Vamos parar de fazer de conta?

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Quando somos crianças, gostamos de brincar a fazer de conta. Depois crescemos, a realidade da vida vai-se impondo e só em circunstâncias ocasionais voltamos por momentos a brincar a fazer de conta, desempenhando papéis que não são os nossos e apresentando-nos como se fôramos outras pessoas. Às vezes fazêmo-lo, se calhar, por sentir saudades duma infância feliz ou por motivos que os psicólogos e os psiquiatras saberão desvendar. Geralmente é assim. No entanto, há pessoas que pela vida fora teimam em continuar a fazer de conta, por falta de amadurecimento, conveniência, acomodação ou por perversidade, para defender interesses egoístas e dominadores. E quando estas atitudes vêm de pessoas com especiais responsabilidades sócio-económicas, políticas ou culturais, é a sociedade, no seu todo, que sofre os efeitos e alguns bem trágicos.

Explico-me através duma breve introspecção por duas realidades actuais, uma de âmbito internacional e outra de âmbito regional, local.

1.       Toda a gente já percebeu a hipocrisia política que reina naqueles países que dizem combater o Estado Islâmico. Primeiro criaram-no para combater interesses hostis ao seu poderio e agora que já não conseguem controlar o seu crescimento, aparentam combatê-lo, com acções militares que agradam tanto às fábricas de armamento e depois satisfarão os apetites das grandes empresas construtoras que um dia reconstruirão cidades destruídas, mediante contrapartidas generosas. No ano passado, a deputada europeia Marisa Matias, numa intervenção no Parlamento Europeu, disse uma coisa muito simples: se querem destruir o Estado Islâmico o que há a fazer é não lhe fornecer armamento e não comprar o petróleo que eles obtêm nas zonas que dominam e que colocam à venda no mercado negro, a preços mais baratos. Os países, alguns da União Europeia, que comerciam com o Estado Islâmico, estão dispostos a fazê-lo? Não parece. Então, estamos a brincar ao faz de conta. E as consequências trágicas estão aí à vista de toda a gente! A coordenação de acções militares e de serviços de inteligência é urgente e necessária mas não chega. E como explicar o êxito de recrutamento de cidadãos europeus para o Estado Islâmico? Como está a fé e a vivência real dos valores da civilização ocidental? Os Estados Unidos quiseram “impor a democracia” no Iraque, Líbia e Síria ou ajudar os opositores desses regimes para melhor defender os seus interesses económicos e estratégicos? Estes países estão melhores hoje? E os actos terroristas que estão a acontecer no Paquistão e na África contra os cristãos e por rivalidades étnicas, que informação merecem na comunicação social europeia? Não estaremos a fazer de conta que não sabemos? E o problema dos refugiados não está ligado a esta situação terrível porque está a passar o Mundo?

2.       A diocese do Funchal viveu, no passado mês de Fevereiro, uma onda de empolgante religiosidade, em torno da visita da Imagem Peregrina de Fátima. Concentrações, procissões, reza do rosário, manifestações de júbilo saciaram a fome do sagrado e a piedade de muitos católicos madeirenses e fizeram esquecer as dificuldades de vida do presente. E muita gente parece estar convencida que esta afirmação pública de fé popular deu um novo e vibrante impulso à religiosidade católica madeirense e consolidou a importância da Igreja na Madeira. Entristece-me, como católico que sou, verificar a ignorância religiosa de muitos católicos sinceros que continuam com uma visão infantil do cristianismo e da Igreja e com um relacionamento individualista e egoísta com Deus, alheados dos irmãos e felizes com as suas certezas. Entristece-me também verificar a ignorância religiosa de muitas pessoas com formação académica e/ou profissional e que falam e criticam a Igreja e os católicos como se fossem uns doutorados na matéria. Entristece-me ainda verificar a frieza e a indiferença com que outras pessoas, sobretudo mais jovens, encaram o conhecimento da religião e os princípios morais e religiosos da tradição cristã, sobretudo quando os vejo debitar ao pormenor conhecimentos desportivos, da moda, da música, dos estabelecimentos de diversão e da vida pessoal de figuras do jet set. Entretanto a prática religiosa vai diminuindo e continua a vaga de deserções da Igreja Católica para seitas religiosas e outras Igrejas Cristãs de menor dimensão, por via da ignorância, da pouca atenção que alguns sentem que a Igreja lhes dá, por conveniências económicas e por desilusão de alguns católicos que continuam a ver a Igreja demasiado ligada ao poder político e económico.

Não quero ofender nem escandalizar ninguém. Mas já não tenho idade nem pachorra para brincar ao faz de conta!


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