Entrevista: Grupo Pestana quer parceria com Ronaldo na Madeira e no mundo

Dionísio Pestana

O grupo Pestana, só na área hoteleira, dá emprego, actualmente, a mais de 7 mil trabalhadores. O grupo tem 86 hotéis espalhados por 15 países. Até 2019 o grupo conta abrir mais 10 novos hotéis estendendo a sua influência a 17 países e três continentes.

O maior grupo hoteleiro português conta arrancar ainda este ano com o novo boutique hotel na Praça do Mar, no Funchal, em parceria com Cristiano Ronaldo.

No horizonte próximo está a última fase do Tróia Eco-Resort; o Pestana Bahia Palace, em São Miguel, nos Açores, adquirido ao grupo Sá; o arranque das obras do hotel em Nova Iorque; um hotel em Amesterdão; outro em Marraquexe; a conversão da Casa de la Carnicera, em Madrid, na Plaza Mayor, cujo conceito será inspirado no hotel que o grupo abriu recentemente na Praça do Comércio, em Lisboa, no antigo Ministério do Interior, no Terreiro do Paço.

Com os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro à porta, em 2016, o grupo tenciona abrir um novo hotel na Barra da Tijuca. Seguir-se-á Montevideu, onde se tenciona instalar uma unidade hoteleira com 112 quartos.

Recentemente, em Março, na reunião anual de quadros, o grupo nomeou José Theotónio para Chief Executive Officer (CEO), José Roquette para Chief Development Officer (CDO), responsável pela estratégia de desenvolvimento e coordenação de todos os novos investimentos.

Luigi Valle manteve-se na Holding como vice-presidente para as áreas de Jogo e Comunicação assim como os administradores das principais empresas participadas, nas diferentes áreas regionais.

Em entrevista ao Funchal Notícias, o chairman do grupo Pestana, Dionísio Pestana falou de todas as áreas de negócio do grupo, hotelaria, centro de negócios, cervejeira.

Funchal Notícias: O grupo Pestana está presente em vários países e diferentes continentes. A aposta começou na Madeira. Há a parceria com o Cristiano Ronaldo. Qual o ponto da situação?

Dionísio Pestana: Temos ali na Praça do Mar [Boutique hotel] onde o Ronaldo vai instalar o seu Museu. O projecto para a Praia Formoso é apenas de Cristiano Ronaldo com outros investidores. Não temos nada a ver.

F.N: Mas a parceria com Ronaldo é para ficar-se apenas por aqui?

DP: A ideia é começar pela Madeira e, depois, alargar, eventualmente.

FN: No Porto Santo, o grupo já tem um hotel mas parece que vai aproveitar as infra-estruturas do antigo Colombo’s Resort, é verdade?

D.P: O Colombo’s faliu. A banca tomou conta e passou a ser de um fundo. Esse fundo tem estado a encontrar soluções para resolver os projectos que ficaram parados. No caso do Colombo’s, eramos vizinhos, falaram connosco e chegamos a um acordo: durante cinco anos vamos fazer a gestão do Colombo’s para o tal fundo, ECS. Vamos para o 3.º ano. Tem corrido bem. Foi uma experiência nova. Normalmente somos nós que construímos os nossos próprios hotéis, de raiz. Mas como ali tínhamos o nosso e havia uma forte procura na época alta do Verão, achamos que havia lógica numa sinergia entre os dois. Avançamos com esta parceria. Estamos satisfeitos e eles também. Abrimos, demos emprego, o Estado recebe os seus impostos.

FN: Há umas críticas sobre o conceito ‘all inclusive’ adapatado ao destino Porto Santo. Como é que responde a essas críticas?

DP: Quando abrimos foi como um hotel tradicional, com meia pensão, durante dois/três anos. Foram os operadores, especialistas que nos disseram que a tendência, no mercado resort, é o ‘all inclusive’. As pessoas querem fazer contas pelo preço final. Com animação, com o conceito de família, com programa par os filhos. Tem sido um sucesso. Estava muito longe de pensar que iríamos atingir ocupações como as que temos alcançado. Os novos hotéis, na Grécia, em Espanha, pelo mundo fora têm sido neste conceito, que tenha animação, espaço, variedade, piscinas. Tem corrido bem. É a ideia de cruzeiro, com tudo programado, tudo incluído.

FN: Já o cliente urbano exige outro tipo de hotel, mais vertical…

DP: Exacto. Mas mesmo na Madeira, o tipo de cliente é outro. O cliente quer, normalmente, meia pensão porque tem uma variedade de oferta de restaurantes, vai pelas levadas, tem muita coisa para fazer. Já ilhas do tipo Porto Santo, são muito limitadas na oferta por isso o conceito tem de ser outro (all inclusive).

