O testemunho dos idosos: é difícil conviver com doentes de Alzheimer

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Na prossecução dos trabalhos que publicou ao longo de uma semana que dedicou a alertar para os problemas que os idosos atravessam na sociedade actual, o Funchal Notícias publica hoje uma reportagem na qual procurou auscultar estes cidadãos séniores sobre as suas vivências e ansiedades. O que buscávamos era uma pequena amostragem de pessoas de idade avançada mas destituídas da sua antiga independência, principalmente por motivos de mobilidade ou de saúde, mas de raciocínio intacto. Fomos encontra-los no Lar do Vale Formoso. A experiência foi interessante e significativa.

O Lar do Vale Formoso, tutelado pela Secretaria Regional da Inclusão e Assuntos Sociais, é, tanto quanto nos foi dado ver, uma verdadeira unidade modelo. Solicitáramos, inicialmente, o acesso ao Lar da Bela Vista, mas a Secretaria entendeu sugerir-nos este lar, e não dissemos que não.

Curiosamente, podem-se daqui extrapolar algumas conclusões. Se as preocupações dos utentes de um lar tão bom, a nível de condições físicas e, aparentemente, dotado de pessoal atencioso como o Lar do Vale Formoso são estas, as dos utentes de um lar mais sobrelotado e menos “luxuoso” como o da Bela Vista ou de outros nas mesmas condições não devem, certamente, andar longe.

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E que preocupações são essas? Bem, algumas são bem interessantes e levantam questões a que é difícil responder ou resolver facilmente. Uma delas tem a ver com a convivência com os doentes que sofrem de Alzheimer ou de demência. Para os mais velhos que preservam as suas faculdades mentais, essa convivência pode tornar-se, em certa medida, pesada e difícil. Alguns temem ficar como eles. Outros sentem empatia ou amizade por eles e sofrem por os verem sofrer. E outros ainda anseiam por companhia mais jovem, cansam-se um pouco de conviver com outras pessoas idosas e em degenerescência. Todas estas preocupações foram-nos expostas de forma franca e fazem-nos pensar. Numa sociedade que infantiliza os idosos, alguns deles querem ainda ser levados a sério e sentem-se mais como adultos do que como velhos. Como lidar com isso? As pessoas estão nos lares porque é difícil atender às suas necessidades em casa, e os idosos estão conscientes disso. Nenhum deles quer estorvar. Mas, no processo de aceitação de entrada num lar, e embora reconheçam o carinho que lhes é dado, também há alguma amargura latente, algum distanciamento do mundo, alguma tristeza de quem já não vê estender-se à sua frente o panorama da vida, mas vive sobretudo das recordações, das memórias do passado.

Por outro lado, há preocupações bem concretas que nos foram expostas. Porque não existe assistência psicológica ou psiquiátrica continuada, perguntam-nos. Muita gente que se encontra nos lares poderia dela beneficiar. Alguns porque sofrem estados de angústia ou depressão, outros porque lhes é difícil afastarem-se das respectivas famílias, outros simplesmente porque não lhes é fácil conformarem-se com a situação da velhice e da reduzida locomoção e demais maleitas que ela acarreta.

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Não falta também quem questione a inexistência de assistência de enfermagem durante a noite, mas apenas durante o dia. Se houver algum problema durante a noite, os utentes são encaminhados para o hospital. Há quem entenda que, com tantos enfermeiros formados e a necessitar de emprego, essa assistência deveria ser garantida 24 horas por dia. Todas estas observações caminham a par e passo com a constatação do empenho do pessoal encarregado de lhes prestar apoio na instituição na qual se encontram internadas. Não é isso que está em causa. Mas há muitas situações difíceis para lidar, e, embora se sintam acompanhadas e acarinhadas, as pessoas com quem falámos atreveram-se a colocar algumas destas questões.

A franqueza da conversa foi desarmante. Falar com pessoas idosas geralmente é, quando nos damos ao trabalho de ouvi-las. Eles sabem quando se está a valorizar a sua opinião, e não se sentem ansiosos por dá-la, mas minimamente reconhecidos na sua dignidade de seres humanos por alguém se dignar ouvi-los. Nem sempre é assim, na sociedade de hoje. Mas a maioria surpreende por não utilizar o estereótipo “no meu tempo é que era bom”, ou “as pessoas eram mais respeitadas antigamente”. Com esta última frase, alguns concordam, mas nem todos. Para aqueles que entrevistámos na instituição gerida por Sandra Duarte, que nos recebeu com amabilidade, o principal problema é a correria do mundo actual, as transformações que a sociedade sofreu, as exigências do mundo laboral aos adultos em idade activa. Estes cidadãos idosos sabem que é difícil a quem trabalha prestar-lhes a necessária assistência.

Há quem se sinta plenamente integrado num lar. Outros sentem-se confortáveis, mas afirmam que se tivessem mais mobilidade, estariam em suas casas. E era lá que preferiam estar. Se bem que também tenhamos ouvido o contrário.

