Comandante da Zona Militar deixa Madeira melhor preparada

serronha 2(Com Cristina Costa e Silva) / A Zona Militar da Madeira está agora melhor preparada para responder a catástrofes e outros acidentes que aconteçam na sua área de operacionalidade. Quem o disse foi o comandante operacional e da Zona Militar, que hoje deixa o cargo, três anos depois de ter recebido a chefia da “tropa”.

Em declarações ao Funchal Notícias, Marco Serronha faz um balanço dos últimos três anos e garante que deixa a região com melhor preparação para responder a qualquer eventualidade que envolva os meios civis e militares, porque em vez de um exercício por ano – alternados com a participação ou não do Serviço Regional de Proteção Civil – passou a haver dois, o que, à partida, garante mais preparação das forças envolvidas.

O comandante lembra, por isso, o reforço de meios do continente sempre que foi possível nesses treinos, nomeadamente a vinda para a Madeira do Hospital de Campanha do Exército no decorrer de um exercício em Novembro de 2013 e o empenhamento de meios baseados em Lisboa que vieram sempre que possível juntar-se aos disponíveis aqui operados pela Força Aérea, a Marinha e o Exército.

O objetivo foi, essencialmente, testar as capacidades de reação de todas as estruturas envolvidas. Por exemplo, fazer um exercício em Santa Margarida não é o mesmo que deslocar meios para uma ilha e há que ter capacidade para responder a qualquer situação imprevisível, se for necessário.

O Major General, que hoje passa o testemunho a Rui Clero, ex-chefe de Gabinete do antigo ministro da Defesa Nacional, Aguiar-Branco, também admite que há neste momento uma nova forma de comunicar os assuntos e temas daquela área, porque houve uma manifesta aproximação à sociedade civil, nomeadamente com instituições como a Universidade da Madeira, com quem desenvolveu parcerias ao longo dos três anos que aqui esteve.

A delegação da Madeira da Associação de Auditores de Defesa Nacional foi outra das entidades com que Serronha aproveitou para estreitar os laços com os militares, desenvolvendo conferências conjuntas e iniciativas que visaram transpor para fora dos quarteis a visão estrita da Defesa que se tem.

Não obstante, o oficial que deixa hoje o Comando Operacional e a Zona Militar da Madeira, também não esconde que a sociedade em geral está afastada de sectores como a defesa, a economia, a política, não querendo com isto acusar qualquer “desinteresse” por parte dos cidadãos, mas uma situação «transversal à sociedade portuguesa, não sendo específica dos políticos ou dos académico ou da própria sociedade civil». De qualquer forma, reconhece que «as pessoas andam afastadas destas questões», apesar de nos últimos anos haver a constatação de que «a segurança não tem a ver só com a Defesa Militar». Explicando, Serronha lembra que as pessoas começam a ter «a perceção cada vez maior de que coisas que se passam em sítios onde há 50 anos não queríamos saber, têm hoje influência direta não só na segurança física das pessoas, mas a segurança económica e essa traz problemas complicados de sobrevivência».

Nos últimos três anos, entre as conferências que desenvolveu, destaca-se a recente sobre Segurança e Defesa, no Museu de Imprensa da Madeira, onde reuniu especialistas e estrategas nacionais e regionais durante dois dias e de onde saiu a conclusão de que é preciso mudar as mentalidades até dos próprios políticos e decisores, esperando a continuidade destes encontros. «Se as principais “chefias” económicas, políticas e académicas que estiveram na conferência importarem para as suas instituições alguns dos conhecimentos do que ali se sentiram estimulados a aprofundar, já é um passo importante».

A morte de uma cidadã nos incêndios de 2013, nas zonas altas de Santo António, por uma viatura militar com uma súbita avaria, foi o pior momento por que passou na região, sobretudo porque ocorreu num contexto em que o Funchal estava sob um grande stress, com a evacuação do hospital dos Marmeleiros para o Regimento de Guarnição nº3, o realojamento de pessoas retiradas das suas habitações e o próprio apoio no combate às frentes de fogo.

Apesar do desfecho trágico da operação, o Major General lembra que ninguém imputou culpas ao militar envolvido nem ao próprio exército, tendo a instituição prontamente auxiliado os vários lesados do triste acontecimento – ironicamente a senhora atropelada era irmã de um militar – não podendo apenas fixar as indemnizações que decorreriam do processo instaurado pelo Ministério Público. De resto, o arranjo dos automóveis e propriedades danificados pela descida descontrolada da viatura militar, foi uma prioridade, para minimizar os efeitos desse Agosto de 2013.

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Quanto a momentos que não vai esquecer da sua passagem de três anos pela Madeira, enaltece que a sua experiência em muitas missões internacionais, nomeadamente o comando de um Batalhão na Bósnia e o posto de segundo comandante da Força da NATO no Kosovo, contribuíram para que releve a importância da integração entre as componentes civis e militares e o diálogo que tem de haver no cumprimento de determinados objetivos. Isso não acontece só em situações de conflito ou cenários de guerra e aqui na Madeira foi possível comprovar que «se houver um relacionamento institucional bom entre as diversas entidades e se houver amizade, ainda melhor, é muito mais fácil ultrapassar as dificuldades, do que se as pessoas e as instituições não mantiverem contactos e só tiverem de se juntar apenas para um projeto temporal».

O homem que hoje passa o comando das Forças Armadas na Madeira, reconhece que, por exemplo, no continente, quando as forças se juntam, por exemplo, para combater incêndios, «a probabilidade de as coisas correrem mal é grande». Aqui, prossegue, «estimulei que o treino e a participação em exercícios, já desde a fase inicial de planeamento para que houvesse objetivos comuns e cenários que interessem a todos trabalhar, é um factor fundamental, sem isso não há sucesso, nem eficácia ou eficiência no cumprimento das missões no terreno».

Em suma, compara que «provavelmente antes do 20 de Fevereiro a cooperação não era tão grande, foram todos para o terreno, é certo, fizeram um trabalho magnífico, mas se tivessem sistemas já integrados de treino, provavelmente poderiam ter socorrido mais sítios em menos tempo, porque a organização teria sido mais eficaz». «Julgo que é essencialmente por isso que servem os exercícios que realizámos ao longo destes anos», rematou.