Dionísio Pestana

FN: Na Madeira há vários hotéis parados, demolidos. O Savoy clássico, o Madeira Palácio, o Regency Palace. Este tipo de hotéis não interessa ao grupo Pestana?

DP: São três casos muito diferentes. Quanto ao Savoy não tem lógica investirmos num hotel aqui mesmo ao lado. O Regency é novo, está em bom estado, tenho a certeza que vai abrir em breve e o mercado vai dar resposta. O Madeira Palácio interessaria, está à beira mar, mas tem uma componente imobiliária muito forte que não é bem o nosso negócio.

FN: E pelo mundo fora, como é que vai o projecto de expansão do grupo?

DP: Tem corrido bem. Estamos a diversificar. A Madeira tem sido o nosso berço, a nossa escola, a base, a inspiração. Fomos para o continente e fomos para fora de Portugal. Ainda bem porque o ciclo económico das empresas dos países e a política monetária tem altos e baixos. Estamos em 15 países, cada país tem as suas especificidades. Na comparação com Portugal há coisas muito boas e coisas menos boas. Aprendemos sempre a valorizar coisas que temos em Portugal. Estou muito satisfeito com essa experiência e com os resultados, principalmente nas principais cidades europeias, Londres, Berlim, Barcelona e Miami.

FN: Essa aposta nos hotéis mais urbanos, de reuniões, de conferências, de dormidas pouco prolongadas vai continuar?

DP: O nosso ‘core business’ tradicional era resort. Tínhamos hotéis na Madeira e no Algarve. Depois apostamos em Lisboa. Resort é bom mas está limitado a um segmento de mercado. Para complementar, tivemos que arranjar hotéis de cidade. Começamos com Lisboa e, a partir daí, fomos para as grandes capitais europeias.

FN: Há novos investimentos em vista?

DP: Temos, este ano, muita coisa em carteira. Se correr tudo bem arranca Amesterdão.

FN: Nova Iorque…

DP: Começam as obras este ano. Compramos um edifício, vamos deitar abaixo e construir uma torre.

FN: Amesterdão, Nova Iorque…

DP: Madrid. Ganhamos o concurso para aquele edifício da Praça Maior. Foi uma surpresa. Fizemos o trabalho de casa, fomos a concurso mas estávamos muito longe de imaginar que pudéssemos ganhar no mercado altamente competitivo de Madrid. Estamos a falar da I Divisão da Europa.

FN: Em Madrid, presumo, será implementado um conceito semelhante daquele que foi adoptado para a Praça do Comércio, em Lisboa?

DP: Exactamente. É a mesma inspiração. Quando o hotel de Madrid abrir vou fazer uma geminação entre os dois, eventualmente com um pacote combinado entre os hotéis das duas capitais ibéricas. É um produto cheio de história.

Dionísio Pestana

FN: Em Portugal, complementarmente, o grupo Pestana tem as Pousadas. Aliás, reforçou a aposta ficando com a particiapção da Caixa Geral de Depósitos. Há mais alguma pousada em vista?

DP: Não. Apenas aquelas que já existem. Estamos a consolidar e a renovar aquelas que, ou eram muito antigas ou não eram históricas. Estamos a fazer um rebranding, onde se mete mais pousadas urbanas. Por exemplo, os prédios históricos do Freixo ou da Cidadela.

FN: E em relação aos PALOP’s, aos países que acolhem comunidades madeirenses, como é que está o grupo Pestana?

DP: Continuamos em África. Não tem sido fácil. África tem tido as suas dificuldades. A adaptação tem sido uma luta. Mas, no geral, por exemplo em Moçambique, o primeiro, quando olho para trás, tenho muito orgulho no nosso negócio em Maputo. Agora, quando se compara com outros países e mercados emergentes, não cresceu com a mesma dinâmica. Mas o potencial é grande. Pelo menos uma vez na vida, um europeu ou um americano tem de ir a África.

FN: Na Venezuela, Caracas?

DP: É um hotel de cidade. O negócio corre bem, o que corre mal é a política e a questão financeira. Mas o negócio, a operação, o pessoal, isso corre lindamente.

FN: Na área do jogo, no Porto Santo, o Colombo’s iria explorar essa área. O grupo Pestana está interessado?

DP: Não. É muito pequeno. Não tem dimensão.

FN: E a área do jogo do grupo, como é que está?

DP: Sofremos com a crise. Na Madeira, o que ainda aguentou foi o turismo. Já não está em queda, consolidou. A crise foi para todos e também a sentimos na área do jogo.

FN: Outra área de negócio do grupo Pestana é a Zona Franca, através da SDM. O 4.º regime foi aprovado, o que é muito bom até para receitas fiscais da Região. Como é que vê essa área de negócio e, já agora, o que espera que aconteça após o fim da concessão à SDM em 2017 ou 2019?

