A violência contra os idosos

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No ano das pessoas idosas, 1999, as Nações Unidas proclamaram que seria importante «uma sociedade para todas as idades» e que os idosos também participam no desenvolvimento. Que modelo de desenvolvimento é preciso inventar para que as pessoas idosas participem como pessoas de pleno direito e não sejam consideradas inúteis ou sejam simplesmente olhadas com indiferença?
As notícias vindas a público sobre as pessoas idosas são muito preocupantes. Não é novidade para ninguém que a sociedade a actual trata mal as pessoas de idade mais avança. É revelador o desrespeito que frequentemente os jovens manifestam contra esta faixa etária através da linguagem menos apropriada para se lhes dirigirem, o abandono a que frequentemente estão votados nas suas habitações, nos lares e nos hospitais…

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Há duas histórias de autores desconhecidos circulam por aí que são profundamente esclarecedoras quanto ao modo de proceder em relação aos idosos e especialmente que não devemos aplicar qualquer género de violência contra as pessoas da terceira e quarta idade, porque, novo és, mas se não morres antes, velho também serás…
Primeira história. Após o falecimento do pai. O filho colocou a mãe num asilo e visitava-a de vez em quando. Um dia, recebeu um telefonema do asilo, informando que ela estava à beira da morte. Foi correndo para ver a sua mãe antes do seu falecimento. Ao chegar junto da sua mãe, perguntou-lhe o que queria que ele fizesse em sua memória.
A mãe disse-lhe que colocasse ventiladores novos no asilo porque o asilo não tinha e «quero que compres também frigoríficos, para que a comida não se estrague, muitas vezes dormi sem comer nada»!
O filho ficou surpreso e balbuciou o seguinte: – mas… Só agora é que a mãe pede estas coisas no final da sua vida? Porque não reclamou tudo isso antes, logo no início quando veio para aqui?» A mãe entristecida respondeu: – eu acostumei-me com a fome e o calor, mas o meu medo é que tu não te acostumes quando os meus netos e teus filhos te colocarem aqui, quando estiveres velho!
A segunda história conta o seguinte. Um senhor de idade foi morar com o seu filho, a nora e o netinho de 4 anos. A família comia reunida à mesa. Mas as mãos trémulas e a fraca visão do avô, atrapalhavam-no na hora de comer. O filho e a nora irritavam-se solenemente com a bagunça:
– Precisamos de tomar uma providência com respeito ao pai – disse o filho.
– Já tivemos suficiente leite derramado, barulho comendo com a boca aberta e comida caída no chão.
Eles decidiram colocar uma pequena mesa num cantinho da cozinha. Ali, o avô comia, numa tigela de madeira, enquanto a restante família fazia as refeições à mesa, com satisfação… Quando a família olhava para o avô sentado ali sozinho, às vezes ele tinha lágrimas nos olhos que caiam pelo rosto enrugado pelo peso da idade. Mesmo assim, as únicas palavras que lhe diziam eram de admoestações ásperas quando ele deixava um talher ou a comida cair no chão.
O menino de 4 anos de idade assistia a tudo em silêncio. Uma noite, antes do jantar, o pai percebeu que o filho pequeno estava no chão manuseando um pedaço de madeira. Ele perguntou delicadamente à criança:
– O que é tu estás fazendo, filho?
O menino respondeu docemente:
– Oh! Estou fazendo uma tigela para ti e para a mãe comerem, quando eu crescer e vocês já estiverem velhinhos.
Aquelas palavras tiveram um impacto tão grande nos pais que eles ficaram mudos. O idoso que tinham em casa voltou ao seu lugar na mesa da família e comia livremente sem ser admoestado por nada do que acontecia derivado das suas limitações. Nunca mais lhe faltou a alegria.
A nossa atitude terá de mudar em relação aos idosos. Segundo os demógrafos das Nações Unidas, dentro de cerca de cinquenta anos, é muito provável que, pela primeira vez na história, haja mais pessoas com idade superior a 60 anos do que crianças com menos de 15 anos. Vai passando o tempo em que em cada dez pessoas uma tem 60 anos ou mais, até 2050 a relação será de uma por cada cinco. Pode prever-se que o número de pessoas com mais de 80 anos, «os idosos mais velhos», quintuplique. Perante tudo isto já ninguém nega que de facto estamos perante uma sociedade muito envelhecida. Quem contacta diariamente com as populações pode acompanhar in loco esta realidade crescente.
Assim sendo, não podemos encarar o envelhecimento como um drama, uma desgraça ou uma fatalidade que ninguém pode contornar. A sabedoria do envelhecimento requer uma maior consciencialização e uma maior protecção dos idosos. Uma delas prende-se com a protecção dos direitos das pessoas idosas. O que inclui a eliminação de tudo o que as exclui e discrimina na sociedade. Porque não dar aos idosos condições laborais para prolongarem a possibilidade de ter emprego, que lhes permita ajustamentos no local de trabalho como o trabalho partilhado, o horário de trabalho flexível ou planos de reforma que lhes permita assumir esse outro tempo de forma gradual? Porque não incentivar uma educação que não despreze as pessoas idosas, mas que as valorize e as coloque também dentro do diálogo geracional? E porque não inventarmos formas que protejam as pessoas idosas, para que nenhuma pessoa seja votada ao abandono ou à exploração desprezível de famílias que toleram os idosos só para ao fim do mês lhes extorquirem as pensões?
A sabedoria do envelhecimento, que parece ser cada vez mais necessária para o sentido da vida, depreende-se da mensagem do provérbio chinês que diz: «o que importa não é a idade que temos, mas sim como envelhecemos». Por isso, respeitemos isso nos outros, para que depois nos seja retribuído com dignidade quando chegar a nossa vez.


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