Culpados ou cépticos?

h_sampaio

No discurso de encerramento do recente Congresso do PS-Madeira, o actual presidente do partido, o açoriano Carlos César responsabilizou os abstencionistas se a coligação PSD/CDS vencer as eleições legislativas de 4 de Outubro próximo, tendo designadamente afirmado que “se temos maus políticos e más políticas é porque os portugueses querem, sobretudo os que não vão votar”.

César não deixou, porém, de reconhecer que a confiança na política e nos políticos tem sido abalada por episódios que envolvem políticos e partidos, daí a necessidade, acrescentou, de “expurgar fenómenos que ainda são recorrentes”, como o abuso de poder, a corrupção, a gestão danosa, a destruição de sectores e recursos públicos e a confusão entre governo e partido.

Ou seja, a conclusão expressa por Carlos César de que, “se amanhã, o país ainda ficar pior do que está porque continua o governo que tem piorado sucessivamente o país”, a culpa é dos abstencionistas, não nos parece que possa ser assumida de forma tão evidente.

E isto porque as razões que levam os cidadãos a não exercerem o seu direito e dever de votar, não se limitam apenas a um mero desinteresse pela res pública, à abdicação de intervirem na vida do seu país.

Há, na verdade, outras razões. Algumas das quais, de resto, foram mencionadas no discurso proferido por Carlos César.

Mas, percebe-se, a inquietação que transparece das mesmas, e que decorrem, certamente, das sondagens que, a escassos 2,3 meses das eleições para a Assembleia da República, vão apontando para um certo equilíbrio entre a coligação e o PS que, há um ano atrás, seriam consideradas como de todo improváveis.

E mesmo que, não devamos, valorizar excessivamente tais estudos de opinião, até porque, bem recentemente, quer nas eleições inglesas, quer no referendo grego, os resultados verificados desmentiram-nos categoricamente, a verdade é que, depois do enorme aumento de impostos, dos cortes nos salários e nas pensões, da violenta destruição de empregos ocorrida, do crescimento exponencial da pobreza e das desigualdades sociais, da vaga emigratória, da eliminação de uma parte substancial da classe média, era legítimo supor que, nesta altura do campeonato, a mera hipótese de vitória da coligação PSD/CDS estivesse totalmente excluída.

Ora, se tal assim não é, vale a pena tentar escalpelizar o que poderá estar por detrás desta circunstância.

Reafirmando que as sondagens valem o que valem, não deixa de ser sintomático que, numa das mais recentes, a efectuada pela Intercampus para o jornal Público,  TVI e TSF, a maioria dos inquiridos, questionada sobre características como “capaz de ter um discurso de verdade, confiança, sério, honesto”, não tenha optado nem por António Costa, nem por Passos Coelho, mas por “nenhum deles”, embora tenham colocado o líder do PS com uma percentagem superior.

Profundamente revelador da forma como os cidadãos encaram os líderes partidários é o facto de, na mesma sondagem, nenhum dos mesmos (do PS, PSD, CDS, PCP e BE) ter sequer atingido metade numa escala de apreciação entre 0 (opinião muito negativa) e 10 (opinião muito positiva).

A desconfiança na política e nos políticos não pode, naturalmente, ser dissociada de se ter tornado regra os políticos e os partidos prometerem uma coisa, nas campanhas eleitorais, e fazerem exactamente o oposto, após conquistarem o poder. Exemplos não faltam. E não apenas no nosso país. Pelo que os partidos e os políticos não devem depois estranhar que os cidadãos se afastem, não votem, ou que venha crescendo, nas diferentes eleições, o número de votos em branco e de nulos.

Também não abona a favor da política e dos políticos saber-se que, nas últimas 4 legislaturas (a partir de 2002), 77 deputados perderam a imunidade parlamentar, por terem sido constituídos arguidos, por serem suspeitos de crime com penas superiores a 3 anos ou que, ao longo da democracia, num estudo que se situou entre 1974 e 2012, quase metade dos principais actores políticos perpetuaram-se no poder, permanecendo mais de 12 anos nos lugares.

É evidente que não se deve confundir a nuvem por juno. Mas, é óbvio, que o país está farto dos limas, dos loureiros, dos relvas, dos isaltinos, dos vara, dos sócrates, dos lello, e de tantos outros quejandos que, ao longo dos tempos, exerceram funções de responsabilidade aos mais diversos níveis e que deixaram um lastro fedorento.

A incerteza quanto ao que aí vem decorre de um pouco de tudo isto, mas igualmente da circunstância das respostas que vêm sendo dadas pelos partidos, relativamente aos problemas que o país enfrenta e enfrentará no futuro, não entusiasmarem quem já não acredite em milagres, nem em amanhãs que cantam. Como dramaticamente a crise na Grécia veio revelar. Mas, também porque os cidadãos se apercebem que muitas das diferenças, entre o PS e a coligação, são de ritmo, de intensidade, na reversão dos cortes efectuados. E ainda porque muitos temem o regresso ao passado, a que a coligação, ao mesmo tempo que vem manipulando a realidade, não se cansa de aludir. O que, talvez, explique que o PS continue demasiado à defesa, quiçá porque não se distanciou, como devia, do legado socrático.

É um pouco, por tudo isto, que, entre nós, a incerteza continua a reinar. Donde, mais do que culpados, os eleitores estão é cépticos, descrentes.

 

*texto escrito de acordo com a antiga ortografia.


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