Mais próximos do céu

Irene-Lucília--icon

A dois passos  da  nossa  porta andam  os  “novos  bárbaros”  a  invadir  territórios,  na  ambição  de  erguerem  um  extenso  império  e  recuperar  antigas  possessões.  Forma-se  no  tempo  a  espiral  da  História  e  outro  arco  se  envolve  em  terrível  ameaça,  cuja  amplitude mal  se  imagina  e  muito  se  teme.  Formulam-se  perguntas,  ensaiam-se  conjecturas,  apela-se  a  quem  possa  agir  em  defesa  do mundo  convulsionado,  cientes,  embora,  duma  segurança  cada vez mais  efémera. Correm  más  notícias,  as  preocupações  toldam-nos  os  sonhos, mas  a  rotina  prossegue. E o  mundo  ainda  nos  oferece  a paz  das  serras  e  o  esplendor  do  sol.  Ainda  nos  oferece,  fora  das  cidades  e  da  corrida  das  horas  laboriosas,  o  manso  pousio  das  sementeiras,  o  pastoreio  tranquilo  no  alto  da  montanha,  o  abrigo  de  pedra  com  lareira  acesa,  o  acolhimento  cívico e espontâneo  dos  habitantes  mais  próximos  do  céu.

Quatro aldeias  olham  os  vales  profundos do  alto  da  Serra  da  Lousã  aonde  se  sobe  a  partir  da   acolhedora  vila  de  Góis. Têm  nomes  estranhos  e  uma  particular  fisionomia : Comareira,  Aigra  Nova,  Aigra  Velha  e  por  fim uma  de  nome  mais  familiar, Aldeia  da  Pena.  A  cor  ocre  das  casas  esconde  o  tom  negro  que  a  clivagem  revela,  quando  o  xisto  se  rasga  em  lascas com  que  se  constroem  as  paredes. Aldeia  da  Pena,  a  maior  das  quatro,  tem  dezasseis  moradores.  Comareira  é  a  mais  pequena ,  com  quatro  casas  e  uma  única  habitante. Encontrei-a,  uma  mulher  alentada,  ágil  e  magra, entre  um  pequeno  rebanho  que  acabara  de  soltar  do  curral  para o levar  até  a berma  da  estrada,  na  colina  sobranceira  à  moradia.  Vive  só, mas  o  filho  está  por  perto  a  trabalhar  em  Góis. O Telemóvel  aproxima-os. O  sorriso  desdentado   alarga  a  simpatia. O  acolhimento é  total  e  até  os  três  cães  tem  nomes oportunos  e  civilizados:  Ligeiro,  Benfica  e  o  mais  pequeno,  velho  e  cego  é  o  Poeta.

Em  Aigra  Nova, um  pequeno  Ecomuseu  recebe  os  viajantes  a  quem  revela  os  hábitos  da  Serra,  do mel às  castanhas  e  às  máscaras  de  cortiça. A entrada  é  livre  mas  apela-se à  generosidade de  cada  um  para  a  ajuda  voluntária  à  Associação privada  constituída  por  cinco  jovens  empreendedores  que dão  à  serra  o  trabalho  e  a  paixão.  Quatro  burros  e  quatro  humanos  habitam o  lugar,  dois  casais  que animam  as  terras,  património  valioso  donde  tiram  o  sustento   e  conservam  essa  forma  de  vida  que  não  trocam  por  outra.  Ali  entre  a  neve  e  o  vento.

  E  agora  o  sol  deste  magnífico  verão  de  Novembro   veste  os  lombos  de  um  verde  luminoso  e  abre,  de  curva  em  curva,  um  horizonte  próximo  de  grandes  penedos,  enormes  massas  escultóricas  que  ultrapassam  em  grandeza  e  beleza  a  autoria  dos  maiores  criadores. Os  Penedos  de  Góis  são  uma  poderosa  instalação  da  Natureza.