DP: Os Centros Internacionais de Negócios são dos sectores mais complexos em termos de legislação. É uma legislação que se vai adaptando à concorrência e às necessidades dos mercados. Há muitas variáveis. Não é como a hotelaria. É preciso negociar com Bruxelas, negociar com os maiores concorrentes, praças em todo o mundo. São todos a lutar contra a Madeira. Todos querem melhores condições para as suas praças. Os mais fortes, ingleses, Luxemburgo são monstros a negociar e com muito ‘know how’. O que sinto em Portugal é que o Centro Internacional de Negócios é, talvez, o que tem mais potencial para crescer. Depende das condições que forem negociadas com Bruxelas. Para isso é preciso ter peso. Para ter peso é preciso que os nossos governantes nacionais e regionais estejam muito por dentro do que é este negócio. Este não é um negócio da Madeira, é um negócio à escala mundial. Com regimes fiscais diferentes. O investidor opta sempre pelo mais favorável. Para competir a esse nível temos de ter condições e instrumentos para o fazer. Muitas vezes isto é mal compreendido pelas pessoas, pela opinião pública.

Dionísio Pestana

FN: Mas há quem defenda que o Centro Internacional de Negócios deve ser gerido directamente pela Administração Pública, sem concessão.

DP: Ainda está para chegar o dia em que o privado é pior gestor do que o Estado, nesta ou noutras áreas.

FN: Ou seja, defende que a gestão do CINM terá de continuar a ser privada para além de 2019?

DP: Sim. O Governo tem de ter sempre uma palavra de acompanhamento.

FN: A Região é sócia.

DP: Sim. É sócia e acompanha. Só que a liderança privada é muito mais dinâmica, dorme menos e sofre muito mais. O exemplo está nos Açores. A zona franca de Santa Maria não resultou, fechou. No nosso caso, tivemos a sorte de ter um Francisco Costa que é um homem fora de série, acima da média.

FN: Outra área de negócios do grupo é nas Cervejas. Como é que está essa área, sabendo que o mercado regional não estica e é preciso apostar na internacionalização?

DP: Está a ser feito um grande esforço na inovação e no marketing. Levamos a marca Brisa Maracujá para o continente. Parece um passo fácil mas é complicado de executar.

FN: Passa por parcerias com outras cervejeiras e cadeias de distribuição…

DP: Sim. Esse é o segredo. Isso está a ser feito. Vamos ver se no próximo ano essa aposta será consolidada. Estou esperançado que será positivo.

Dionísio Pestana

FN: Voltando à hotelaria, quando falámos em hotelaria, falamos em trabalhadores. O Contrato Colectivo de Trabalho está a ser revisto pela ACIF e pelo Sindicato. O que acha desse contrato?

DP: O Contrato Colectivo de Trabalho foi-se fazendo, nos últimos anos, em circunstâncias completamente diferentes do mercado de hoje. É preciso ter coragem para mudar. E a nossa sugestão é não ir além da lei geral do Trabalho [Código do Trabalho]. Com o banco de horas. Só para ser mais competitivo. Quando as pessoas [sindicalistas] criticam fazem-no para defender alguns. Para a maioria dos trabalhadores a questão nem se põe. Os hotéis trabalham com ocupações razoáveis mas, quando têm picos, há compensações e bancos de horas. Para quem está de boa fé, quem olha para o interesse e sabe que a sua vida é na empresa onde trabalha 20, 30 e até 40 anos, isso não é exploração. É unir e acreditar na empresa. Se a empresa for boa é bom para todos, incluindo os trabalhadores.

FN: A Europa fala em flexisegurança…

DP: É óbvio. Se as empresas não tiverem resultados, se não houver confiança não há trabalho. Não podemos ter medos dos desafios, da mudança. O que queremos é eficácia e, se os objectivos forem alcançados, temos bónus.

FN: O contrato que estava em vigor era muito rígido?

DP: Sim. E não estamos a falar de direitos que esses são salvaguardados. O que tem de haver é flexibilidade. Por exemplo, um turno do ‘room service’ para o restaurante ou o dia de folga. Temos de ter essa flexibilidade. Um hotel trabalha 24 horas, 7 dias por semana. Não é uma fábrica que fecha à sexta-feira e abre segunda-feira. Não se trata de mudar turnos ou horários mas tem de haver mais flexibilidade e espírito de equipa.

FN: A maioria dos trabalhadores aceita isso?

DP: Acredito que sim. Noventa e muitos por cento. O que eles não querem é perder direitos. Nem nós aceitavamos isso. Agora, o que precisamos é ter mais diálogo, trabalhar mais em equipa e garantir o futuro. É esta a mensagem de espírito aberto que temos de deixar.