Nos olhos de quem ouvimos perpassa a experiência de uma vida inteira, e ainda os prazeres e as agruras do presente. Mais as agruras, já que ser velho não é fácil. Entrevistámos utentes do Centro de Dia que funciona no Lar do Vale Formoso, e também residentes permanentes, nesta instituição recentemente remodelada, onde apenas permanecem cerca de 40 pessoas.

Judite Santos é uma frequentadora do Centro de Dia e surpreende pelo seu à vontade e bem-estar. Já não se move como desejaria, mas entende que toda a atenção que lhe poderia ser ministrada, está a sê-lo. “Os meus filhos gostam muito de mim”, refere. Um deles está doente, e isso é que a preocupa. Mas reconhece a preocupação dos seus descendentes consigo, e o facto de passar o dia na instituição ajuda-a muito. “Eu estava em casa muito só”, confessa. “Só via televisão e nada mais”.

Antigamente, bordava e trabalhava muito com as mãos. Podia estar sozinha em casa, mas estava entretida. Mas a habilidade manual foi afectada por uma doença, vai para um ano, e Judite viu-se reduzida a um estado de imobilidade que não lhe agradava.

Com o marido falecido há 19 anos, aos 77 anos, a nossa interlocutora não tinha muitas pessoas com quem conviver, enquanto os seus familiares tinham de trabalhar. O Centro de Dia proporciona-lhe maiores actividades e oportunidades de convívio. “Estou a viver mais a minha velhice que a minha mocidade”, revela. “Estou mais solta, mais à-vontade. Antigamente estava na casa do meu pai, e ele era uma pessoa muito rigorosa. No tempo do meu marido, ele trabalhava e eu estava em casa, e estava sempre ‘presa’, porque tinha filhos para cuidar”.

Judite acha que as pessoas ainda hoje em dia valorizam a opinião dos mais velhos. E agradam-lhe as actividades. No dia seguinte à nossa entrevista, um grupo ia ao Lar da Bela Vista, para fazer um ensaio “para o Santo Amaro”.

“A gente quer cantar ao presidente, e à dra. Rubina, e isso tudo. E a gente vai ensaiar com os outros”, diz-nos, animada. “As pessoas costumam dizer que estou sempre alegre”, ri-se. “Mas isto às vezes é a alegria na cara, e no coração estamos tristes. Porque sabemos que a velhice está a chegar, ou já chegou”.

“Antigamente”, recorda, “todos tinham respeito pelos seus. As minhas avós morreram em casa, tratados pelos seus filhos. Hoje em dia, as pessoas têm muito trabalho, todos têm de trabalhar, e há menos tempo”.

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Outra nossa interlocutora, que prefere não ser identificada e à qual chamaremos de Natália [nome fictício] considera que, ao contrário do que se diz, hoje em dia até há mais respeito pelos mais velhos. “Mas isso depende, de casa para casa, de ambiente para ambiente”.

Em seu entender, há quem realmente não tenha tempo para os idosos, e há quem o tenha, na realidade, mas não o queira ter. “Não estão para aturar a família”.

Na sua opinião, há um pouco de tudo. Quanto a si própria e ao seu ambiente, refere, “sinto-me protegida e bem relacionada com os meus familiares”. Mas admite que, de uma forma geral, “eles não podem tratar de mim”. Aos 81 anos, sabe que não pode obrigar os filhos, cujas obrigações profissionais os impedem de dar-lhe mais tempo, a prestar-lhe mais atenção. “Penso que a minha cabeça ainda está a ‘rodar’ não digo a cem por cento, porque com a idade sempre perdemos algumas faculdades, mas se continuar assim, não estará das piores”, congratula-se. E graças a isso, entende também melhor a situação. Lamenta a existência de “muito Alzheimer”, que se vê muito, assevera, inclusive em pessoas bem mais jovens que ela.

Por vezes, confessa, admite temer que o ambiente proporcionado pela convivência com doentes de Alzheimer prejudique as pessoas velhas que não sofrem desta doença. Mas depressa afasta essa ideia. O receio, porém, está latente.

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“Mas eu vim para utente do Centro de Dia de minha livre vontade”, sublinha Natália. O convívio com as pessoas é muito útil. “Já me custa até passar o fim-de-semana, porque já estou muito ambientada cá. Há distracções e actividades, diz-nos, “de acordo com as nossas possibilidades… exercício, passeios, dominó, bingo… É bom.”

Alice Quintal surpreende-nos pela idade: nada menos que 94 anos. E está muito bem. Nunca o diríamos. Parece ter uns vinte anos menos. E um desejo de independência. “Se eu pudesse andar bem, nem estava aqui”, confessa. Mas não lhe convém ficar em casa sozinha. Pode cair e já não se conseguir levantar sozinha, e foi precisamente isso que lhe aconteceu certo dia, anos atrás, quando se desequilibrou, sofreu uma queda e teve de aguardar longo tempo, caída no chão, que uma vizinha a descobrisse e ajudasse.

Por isso, vive hoje no Lar. E refere: “Eu mesma quis vir. E gosto de estar aqui. Dou-me com toda a gente. E por isso, penso que ninguém tem razão de queixa de mim”.

