Madeirense licenciado em arquitetura no Porto convidado a fazer projeto em Buenos Aires

samuel 1 Samuel Jarimba é um jovem madeirense de 22 anos, finalista do curso de arquitetura da Universidade do Porto, rendido aos encantos da América Latina. Aluno de mérito, foi convidado por um atelier de Buenos Aires para ser responsável por um projeto de arquitetura. Atento aos detalhes e avesso aos roteiros turísticos que deformam a cultura genuína, este jovem, natural de Machico, fugiu aos estágios standard europeus para conhecer os detalhes da cultura da América Latina e lá regressa no dia 3 de março para trabalhar no seu projeto. Se por cá ficasse, teria provavelmente à espera o desemprego ou um trabalho de estagiário, atrás de uma secretária, a fazer fotocópias e a entristecer a jóia da coroa de um artista que é a criatividade.

Quando acabou o ensino secundário, Samuel Jarimba tinha consciência da cumplicidade que o ligava à pintura e à escultura, muito também inspirado nos trabalhos dos professores que o orientaram, nomeadamente o escultor Luís Paixão. Estava com média de 18,5 valores e, após alguma indecisão, tomou a decisão de se candidatar ao curso superior de arquitetura na prestigiada Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto. Não sabia o que o esperava, como tantos jovens que mergulham no ensino superior.

Natural de Machico, este jovem entrou, há cinco anos, na primeira opção de candidatura e rumou ao Porto. Esperava-o um ano “difícil” que faz parte da transição do ensino secundário para o superior. Mas foi superando as dificuldades e passou a ser um dos bons alunos da Faculdade de Arquitetura da Cidade Invicta. Foi formado num ensino universitário exigente, o que só abona no prestígio da Faculdade no mundo.

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O caderno de viagem que sempre acompanha o jovem, Samuel.

Passaram-se cinco anos e, no último ano do curso, impôs-se o clássico intercâmbio destes finalistas. A Universidade apresentou aos alunos uma listagem de universidades possíveis e Samuel Jarimba, no estilo pessoal de ir contra a corrente, fugiu à concorrida Europa, onde o traçado arquitetónico “é mais do mesmo”, e optou pela Argentina, em demanda da novidade. O ano letivo deste intercâmbio arrancou em agosto do ano passado com data de término em dezembro de 2015.

Buenos Aires à vista. Uma chegada com um clima hostil: chuvas intermináveis e sem as típicas praças engalanadas com os cafés e esplanadas para o lazer e até mesmo para o trabalho. “A cidade é um quadriculado como Barcelona”, recorda Samuel. “Não há espaços verdes abrigados e a chuva obrigava a permanecer em casa”. Mas depois veio o sol e uma cidade nova desabrochou aos olhos deste jovem arquiteto, curiosamente, escondida nos dias de mau tempo.

Universidade do Porto: 2 mil e tal alunos. Universidade de Buenos Aires: 37 mil alunos. As estatísticas dizem bem da mudança. Por isso, o estágio fez-se com uma panóplia de professores, de disciplinas, de rotinas… Samuel teve à sua responsabilidade quatro disciplinas.Ficou a experiência, com méritos e deméritos.

Antes de ir para a Argentina, foi alertado para os problemas de insegurança e para a necessidade de se proteger. Mas não sentiu esse problema, confessa ao FN: “Buenos Aires é uma cidade à parte do que é a Argentina. Qualquer uma das suas cidades podia ser europeia, na sua arquitetura e até gastronomia”.

SAMUEL CADERNO DE VIAGEM
Pé na estrada e caderno de viagem, foi desenhando os lugares e anotando as suas características.

Buenos Aires é uma cidade que deixa marca no visitante, reitera. Samuel destaca o clima nos dias de verão e a disponibilidade do seu povo. Por isso, terminado o intercâmbio, por opção pessoal, não regressou nem ao Porto nem à Madeira. Decidiu viajar pela América do Sul. Foram dois meses de descoberta. Começou por partir à aventura com um amigo que, por sua vez, convidou outros. Mas não é fácil alinhar feitios e Samuel Jarimba, volvidas duas semanas, decidiu viajar sozinho, sem estar dependente das particularidades do grupo. Ficava na cidade que gostava e a liberdade de conhecimento era maior. “No conhecimento que procurei ter da América do Sul, o meu objetivo foi o de sempre procurar fugir ao roteiro turístico porque era uma máscara das cidades a visitar. As agências vendem algo que já não existe ou que é demasiado forçado. Preferi sempre apreciar mais os pormenores do que a propaganda turística”.

