Ideologia e Europa

Jesus Maria Sousa

Quando li pela primeira vez Louis Althusser (1918-1990), fiquei fascinada com a sua visão sobre a manutenção do “status quo” pela via dos aparelhos repressivos e ideológicos do Estado. Por um lado, através do controlo exercido pelas suas forças repressivas, explicitamente assumidas, como os tribunais, a polícia, as prisões e as forças armadas, e, por outro, pelos designados aparelhos ideológicos do Estado: os partidos políticos, as escolas, a igreja, a família e a comunicação social, que trabalham ao nível da ideologia, de forma mais velada e sub-reptícia.

Ao estabelecer a distinção entre “ideologias”, no sentido histórico-social (ideologia cristã, ideologia democrática, ideologia feminista, ideologia marxista…), e “ideologia”, no sentido estrutural, ligada às estruturas profundas subjacentes a todas as culturas humanas, independentemente do momento histórico e social, Althusser, sob a influência de Freud e de Lacan, chamou a atenção para o nível do inconsciente onde a “ideologia” opera, dando-nos a impressão de que somos responsáveis e de que escolhemos livremente acreditar naquilo em que acreditamos, sem nos apercebermos de que estamos a ser manipulados a escolher o que, de facto, nos é imposto.

Ora como isso acontece? Pelo ar que se respira? Digamos que sim, através da repetição até à exaustão de práticas, costumes, rituais e comportamentos-padrão que passam a impregnar todo o pensar e sentir social, veiculando dessa forma uma ideologia, a ideologia de quem tem (e está no) poder, a tal ideologia no singular.

Assustou-me esta personificação do Estado, bem longe da entidade mítica e abstrata que eu então imaginava, ao constatar o seu papel ativo na veiculação dessa ideologia, a tal ponto marcante que pensamentos ou sentimentos divergentes provocam ruído, levando à marginalização de quem ousa pensar ou sentir diferente. Mas não foi muito difícil de entender.

O que me assustou ainda mais, por não ser fácil de aceitar, foi saber que, nesse “continuum” de práticas, todos participam, mesmo os dos grupos e das classes sociais mais desfavorecidas, tornando-se muito mais complicada por isso a tarefa de reação contra a opressão e a dominação do mais fraco pelo mais forte.

Esta presunção teórica encontra eco em diversas situações ao longo da História em que a dominação, a opressão, a exploração e a colonização, tiveram sempre, como grandes aliados, elementos que à partida fariam parte do grupo dos subjugados. Quem ajudava os traficantes da escravatura africana, que não os próprios negros? Quem colaborava na perseguição e posterior captura dos foragidos que não os seus colegas igualmente escravos? Quem pratica a excisão feminina se não outras mulheres, também submetidas à mutilação genital? Noutra relação de poder, quem denuncia ao professor que o aluno-colega está a copiar? Poderíamos continuar a enunciar um sem fim de exemplos da participação dos mais fracos e mais “pequenos” na manutenção do poder dos “grandes”.

E o que tem isto a ver com a Europa? Simplesmente a aplicação “tout court” desta mesma teoria quando, ao nível do “Estado Europeu” se assiste também à manutenção dos ditames dos mais fortes, fazendo uso de toda a parafernália de aparelhos ideológicos ao seu alcance. Passando por cima de regras e instituições europeias, com Junker, Schultz e Tusk a serem ultrapassados por Schäuble e Merkel, e com Lagarde à mistura, em questões que não são da sua alçada, os dominadores, liderados por Berlim e pela banca internacional, concentrados na manutenção do “status quo” da ditadura neoliberal financeira, também exercem a sua força, humilhando até mais não quem ousou lançar bem alto o grito da revolta (mesmo que não houvesse, afinal, coragem de romper com o “modus vivendi” dos grandes).

E para fechamento (closure) da teoria da “ideologia”, temos o triste exemplo da aquiescência e submissão acrítica de países também na corda bamba, como é o caso de Portugal, reforçando a tese de Althusser de que a manutenção do poder dos dominadores só é possível com o apoio dos dominados. Só que ao darmos cabo da soberania de um outro povo, acabámos por enterrar a nossa própria soberania.


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