Alice é outra pessoa que sabe que as pessoas “têm a sua vida”, e não podem estar todo o tempo a tratar dos mais velhos, porque precisam de trabalhar. “As coisas mudam e as pessoas já não têm tanto tempo como antigamente. É bom haver estes lugares… [lares]. Aqui, toda a gente é minha amiga. Há pessoas que eu vejo mesmo que gostam de mim. E não é apenas uma nem duas”.

As angústias da velhice, porém, não a poupam. “Quando me levanto, não sei se chego à noite. Mas penso que se Nosso Senhor quiser, eu chego. E entretanto, chega a noite e eu ainda estou aqui. Mas qualquer dia, também já lá não chego”, refere. Mas não em tom lamentatório. “O que eu posso fazer sozinha, continuo a fazer. E continuarei. A vida é assim. Mais um dia”.

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Maria [nome fictício], 76 anos, é outra pessoa que pede para não a identificarmos na reportagem. As suas opiniões, no entanto, são interessantes. Esta é uma das pessoas que acha, ao contrário das outras, que hoje em dia não há tanto respeito para com os mais velhos do que havia antigamente. Não quer fazer generalizações, mas na maioria dos casos, acha que sim.

“Antigamente, vizinhos e familiares ajudavam-se mais, mutuamente”, constata. “Isso já não existe”.

Porém, sabe que a maior parte das pessoas hoje trabalha. “Chegam a casa, e têm a maior parte da sua vida por fazer: cuidar da casa, do jantar, dos filhos… Claro que não é muito fácil ter-se um idoso, principalmente quando esse idoso já “atrapalha”, não no mau sentido, mas no sentido de que já não é auto-suficiente e é preciso dar-lhe ajuda em tudo ou quase tudo”. Deixá-lo só também não é muito conveniente.

“Vejo aqui, a toda a hora, casos tão críticos, tão críticos, que as pessoas não os podem ter em casa, realmente”, diz Maria. “Principalmente famílias que lutam com uma certa dificuldade financeira”.

Por outro lado, denuncia, “que há famílias que podiam apoiar os seus idosos em casa, que têm possibilidades para isso e preferem não o fazer, também há”.

Não deixa de questionar se os lares deveriam servir para internar idosos com Alzheimer. Trata-se de uma doença, diz, e os lares não são anexos de hospitais nem pequenas clínicas. As pessoas com essa patologia deviam ser tratadas em outras instituições vocacionadas para tal, defende.

“Aqueles que ainda estão relativamente bem, que são muito poucos, acabam por ficar piores. Não melhoram nada. Nem um bocadinho”, declara. “Nos lares não se melhora nem um bocadinho, porque a maioria das pessoas está contrariada”.

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Não é o seu caso, refere. Veio por livre vontade, diz-nos. Mas porque não tinha outra alternativa. “Não havia ninguém rico que pudesse dizer-me que tomaria conta de mim sem prejudicar as suas outras obrigações, por exemplo para com os filhos… e a uma dada altura, nós temos a noção de quando já somos ‘pesados’, que já não somos autónomos. Há apoios domiciliários, mas esses apoios não são fiscalizados como se julga, e não funcionam tão bem como se pensa. Já tive o meu pai e a minha mãe com Alzheimer, eu é que estava lá. E nessas ajudas, faltava dois para zero. Claro que há umas pessoas que são as eleitas, são as que beneficiam sempre de apoios, mesmo que deles não precisem assim tanto. Isso faz parte da sociedade actual”, critica.

Conviver com idosos num lar nem sempre é fácil, explica-nos. O Centro de Dia é melhor. É que os velhos nem sempre querem estar com outros velhos. Querem falar com pessoas de diferentes idades. “Os idosos têm mágoas para contar, têm tristezas, têm alegrias que já passaram, que já foram. É quase tudo concentrado no passado, porque o presente já pouco ou nada lhes diz. Nem sempre é fácil. Falar com pessoas mais novas às vezes é como um bálsamo numa ferida que está a doer. Mas é um bálsamo temporário”, refere.

Joana [nome fictício], de 82 anos, constata também que hoje em dia “há mais utentes que sofrem, isto é, que são deixados abandonados nos lares”.

Esse, realça, não é o seu caso. Tem duas filhas que a visitam frequentemente, e que muita alegria lhe dão, ao contrário do marido, que, revela, nunca lhe deu valor. “As minhas filhas são a maior riqueza que Deus me deu”.

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Joana gosta de ir à casa das filhas, mas diz que o Lar do Vale Formoso agora é a sua casa. “Gosto muito”, sublinha. O pessoal é muito bom. “As funcionárias são muito minhas amigas, e tenho aqui tudo prontinho. Sinto-me confortável”.

Questionada, opina que antigamente, a sociedade mostrava de facto mais respeito para com os idosos.

A constatação de que o Lar alberga muitas pessoas com Alzheimer também aflora aos seus lábios. São pessoas com quem é difícil o convívio, porque “sofrem, coitadinhas”. Não é que os funcionários não lhes dêem carinho, mas porque a doença os tortura e os leva às vezes até a ter reacções raivosas. “É uma doença muito complicada, Meu Deus”.


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