Refugiados: da ignorância à desumanidade

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OPINIÃO

Por LUÍS ROCHA

A recente vaga de refugiados que tem acorrido, num crescendo que parece não ter fim, aos países europeus causa-me o mais profundo desconforto. E não só pela vaga de refugiados em si, pelo drama que só por si representa, mas também pelo modo como tal afluxo tem trazido à superfície o que de mais básico reside na natureza humana: ignorância, medo patológico e repulsa pelo ‘Outro’.

A forma como se têm reproduzido toda a sorte de comentários xenófobos e teorias da conspiração nos muitos meios de comunicação social – inclusive naquele em que agora eu próprio escrevo – representa uma descida aos abismos mais primários da natureza humana. As pessoas provam, mais uma vez, ser extremamente crédulas nas muitas e ridículas manipulações hoje possíveis na blogosfera e mesmo na comunicação social ‘mainstream’, ao mesmo tempo que expressam a maior despreocupação pelas situações visivelmente dramáticas vividas por esse ‘Outro’ que tratamos como se de algo sub-humano se tratasse. O que muitos parecem querer é que esse ‘Outro’, com todos os problemas com que se depara, vá morrer longe, desde que não nos dê trabalho, canseiras nem preocupações, que já temos as nossas.

foto euronews: Quase todos os refugiados querem ir para a Alemanha
foto euronews: zona de acolhimento e alimentação de refugiados

Quem escreve as presentes linhas é um jornalista desempregado. Mas que nem por isso fecharia a porta às vítimas de uma catástrofe humanitária. Quem escreve as presentes linhas é um agnóstico, que não acredita nem na sarça ardente que falou a Moisés, nem que Jesus tenha subido aos céus, nem que Maria fosse uma virgem, nem muito menos que Maomé tenha voado pelos céus montado num equídeo alado, de Meca para Jerusalém, falando com diversos profetas antes de finalmente conversar com Deus. A tudo isso, encaixo na mesma categoria das crenças nas quais tanta gente acreditava há centenas ou milhares de anos: fantasmas, monstros, deuses caprichosos como Zeus, que desciam do céu esporadicamente para acasalar com humanos, ou Apolo, que percorria o céu num carro de fogo (o Sol). Ou seja: imaginativas histórias da carochinha, para nos manter entretidos e desviar o nosso medo da morte. Somos tão arrogantes que não nos permitimos acreditar na finitude da nossa existência sem angústia e, portanto, entendemos que tem de existir um Deus, que nos ouve e nos protege. Mesmo que não sejamos capazes de o ver em parte nenhuma. Mesmo que seja um Deus que não se importa de deixar morrer crianças com cancro.

Estabelecida que está a minha descrença, sublinho que não nutro a menor simpatia por muçulmanos. Em tempos, foram mais progressistas que os cristãos, preservaram o conhecimento de filósofos gregos da Antiguidade desprezados no Ocidente cristão, contribuíram decisivamente para o avanço em muitos campos do saber, desde a matemática à medicina, desde a astronomia à literatura.

Hoje, a situação inverteu-se. Quer queiramos quer não, temos de reconhecer que os cristãos, na sua maioria, mostram-se menos belicosos, menos fundamentalistas e mais abertos ao diálogo com a ciência. Isto, reconheço-o, apesar de também não nutrir qualquer simpatia por cristãos. Como não nutro por qualquer outra religião.

A necessidade da crença num ser supremo foi combustível para muitos dos mais penosos conflitos que torturaram a humanidade, desde o tempo das cruzadas à situação na Irlanda do Norte ou na Bósnia, em pleno século XX. Isto para não falar no Médio Oriente.

Este solilóquio tem por objectivo, tão só, chamar a atenção para o facto de que muita da resistência que se tem visto ao acolhimento de refugiados, mais do que a difícil situação económica vivida nos potenciais países de acolhimento, fundamenta-se numa tradicional repulsa pelo “mouro”, resultante das diferenças religiosas e culturais que nos opõem, e sustentada na crença de que entre um grupo de muçulmanos, têm necessariamente de haver extremistas com coletes bombistas.

Ora, não são apenas os “mouros” que se fazem explodir ou fazem explodir os outros. Judeus e cristãos também já provaram, fartamente, ser capazes da mesma proeza. E por vezes, com meios bastante mais sofisticados.

O terror do Estado Islâmico encontra paralelos em milícias cristãs que, por exemplo na Bósnia, não hesitaram em promover limpeza étnica. Mais uma vez, nem falemos do Médio Oriente, porque então, nunca mais acabávamos.

