Maria Aurora: o rosto da cultura madeirense

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Fotos de Rui Marote

O FN relembra hoje uma figura que muito contribuiu para a dinaização e divulgação cultural da Madeira quer na Ilha quer no mundo: Maria Aurora, de seu nome.

Não era uma figura consensual, nem tão pouco gostava disso. Arrojava-se às empreitadas de alma e coração. Entrevistou escritores, divulgou arraiais, usos e costumes, escreveu livros e foi criticada e louvada pelos poderes, mas raramente se calava. Quando a colocavam em xeque, tinha alguns amigos que a defendiam em público. Outros que preferiam o cómodo silêncio.

Maria Aurora não nasceu na Madeira mas tinha alma madeirense e aqui assentou arraiais. Hoje, com os canais abertos de divulgação de eventos e figuras, é fácil mostrar o trabalho de um escritor ou de uma banda ou de uma exposição. Mas, há cerca de três décadas, os meios de divulgação eram muitíssimo escassos e lá estava sempre a Maria Aurora, de sorriso pronto, de abraço além atlântico, para divulgar talentos e acontecimentos.

Hoje, multiplicam-se as redes sociais e outros suportes de divulgação. Mas o FN atreve-se a dizer que, pessoas como a Maria Aurora, farão sempre falta. Por vezes, era a voz crítica que se impunha e desestabilizava os lobbies e os poderes instituídos. Sim, mesmo apesar de lhe atribuírem alguns “rabos de palha”, afinal não há puros. Mas sempre que a injustiça gritava, a voz da Maria Aurora não se calava.

Partiu cedo do nosso convívio. A cultura ficou mais solitária e pobre. As homenagens reconheceram-lhe os méritos. Mas quanta saudade da gargalhada e da voz amiga da Maria Aurora, a entrar nas casas dos madeirenses, no fim de uma tarde de sábado ou num dia de arraial à noite, para mostrar os que os outros tão bem sabem fazer.

Ali, pelo Teatro Municipal, quase que lhe sentimos o respirar: à volta de uma mesa, no café – que já pouco tragava na parte final da doença – e sempre pronta para resistir a uma querelas. Para uns, a cultura era o quintal da Maria Aurora. Mas um quintal democrático, onde todos tinham direito a tempo de antena.

A Madeira segue o seu rumo, com grandezas e misérias e outras auroras se sucedem umas às outras. Mas, reiteramos, a Madeira continua mais pobre e solitária na cultura sem a Maria Aurora.