Os meus pais estão juntos há trinta e muitos. Ainda não são sessenta, mas são trinta e muitos. Não se juntaram porque era mais fácil dividirem as contas ou separarem a roupa por cores para meterem na máquina de lavar, nem porque as escovas de dentes estavam mesmo a pedi-las ou porque ficavam mais perto do trabalho e assim dividam o transporte. Juntaram-se porque já estavam unidos pelo amor.
Lembro-me de ser bem mais nova e de ainda os ver a dançar na cozinha uma melodia saída de um vinil. Lá estavam eles no “programa” de sábado de manhã a dançar face-com-face entre a roupa por estender e a loiça por lavar. É uma imagem tão linda, que eu espero um dia fazer dela um quadro, que eu espero imortalizar e passar à minha descendência, se algum dia uma destas personagens já não se lembrar, eu vou fazer questão de lhes contar esta história, vezes sem conta. Há amores assim…
Quando me falam em amor (ou em desamor) é exatamente o legado que me foi passado por eles que me vem à memória, é essa a minha referência: um amor pacífico, com tons alaranjados (como os que nos entravam pela janela) cultivado, respeitador, e eu tenho tanta sorte. E é por isso que me causa alguma inquietação os (des)amores de hoje, as referências, o significado. Os amores que são a partilha de password’s nas redes sociais, os (des)amores que são o checkar o telemóvel ao fim do dia, o (des)amor que “ela gosta tanto de mim que só me quer para ela”, os (des)amores que se demonstram pelo sentimento de posse um pelo outro. Este tipo de amores e a crença (im)piedosa nisto, é assustadora.
Porque para mim o amor é uma coisa, o sentimento de posse é outra por aqui fico, do alto dos meus (nossos) meia dúzia e nove meses de amor e dos trinta e tal deles, a achar que o amor é tudo o que fica quando o resto é só resto.
Membro Efetivo da Ordem dos Psicólogos Portugueses
E-mail: cheilamartins@hotmail.com
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