Sobre o novo Acordo (?) Ortográfico

joao-abel-torresA propósito do novo acordo ortográfico, o jornalista e escritor Carlos Heitor Cony, membro da Academia Brasileira de Letras, lembrava: “No tempo do Getúlio (Brasil) e de Salazar (Portugal) foram feitos acordos que não prevaleceram, porque, na realidade, quem faz a língua não são as academias, nem os governos. Quem faz a língua é o povo”. “Os portugueses jamais vão deixar de chamar o trem de ‘comboio’, não adianta.

Para mais “ajuda”, a proclamada necessidade de “unificar” a ortografia ainda não passou do papel, pois, como se sabe, dois dos países contratantes não assinaram o acordo nem parecem para aí virados. Estes últimos, sim, fizeram com juízo! Basicamente, e para dividirmos as águas, a favor do acordo (?) está o argumento da inevitável evolução da língua e a suposta necessidade de unificar a grafia da língua portuguesa nos países em que é o idioma oficial, em favor de um suposto estímulo ao intercâmbio cultural entre as nações lusófonas e simplificação de documentos oficiais.

Já “do outro lado da barricada” estão aqueles que, como eu, não podem deixar de denunciar o carácter político, impositivo e atabalhoado, da medida, assim como a natureza ambígua e lacunar do texto que o oficializou, mas, e sobretudo, a inegável hesitação e inconstância de critérios que marcam o novo AO, recorrendo-se arbitrariamente à pronúncia para regulamentar os usos escritos, à luz do princípio simplista de que se se pronuncia, fica, se não se pronuncia, corta-se”, o que acaba por afastar a língua portuguesa da sua raiz greco-latina e das grandes línguas mundiais.

Em abono da verdade, no geral, a ideia que nos fica deste acordo (?) mal amanhado e a puxar para o heterográfico é a expressão da anarquia total e da falta de coerência. Enfim, se o objetivo era unificar, não unifica, limitando-se a discutíveis abolições de “hífen”, acrescidas de duplas acentuações e pronúncias, o que constitui a sua principal fragilidade.

Por razões de natureza profissional, uma vez que sou professor da disciplina de língua portuguesa, vejo-me forçado a escrever segundo a nova ortografia e a transmiti-la aos meus alunos, porém, porque acho que a língua é muito da nossa identidade, defendendo, na esteira de Fernando Pessoa, que “A minha pátria é a língua portuguesa.”, não posso estar mais em desacordo com este remendado acordo(?) e com os mais que esfarrapados argumentos que o sustentam porque, voltando ao início, “quem faz a língua não são as academias, nem os governos. Quem faz a língua é o povo.”, justamente aquele que “não foi ouvido nem achado”.