Miguel Albuquerque tem sido alvo de muita pancadaria verbal de inúmeros e recentíssimos supostos amigos dos pobres, dos desempregados e dos sem-abrigo que temos em Portugal, e que já causam tanta preocupação, porque ousou mostrar-se chocado com os comentários que inundaram as redes sociais, e classificá-los como xenófobos e imbecis. Eu diria que imbecis é pouco: tenho deparado com comentários que revelam uma tremenda desinformação, credulidade cega em manipulações da opinião pública que são vulgares na Internet, falta de conhecimento da história e puro e simples preconceito tendo por base as diferenças de raça e religião. Não são só imbecis, são mesmo estúpidos até dizer chega.

Já há agora quem queira comparar Albuquerque a Jardim, pelo uso de linguagem insultuosa e desbragada em relação àqueles que pensam de forma diferente. Mas a comparação é ridícula. Jardim não mostrava qualquer respeito pelos seus adversários políticos. Albuquerque tem-no demonstrado. Jardim disse aos chineses que “não os queria aqui”, respondendo à inclinação xenófoba natural no povo pouco instruído; Albuquerque contrariou essa mesma tendência primária, do mesmo povo. É verdade que já está bem sentado na cadeira do poder, mas tal poderá, mesmo assim, sair-lhe caro. Reconhecer isto, apesar de tudo o que ideologicamente me separa de Albuquerque, é pura honestidade intelectual.

E finalmente, chegamos a um outro aspecto da questão, pertinentemente apontado por Raul Ribeiro numa carta de opinião publicada no DN-Madeira: qual o posicionamento claro, neste momento, dos partidos da oposição na Madeira? Encontram-se, de facto, num silêncio confortável. Parece que ninguém ousa dizer, claramente, que estes fluxos migratórios nascem do mais puro desespero, de populações inteiras cujas vidas estão a ser esmagadas pelo flagelo da guerra, e que constitui uma obrigação moral para o Ocidente recebê-los. E de que não constitui desculpa ou atenuante o facto de ‘já cá termos os nossos próprios pobres e desempregados’: trata-se de seres humanos como nós, e temos obrigação de ajudá-los. Não há quem diga claramente uma verdade tão evidente?

É claro que têm de haver precauções. É para isso que pagamos às nossas polícias e serviços de informações. Devemos, naturalmente, acautelar a nossa própria segurança. Mas recusar estender a mão a quem arrisca a vida para atravessar os mares sem quaisquer condições de segurança, com filhos a tiracolo, apenas movido pela esperança de uma vida melhor? O agnóstico que sou quase se sente tentado a usar a expressão “por amor de Deus”…

O que se tem visto é uma desumanidade impressionante. Um modo absolutamente desimportado de reagir à catástrofe alheia. Não é preciso ler muito Noam Chomsky para compreender como muitas das guerras de onde fogem estas pessoas foram geradas pelo Ocidente, com os norte-americanos à frente, a desestabilizarem regimes autoritários, sim, mas tendencialmente laicos ou muçulmanos moderados, e a apoiar extremistas islâmicos, que depois se acabam por virar contra quem os apoiou, lançando uma tempestade de problemas em países que, se não eram perfeitos, pelo menos conseguiam mais ou menos dar de comer aos seus habitantes.

O que está aqui em causa, como disse e bem Miguel Albuquerque, “é o que nos separa nos animais”. Claro que também me sinto tentado a sugerir-lhe que albergue várias famílias na sua quinta das rosas e a dar o exemplo. Claro que acho que também já temos muitos pobres. Mas há situações em que, se somos humanos, devemos ajudar, não importa a que custo. Ou então mandemos definitivamente os valores supostamente humanitários pelos quais nos regemos para o caixote do lixo. O que mais me agonia é ainda ter de explicar isto a pessoas que se dizem cristãs.

A responsabilidade de todas estas situações reside também nos órgãos de comunicação social, oficiais ou oficiosos. Senti-me envergonhado com uma operadora de câmara que pontapeava e rasteirava refugiados, crianças e adultos, e também me senti assim com a carta de um adolescente publicada aqui mesmo, no Funchal Notícias, debitando uma verborreia notoriamente mal informada e digna de um partido de extrema-direita. Podemos ter a obrigação, em princípio, de dar espaço a quem quer exprimir opiniões dos mais diversos quadrantes, mas não vale tudo. Há quem tenha que amadurecer muito, mas mesmo muito, antes de desatar a falar tão arrogantemente e ainda por cima a invocar fundamentos “científicos” para a sua doutrina. Quem cultiva verdadeiramente um cientismo consciente sente-se ofendido por esta visão. Carl Sagan ou Christopher Hitchens só podem revolver-se no túmulo perante tamanha monstruosidade.

De uma vez por todas, consciencializemo-nos de que estas famílias que aí vêm, se vierem, para a Madeira ou para qualquer outra parte do território europeu, não vêm para montar campos de treino de terrorismo internacional: vêm em busca de paz e pão. São pessoas, como nós. Não nos envergonhemos mais a nós próprios, com o nosso comportamento intolerante, que seria digno do dos piores fundamentalistas que neles criticamos.

 


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