Um  casal  de  velhos  serranos  apaixonados,  em  Aigra  Velha,  são  uma  descoberta  fundamental..   Ele  vai  pelas  serras  levar  o  gado  às  terras  que  possui  na  Sertã. Cinco  horas  a  pé  até  a  casa  que  construiu  para  o  casamento. E  aqui  o  mundo  atrofia-se  e  a  surpresa  cresce. O enlace  foi  celebrado  na  Sé  do  Funchal  há  trinta  e  seis  anos.  De  repente  a  ilha é  evocada  num  lapso  de  tempo e  de  espaço que  não  têm  cômputo  nem  distância. O  nome  do  hotel,  o  Pico  Ruivo, são  evidências  que  não  levantam  dúvidas. E  assim, duas  montanhas  se aproximam  num  estreito  abraço  da  memória  que  une  o  Ruivo  à  Lousã.

 Coriolano  revela, com a ironia  a  saltar-lhe  dos  olhos, a lua de mel passada  num alojamento  de  cinco  estrelas  por  conta  da  greve  da TAP  e  abraça,  com um carinho levemente  malicioso, a  sua  Maria Claro, descendente  duma  velha estirpe  de serranos abastados,  cujo  sangue não  se  fez  da  linfa  azul  que  distingue as  espécies  nobiliárquicas,  mas  da  frescura  da  água  das  nascentes  e  da  lonjura  dos  montes e  manifesta  o  orgulho  das  penhas  que  enrijece  o  carácter  e  fortalece  a  alma.  A Natureza  e  os  seus  sortilégios despertam-lhe a curiosidade  dos  olhos e  levam-no a recolher  as  formas  zoomórficas dos pequenos  troncos  de  árvore  e as  pedras  marcadas por estranhos  embutidos,  que  colecciona  sobre  o  telhado  e  mostra  aos  visitantes,  com  quem  partilha  a  sua natural  capacidade  de  ver  e  sentir.  Coriolano  percorre  as  serras  a  pé,  pegureiro  por  tradição  e  gosto,  mas  volta  sempre  a  Aigra  Velha  e  à  amada  companheira  dos  seus  dias.   Com  os  filhos  longe,  são  ao  únicos  habitantes  da  aldeia  que  herdaram  da  família.  Aigra  Velha  enaltece  a  memória  dos  Claro  com  direito  a  legado  no  recente  Ecomuseu de  AIgra  Nova.

Por  fim  a Aldeia  da  Pena   alonga-se  numa  encosta  mais  funda  sobre  uma  ribeira  ruidosa  pela  força  da  água  que corre  do  alto.  O  acesso  faz-se  por  um  longo  caminho  pedregoso, mais  antigo,  mas  outro  traçado mais  recente facilita  a  entrada  por  uma  exígua  ponte. É  a  zona  mais  próxima  dos  Penedos  que  permite  a  fruição  demorada  destas  gigantescas  formações. A mesma  vida  de  pastorícia, o fogo  de  lenha  e  alguma  memória  de  emigração.  Algumas  casas estão  recuperadas  na  traça  do  xisto  com  um  toque  de  modernidade  que não  ofende o perfil  primitivo.

Com  a  rede  eléctrica  a  cobrir  toda  a  serra  e  a  água  conduzida  pela canalização  está  assegurado  o  conforto  básico de todas  as  aldeias,  mas  há  ainda  muita  água  a transbordar  de várias  nascentes  e  pequenas  cursos  dispersos  que  o  povo  utiliza  na  irrigação  das  terras.  E o  fogo  de  lenha  dá  melhor  sabor  ao  pão  e  às  couves.   O  pequeno  rafeiro  cor  de  mel  recebe-nos  com  a  afectuosa cortesia  dos  aldeãos    e  acompanha-nos  na  descida  até  à  boca  da  aldeia  de  onde  nos  despedimos  com  o  coração  lavado.  A tarde desce  rápida  sobre   a  tranquilidade  dos  nossos  passos. …E  se  ficássemos  aqui ? A  Casa  da  Cerejinha  dispõe  de  alojamento.

 Num  mundo  tão  conturbado,  quem  não  desejaria  esta  paz ?


Descubra mais sobre Funchal Notícias

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.