Ferry para a Madeira mobiliza leitores: sazonalidade não interessa

paulo farinha
Paulo Farinha.

A ansiada ligação marítima entre o Continente e a Madeira via ferry continua a mobilizar a opinião pública madeirense. O Governo Regional já anunciou o apoio a esta “linha” mas falta ainda concretizar de definir alguns aspetos pela tutela.

Na sequência do artigo de opinião do colaborador Paulo Pita da Silva [vide Forum FN], outro leitor que segue atentamente as questões do tráfego marítimo, Paulo J. Melich Farinha, fez chegar a este on line o seu testemunho sobre o assunto, que se reproduz em seguida.

“A Madeira sendo uma ilha ultraperiférica infelizmente está unicamente dependente do transporte aéreo, ou seja, os madeirenses encontram-se reféns do transporte aéreo.

A TAP efectua viagens entre a Madeira e o Continente transportando portugueses residentes na Madeira, com tarifas subsidiadas, mas também transporta carga para agentes económicos (+-) 1500 Kg num Airbus A320, além da bagagem dos passageiros.

ARMASPorque nenhum armador de navios ferry candidatou-se a operar na Madeira depois da saída da Naviera Armas no final de Janeiro de 2012?

Exactamente pela ausência de subsídio de mobilidade marítimo para os portugueses residentes na Madeira.

Agora existe o mesmo, só faltando a Portaria que regulamentará o respectivo subsídio.

Evidentemente que já interessa a armadores/operadores de navios ferry, realizarem viagens entre a Madeira e o Continente.

Mas, estes não se interessarão em realizar uma operação sazonal, primavera/verão, porque não captarão o interesse dos agentes económicos para o transporte especialmente de carga perecível, que evidentemente viabilizará as operações.

Para transportarem carga perecível a operação só é viável regularmente, semanal e todo o ano seja para benefício do armador, seja em benefício dos agentes económicos.

Agora o amigo Paulo Silva, evoca viagens marítimas para passageiros em regime sazonal, na primavera e verão. Pois, precisamente nestes períodos, todos os excelentes navios ferry estão ocupados na realização de viagens, bem lotados, de passageiros no Mediterrâneo, no Mar do Norte e Báltico, transportando inclusive carga rodada.

Desviar um excelente ferry nesses períodos para o pequeno mercado da Madeira será difícil de se concretizar.

O Grupo Sousa, se candidatar-se à ligação marítima, conseguirá um ferry, não excelente, de dimensões modestas para realizar essas viagens sazonais? Consumindo diesel, navegando a 17/18 nós por hora, deslocando menos de 16,000 toneladas brutas? Mesmo na primavera e verão existe ondulação forte nesta zona do Atlântico, logo os passageiros sofrerão as consequências, viajando sem conforto.

Certamente será a forma brilhante de contornar o transporte de carga rodada, a mesma é um verdadeiro tabu em Portugal e ilhas.

No meu conceito, com conhecimentos de causa, um excelente ferry consome IFO380 (óleo pesado) atingindo a rápida velocidade na ordem dos 21 a 24 nós por hora. Terá que deslocar no mínimo 16,000 toneladas, para navegar com estabilidade consequentemente com segurança, disponibilizando zonas espaçosas para comodidade dos passageiros durante o longo percurso entre a Madeira e o Continente e vice versa.

Um navio ferry na minha opinião não deve exceder as 24 horas nas referidas viagens.

Agora, para percerbermos a diferença entre o combustível IFO380 e combustível diesel, vejamos os preços “bunker”.

No dia 24 de Agosto do corrente ano os preços “bunker” tonelada IFO380 (óleo pesado) em Lisboa custava 205€, no Funchal 330,00€, em Las Palmas 198,00€.

O combustível “Marine diesel oil” (MDO), evidentemente muito mais caro do que o IFO380, na ordem de mais (média) 190,00€ à tonelada.

Dia 2 de Outubro 2015, o IFO380 custava em Las Palmas 232,00€ à tonelada, o MDO custava 440,00€ à tonelada, um diferencial de 208,00€ entre estes referidos combustíveis.

Um navio ferry consumindo necessariamente IFO380, realizando viagens entre a Madeira e o Continente, onde se abastecerá?

Em Portimão? Não, este porto não oferece bunker IFO380.

Em Lisboa, não, porque não dispõe de rampa RO/RO, em Setúbal? não, porque não existe segurança portuária para a movimentação de passageiros nem gare de apoio.

Em Leixões, não, porque localizado a Norte encontra-se exposto a intempéries e ondulação forte, mesmo nos períodos de primavera e verão. Na plataforma “Cruise ferry para a Madeira” a maioria dos membros, prefere Setúbal devido à centralidade no país. Outros preferem Lisboa ou Portimão.

Ainda nas preferências, as viagens devem contemplar as Canárias, um mini continente com cerca de 3 milhões de habitantes. Ou seja, Canárias, Madeira, Continente, e vice versa.