da população e dos intervenientes políticos e sociais, e como se apresenta a ilha a um visitante ocasional que agora, por acaso, surja, enquanto as multidões ainda não enchem o areal.

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O resultado da nossa pequena incursão não é exactamente bonito. A ilha é-o, sem dúvida, e tem muito para oferecer, mas a realidade incontornável da situação sócio-económica com que deparámos é dura e, em certos casos, choca.

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Se a Madeira sobre actualmente os efeitos da crise e da dívida monstruosa que continua a pagar por causa dos excessos de certos governantes, então o Porto Santo sente-o duplamente. Ou talvez ainda mais. O desemprego é um sério problema, os negócios locais, tradicionalmente presos a uma sazonalidade muito difícil de ultrapassar, ressentem-se e o investimento particular será pouco ou nulo.

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Os edifícios do centro da vila reflectem este abrandamento económico e há casos verdadeiramente complexos de tremendos investimentos públicos e privados que foram feitos e que se encontram agora numa situação de extrema degradação.

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Um paradigma disto, e um exemplo certamente extremo, é o do campo de voleibol de praia, onde foi disputado, em 2006, um torneio mundial. Uma infraestrutura criada no âmbito da ‘zona lúdica’ do Penedo do Sono, pela Sociedade de Desenvolvimento do Porto Santo. Hoje, visitar este local é confrangedor, como o demonstram as fotos.

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A degradação é evidente, o vandalismo existe, as ervas daninhas espalham-se pelo local, as bancadas enchem-se de detritos, a fina tijoleira que recobre os muros é testemunha muda de uma megalomania cujo retorno, actualmente, é zero.

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A obra, concluída em 2003, importou em custos que ultrapassaram os dois milhões de euros. Apesar de até os gradeamentos de zonas de escoamento de águas no chão terem sido retirados, das luzes partidas no solo, do estado geral de abandono, o local continua, de forma caricata, a ser promovido no ‘site’ oficial do Turismo da Madeira, que reproduz um texto promocional que parece ser único herdeiro dos tempos do esbanjamento jardinista.

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Afirma o mesmo que “o Porto Santo está dotado de uma infraestrutura que proporciona também a prática de desportos ao mais alto nível, cujo estádio compõe-se por um campo com piso em areia, bancadas e balneários”. Refere-se também que o local dispõe de salas de reunião, de formação e de um bar.

A ironia amarga de um anúncio no centro de uma vila parada...
A ironia amarga de um anúncio no centro de uma vila parada…

“Este complexo desportivo, considerado o melhor do país”, exalta-se, “foi projectado para receber torneios internacionais de várias modalidades, nomeadamente voleibol, andebol e futebol de praia, pelo que o Porto Santo tem sido palco privilegiado de grandes eventos desportivos desta natureza”.

Até os emblemáticos moinhos parecem algo degradados e 'cansados'...
Os emblemáticos moinhos ainda sobrevivem como um símbolo, mas mesmo sobre eles abate-se um ar de certa desolação…

Na ilha, a pouca distância do Porto de Abrigo, percorremos a infraestrutura e a abandonada e vizinha pista de karting, agora fechada a contentor e que só se abre esporadicamente para receber um ou outro evento de automobilismo. Mesmo assim, arriscando bastante, dada a falta de consolidação da escarpa vizinha. No parque de estacionamento situado logo atrás do campo de voleibol de praia, não há ninguém que arrisque estacionar um carro. Não se quer levar com uma pedra em cima do mesmo, e as mesmas, de enorme dimensão, são visíveis na estrada que lá conduz, e que passa também pela tristemente célebre zona do Penedo do Sono, onde um ambicioso complexo de bares e clubes nocturnos apodrece silenciosamente no calor suave do sol da Primavera.

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Pequenos pássaros mortos por um qualquer vendaval são agora os únicos frequentadores. Os bares estão vazios e empoeirados os buracos são visíveis nos tectos, nas paredes e nas varandas. Os vidros estão partidos ou rachados. Era uma vez uma ambiciosa zona de diversão nocturna.

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A pouca distância, o curioso complexo do biocombustível do Porto Santo –  conhecido como a “fábrica do caldo verde” junto dos locais – simboliza outro desastre económico-financeiro. Uma aposta com um impacto visual enorme mesmo na ‘porta de entrada’ para quem chega por mar, que importou em custos da ordem dos 18 milhões de euros, para a Empresa de Electricidade extrair energia a partir de algas… mas que não permite recuperar o investimento milionário, conforme já apurado pela empresa de auditoria KPMG.

 

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“Ainda pagamos mas é a electricidade mais cara”, insurge-se um porto-santense, empregado de bar numa das conhecidas unidades hoteleiras. A população abre-se e fala livremente com os jornalistas. Muitos não gostam de ver o seu nome citado, mas não se coíbem de criticar o que acham que está mal, ou de elogiar o que pensam estar bom. Os grandes complexos energéticos, desportivos ou lúdicos da zona leste da ilha não se incluem, porém, entre as coisas boas.

“O Penedo do Sono foi uma ideia estúpida que surgiu do facto de algumas pessoas protestarem contra o ruído nocturno que se fazia ouvir durante o Verão no centro da vila”, reage furioso o proprietário dum restaurante. “Tanto se queixaram do barulho, que resolveram criar aquela área para encafuar lá tudo o que era bar e quejandos. Agora o resultado é este. Morreu aquilo, e quase morreu também o comércio no centro da vila”.

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As ideias até podiam ser positivas. A sua sustentabilidade é que não terá sido devidamente acautelada. Há uns anos atrás, eram muitas as notícias nacionais que favoreciam a aposta no biofuel criado a partir de algas marinhas que o Porto Santo estava a fazer, através da Empresa de Electricidade da Madeira, para diminuir a dependência do petróleo. Em 2008, o vice-presidente do Governo Regional, Cunha e Silva, prometia mesmo que numa fase seguinte, este projecto estender-se-ia mesmo ao resto da Madeira, numa clara aposta nas energias renováveis.

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Hoje, o projecto causa estranheza. O complexo no Porto Santo parece algo estranhamente saído de um filme de ficção científica, mas a herança financeira é pesada, e a rentabilidade foi-se. Miguel Albuquerque chamou a si a tutela directa do Porto Santo, reconhecendo os problema de ultraperiferia que o afectam. Passado um ano de Governo, esta continua a ser uma pesada herança para sustentar. E a população também não lhe reconhece grandes progressos – salvo o subsídio de mobilidade. Que não é nada mais nada menos do que considerado… meramente justo pela generalidade das pessoas com quem falámos. Mesmo assim, não faltam os comerciantes que se queixam bastante do facto de o navio Lobo Marinho ter de parar um mês para manutenção, durante o ano. “Gostaria de ver o que aconteceria na Madeira se a empresa Horários do Funchal parasse durante um mês por ano”, disse-nos um empresário da restauração, que considera também proibitivos os custos do transporte de mercadorias. “E ainda querem que ofereçamos produtos ao mesmo preço do Funchal?”, questiona-se.