Desculpem a insistência, mas não há como fugir ao tema: mais uma vez, Cavaco, o presidente que não tem tempo para festejar a República, concedeu-nos descer por uns minutos dos píncaros da sua hirta majestade para lembrar a um milhão de eleitores portugueses (um em cada cinco votantes) que os seus votos, além de serem de segunda categoria, de nada valem, porque incomodam sua majestade, o partido de sua majestade e a direita em geral e podem, inclusivamente, incomodar os mercados. E para recordar que, segundo a sua hirta e majestática opinião, o destino do PS e dos seus 1,74 milhões de votos só pode ser o de estar de acordo com mais austeridade para poder ser considerado consistente, o que passaria por ser conivente com um governo da direita finalmente reduzida à minoria do costume (pouco mais de 38%), mas preparando-se para continuar a governar como se o povo lhe tivesse outorgado um cheque em branco.
O resto, já todos sabem: quanto mais Cavaco se torcia para não pronunciar os nomes dos partidos cujo nome não deve ser pronunciado (BE e PCP, cruzes, credo!) e mais apelava ao bom senso de presumíveis franco-atiradores de coração à direita infiltrados no PS, mais estes se diluíam na “unidade”, não fosse alguém perceber que Cavaco falava para eles. Nestes dias, como toda a gente sabe, tamanha distinção por parte de Cavaco é pouco menos do que um anátema, de modo que o seu tiro saiu pela culatra.
E agora, perdida a maioria parlamentar e estando condenado o futuro governo da coligação, com sentença que transitará em julgado no dia da votação das moções de rejeição, as ondas de choque da inabilidade estrondosa de Cavaco ainda podem contribuir para fazer a direita perder o seu derradeiro troféu, ou seja, a presidência. Quando, finalmente, o país vir pelas costas o homem de Boliqueime, que parece desconhecer que um presidente da República tem de ser muito mais do que um ex-líder do PSD ao serviço do PSD e da direita, pode ser que o eleitorado se lembre de que o professor Marcelo, o favorito, antes de ser entertainer residente da TVI para assuntos vários, e depois do seu célebre banho nas salsas ondas do Tejo, foi também líder do PSD. Eu não sou de intrigas, mas as pessoas podem começar a pensar que um candidato que fala há anos na TV sem dizer nada, e que, ainda por cima, tem em comum com Cavaco ter liderado o PSD, talvez não dê grandes garantias de equilíbrio e equidistância.
Não sei. Pode ser que os cidadãos se lembrem da presidência atípica de Cavaco, quando comparada com a elevação conferida ao exercício do cargo pelos seus antecessores. E pode ser que se lembrem da inventona das escutas no palácio de Belém e a comparem com a célebre vichyssoise para enganar Paulo Portas. E pode ser que os cidadãos prefiram desta vez usar o seu poder para defenderem a República.
Carlos Nogueira Fino
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