Fazia-se à estrada pelas 8h00 para mirar as pessoas, a arquitetura, deambular pelas ruas…foi uma experiência “deveras interessante”. Quando chegava a um local criava facilmente amizades, o que foi um dos aspetos mais importantes nesta incursão. “Tentei ao máximo não pesquisar nada do local que visitava para fugir aos estereótipos”, sublinha.

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Com o sol, a América Latina enche-se de encantos mil.

Faltava, no entanto, a experiência de trabalho. Samuel Jarimba bateu à porta de um atelier de arquitetura em Buenos Aires para pedir um estágio não remunerado. Na Faculdade, aprendeu a fazer projetos no papel e a receber muita teoria dos professores. Faltava o contacto diário com a realidade. Ao fim de dois meses, o patrão achou piada ao seu estilço e pediu para ficar mais seis meses. A “escola” do Porto foi-lhe valiosa porque impressiona os estrangeiros. Foi com esta experiência que se apercebeu do elevado gabarito que a sua Faculdade do Porto tem no mundo.

Dada a elevada densidade populacional do país, há sempre projetos a nascerem do zero. Então, o seu orientador de estágio, arquiteto e empresário, deu-lhe a oportunidade de testar o seus conhecimentos no mundo real e a aposta foi válida para ambas as partes.

Em Portugal, espera-o, como a dezenas de licenciados em arquitetura, o desemprego ou, então, ficar atrás de uma secretária a fazer trabalho de estagiário, policopiar desenhos ou nem isso…

Desafio: um projeto próprio

Está a passar umas curtas férias na sua terra natal mas está praticamente de saída. Já  decidiu: regressa a Buenos Aires. Sai da Madeira a 3 de março para mais uma experiência até agosto. Mas desta vez está ainda mais motivado: foi convidado pelo arquiteto argentino a regressar: “Vou ter a feliz oportunidade de ter um projeto, de ser responsável por algo de raiz. Se fosse para a Europa, ficaria atrás de uma mesa, a corrigir trabalhos…”

Vai para Buenos Aires com um amigo e, cada um, vai ter o projeto de construção de uma moradia. É o fascínio de começar um projeto da base, desde a relação com os clientes para definirem o que pretendem até à escolha de materiais, preços, e elaboração do projeto.

Tem consciência da realidade económica de Portugal. “Acho importante sair, sem nunca esquecer Portugal, nem que seja para observar novas perspetivas”.

O povo argentino também exerce o seu fascínio no forasteiro. A cultura da poupança ou até de “dormir sobre um assunto” até à sua decisão não dizem nada a esta gente. O lema é viver ao máximo cada dia porque ninguém sabe como será para a semana. Também por isso viajam muito. “Muitos argentinos  conhecem melhor a Europa do que eu”.

No entanto, Samuel Jarimba notou que “a Argentina é um país que lhe falta personalidade própria”, isto é, tudo parece europeu. Em termos de América Latina, do que viu, considera que quem mantém mais o traço genuíno é a Bolívia e o Perú. De resto, Chile e Argentina demasiado europeus. “Deveriam desprender-se mais da Europa e seguir o seu próprio rumo e matriz cultural. Falta-lhes muita organização, mas é outro traço cultural: Eles vivem organizados no meio do caos”.

A família já se habituou a vê-lo partir, seguindo a inquietação da descoberta. É próprio da juventude, mas de uma juventude que não é nada “rasca”, como noutro tempo e de forma errada já se chegou a apregoar. São jovens, herdeiros do seu tempo e da sua cultura, e querem dar aso à criatividade que só se pode expandir caminhando e descobrindo.

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Um dos desenhos de Buenos Aires, no caderno de viagem.

 

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