Paulino Ascensão: o candidato do Bloco que não é carreirista da política

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Fotos do Facebook de Paulino Ascensão.

Paulino Ascensão é, para os madeirenses, uma cara nova que surge na ribalta política como o cabeça de lista do Bloco de Esquerda, pela Região, às Eleições Legislativas nacionais. Mas há muito que este licenciado em economia pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra colaborava com o partido, dando mesmo o rosto em eventos públicos do Bloco. É ainda um quadro da Câmara Municipal do Funchal e aceitou o repto de disputar o próximo sufrágio eleitoral. O Funchal Notícias dá-lo a conhecer aos seus leitores através de cinco questões essenciais.

Funchal Notícias  – Quem é o Paulino Ascensão e porquê a opção pelo Bloco de Esquerda?

Paulino Ascensão – É um pai de três filhos preocupado com o mundo em que eles vivem. Incomodado com o extremar das desigualdades sociais que se tem verificado nos últimos tempos, com a destruição do ambiente e o esgotamento dos recursos naturais, com a lógica predatória do sistema económico que tudo sacrifica – os ecossistemas, a vida humana – na busca do lucro imediato.
Apreensivo também com o avanço na Europa de forças anti-democráticas, a par com a normalização da forma como são encarados regimes totalitários como o da Guiné-Equatorial e com o caráter não democrático da União Europeia, cada vez mais evidente.

O Bloco de Esquerda é o partido que responde melhor a estas preocupações. Propõe maiores justiça e transparência na economia, maior equidade na distribuição da riqueza, mais transparência na política e mais democracia. A economia deve servir para atender as necessidades reais das pessoas e não as expetativas dos especuladores, por isso as atividades estratégicas, como a banca e a energia, devem estar sob controlo público, para defesa do bem comum. O Bloco é intransigente na defesa da democracia e das liberdades individuais, bem como na denuncia das ditaduras. Várias vezes votou isolado na Assembleia da República contra atropelos às liberdades cívicas em Angola, por ex, com todos os outros partidos unidos na defesa do  regime de Eduardo dos Santos.

paulino 2FN – Quais são as suas principais causas nesta candidatura?

PA – A principal causa é a dignidade das pessoas, a defesa de uma vida digna para todos, com direitos e não de caridade. Com igualdade de oportunidades para todos no acesso à educação, à saúde, à justiça, ao trabalho e à habitação. Um País onde crie riqueza para todos de onde os jovens não sejam convidados a emigrar e os idosos recebam o respeito que lhes é devido, não um País que cria milionários e considera como danos colaterais inevitáveis os milhares de desempregados.
A falácia da dívida, a mentira de que vivemos acima das nossas possibilidades e que os sacrifícios impostos aos trabalhadores se destinam a pagar essa dívida. Ora a dívida continua a aumentar de ano para ano, apesar de todos os sacrifícios. Estes não são para pagar a dívida, nem um único cêntimo foi pago com a austeridade – a politica do empobrecimento deliberado. A dívida é um pretexto, uma desculpa para iludir as pessoas e para justificar a perda de rendimentos, pois esses rendimentos que foram retirados às pessoas foram somar fortuna às grandes fortunas. Houve uma enorme transferência de riqueza de quem trabalha para quem vive do trabalho alheio.
A dívida é impagável, custa por ano em juros mais que o serviço nacional de saúde. Tem de ser renegociada porque é insustentável.

paulino 3FN – O que está para si em questão nas próximas eleições?

PA – Estão em causa coisas tão fundamentais como a liberdade e a democracia, que tanto custaram a conquistar. Estão em causa a dignidade da pessoa humana e a soberania nacional, que reside no povo e não nos mercados financeiros. Está em causa termos um governo que nos defenda, não um preocupado apenas em obedecer cegamente às “regras europeias”. O Euro e as suas regras ou servem para melhorar as nossas vidas, ou então não nos servem. Se o preço da permanência no Euro é o empobrecimento contínuo da maioria da população, então devemos abandona-lo quanto antes.
Está em causa parar e reverter a destruição da escola pública, do serviço nacional de saúde e da segurança social, fatores fulcrais para a coesão social e para a igualdade de oportunidades.

Está em causa ainda denunciar o Tratado Transatlântico de comércio e investimento que equipara Estados as empresas privadas e remete para tribunais arbitrais – uma forma de justiça privada – a resolução dos conflitos. Por ex uma empresa pode processar um País por este aumentar o salário mínimo ou por reforçar as regras de segurança alimentar, pelos custos acrescidos que essas medidas implicam para a empresa.

FN – Qual é a sua mais valia em relação às demais candidaturas?

PA – A mais valia do Bloco de Esquerda é o facto de ser consistente e coerente ao longo do tempo nas suas posições – o que defende na Madeira, é o mesmo que defende em Lisboa, na Europa e no mundo. Os outros partidos com assento parlamentar dizem defender a Liberdade e a Democracia em Portugal, mas em relação a outros países não defendem o mesmo e protegem os interesses de ditaduras. O PS e o PSD enchem a boca com a Democracia, mas aceitam submissos as ordens da Alemanha nas políticas europeias e são cúmplices no atropelo à democracia e na chantagem exercida pela UE aquando do último referendo na Grécia.

A nível pessoal, o facto de eu não ter uma carreira na política é uma mais valia, pois as pessoas mostram-se cansadas dos carreiristas, aqueles políticos iniciados nas jotinhas que vão sendo promovidos de assessores para vereadores, para diretores regionais, ministros e finalmente para administradores das grandes empresas, têm a escola toda do oportunismo, do trafico de favores e dos esquemas de enriquecimento fácil. Gente que nunca trabalhou na vida, não sabe o quanto a vida custa a ganhar e por isso é tão fácil para esses governantes aceitar sacrifícios para o povo suportar. A política diz respeito a todos nós e não deve ser uma profissão, uma carreira.

FN – Se for eleito deputado em São Bento, o que faria de diferente?

PA – Não transigir na defesa dos interesses da esmagadora maioria das pessoas, que é habitualmente traída pelos partidos que têm sido governo em Portugal. Os partidos do dito ‘arco do poder’ estão dominados pelos interesses dos grandes grupos económicos, que são quem lhes financia as campanhas eleitorais. Uma vez no poder defendem quem os financiou e não quem neles votou.
Há muito a ideia que os políticos e os partidos são todos iguais, uma vez no ‘poleiro’ esquecem-se de quem votou neles.
Isso não é verdade, o Bloco de Esquerda tem muitos exemplos de gente que nunca se vendeu, como o nosso saudoso Paulo Martins que não poucas vezes foi aliciado pelos poderosos desta terra, ou o Francisco Louça que, quando abandonou o parlamento, renunciou à pensão vitalícia a que tinha direito.