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Cada dia que passa contém, para cada um de nós, uma história e um significado. Ainda que a rotina não proporcione matéria atraente para que dela se fale, há um significado intrínseco a cada acto humano, que poderá incitar a um registo pessoal de quem, desde a primeira luz do dia, às primeiras luzes da noite ( melhor será se houver lua cheia) experimenta o prazer de viver. Simplesmente viver, sem usar adjectivos.
A vida humana insere-se num acto de comunicação alargado e os humanos possuem uma qualidade específica, entre a fauna do planeta, que é a do uso da fala e da manipulação da Palavra. Para assinalar com júbilo esta qualidade criou-se o Dia Internacional da Língua Materna, com data marcada a 21 de Fevereiro. Para nós, portugueses, que fomos espalhando as nossas palavras pelo mundo, assinala-se a data especial de 5 de Maio, como o Dia da Língua Portuguesa e da Cultura nos países lusófonos. Na sede da Organização das Nações Unidas, em Nova York, ouviu-se falar português a 5 de Maio.
A partir daqui podemos também falar do prazer que me dá encontrar-me com algumas espécies de palavras. Desbaratadas andam algumas delas, em discursos ruidosos, em diálogos inflamados, em efeitos de espavento, em circuitos de mau uso. Poderíamos abordá-las pela sua condição lexical, inseridas em famílias, agrupadas em “tribos” morfológicas, numa enorme panóplia de classificações: as complexas, as compostas, as homógrafas, as homófonas; agudas, graves e esdrúxulas, simples ou variáveis; nomes, pronomes, adjectivos, e muitas mais roupagens com que se apresentam à busca aficionada dos estudantes. Contudo não as queremos fechadas em casulos, mas activas e significantes.
Hoje preciso de referir-me ao campo particular dos sentimentos e das ideias e olhá-las como as intermediárias entre a língua restrita do senso comum e a língua expressiva do plano utópico. A verdade é que, nem os sentimentos, nem as ideias, possuem na linguagem humana os vocábulos perfeitos que os traduzam inequivocamente. Numa carta ao universalista Marin Mersenne, matemático e filósofo francês, do sec. XVI, dizia Descartes: “ As palavras que nós temos, quase que só apresentam significados confusos”. Não existe ninguém possuidor da palavra-chave que conduza à realização duma língua universal, cujo êxito seria a posse do saber e a reconciliação da humanidade na paz. A Babel é o signo fatídico que marca o desgoverno estabelecido nas sociedades e o desentendimento dos países.
Mas…preciso de ressalvar um “mas” que me conforta e conforta certamente aqueles que, à procura duma luz na direcção do espírito, tentam conciliar os desatinos causados pela ignorância ou a soberba, pela imprudência ou pela má-fé. Os que, aplicando uma linguagem criativa consigam ver “alguma coisa que ainda não tem nome” e a transfiram para uma “imagem verbal”. Georges Gusdorf afirma que a “imagem verbal que se exprime em frases mais ou menos complexas, por vezes reduzidas a uma só palavra, responde sempre à manifestação de um sentido. E conclui: “A palavra não é o ser, nem a sua ausência, mas um compromisso da pessoa entre as coisas” e o mundo vivo.
É este o compromisso dos poetas. Num processo constante de procura e, ao declararem a sua permanente inquietação, os poetas fazem das palavras, não a expressão definitiva duma clausura, mas congregam nela a vontade duma liberdade exemplar e pacificadora. Esta deveria ser uma preocupação de todos, a de arrancar cada ser humano da sua maldição. É por isso que a poesia é um dos processos criativos que mais se aproxima duma desejável linguagem universal, através da qual cada um se possa considerar como elemento de franca e leal consciência.
O canto do poeta, diz Gusdorf, “faz ouvir uma fala mais secreta, [mais intensa] e mais pura, livre de contaminações exteriores, um grito sublimado em que a expressão atinge o seu valor mais nobre”. Mas “o homem vivo, escritor ou não, tem sempre qualquer coisa a dizer como uma contribuição para a realidade do mundo”. Este é o cerne da sua ética e responsabilidade: Uma palavra especial.
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