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Enquanto desenvolvia a sangue frio políticas recessivas, destruidoras da qualidade de vida, de emprego e de esperança, sobretudo para os jovens, a direita portuguesa, através do seu governo e do seu presidente, nunca deixou de encher a boca de futuro, inovação e empreendedorismo e expressões da mesma índole, como “destruição criativa”, “sair da zona de conforto”, etc. O presente é terrível? É, mas com tanta inovação e empreendedorismo, com tanta oportunidade criada pela famosa destruição criativa, que colocou a emigração portuguesa a níveis de 1960, não há como o país não recuperar a breve prazo, pelo que o futuro é o paraíso. Mas na condição de o país continuar nas mãos do grupelho que se apoderou do PSD e o esvaziou da tralha social-democrata. E do artista português, não muito suave, que sacrificou a matriz democrata-cristã do CDS à sua vaidade pessoal, essa, sim, irrevogável, de fazer de muleta do grupelho que sequestrou a social-democracia do PSD, em troca de fazer parte de um governo.
A direita portuguesa, onde já pontificaram nomes como Sá Carneiro e Freitas do Amaral, desembocou nesta coisa informe e reacionária, impiedosa e mentirosa. Dir-se-ia que esperou quarenta anos por uma oportunidade para ajustar as contas com a História recente (o 25 de Abril, claro), e, quando a teve, por causa do pedido de assistência financeira que colocou o país nas mãos da troika estrangeira e o poder em Portugal nas suas mãos avarentas, aproveitou a ocasião. E acreditou que a conjuntura duraria para sempre. Para sempre, que para esta direita sem memória nem visão, o poder e o seu exercício absoluto passaram a ser encarados como uma espécie de direito natural, cuja manutenção só poderia estar acima de qualquer questionamento.
É claro que sempre contaram que o PS estaria disponível, caso fosse útil, porque aritmeticamente necessário, para completar o ramalhete do “arco da governação”, essa aberração “democrática” que considera nulos os votos das centenas de milhar de portugueses que votam à esquerda do PS. Sempre contaram que o PS nem teria escolha nem autonomia estratégica, mesmo depois de ter sido pura e simplesmente ignorado durante quatro longos e penosos anos de retrocesso social imposto por uma direita, cada vez mais radical, aos portugueses, nomeadamente aos mais desprotegidos. Que o PS estaria refém de si próprio e da Fonte Luminosa. Que o PS eram favas contadas.
Pois bem, enganaram-se. E não foi apenas em relação ao PS que se enganaram. Nem só não terão mais quatro anos para completarem a tarefa de desregularem de vez as relações de trabalho, desmantelarem o que resta do estado social e fazerem regredir o país aos tristes anos da emigração a salto e da tragédia das bidonvilles, como conseguiram a proeza de tornar obrigatório o diálogo à esquerda.
Chama-se a isso autodestruição criativa: o país nunca mais será o mesmo.
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