JPP: o candidato-surpresa que veio da Cultura

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O candidato-surpresa do ‘Juntos Pelo Povo’ é Nelson Veríssimo. Historiador e professor universitário, é há muitos anos uma figura bem conhecida do panorama académico e cultural da Região, e pelos melhores motivos: pela sua seriedade e, ao mesmo tempo, pelo sentido crítico de que sempre tem dado provas, que consegue conciliar, por outro lado, com um sentido de humor fino, do qual se serve subtilmente mas que se consubstancia, frequentemente, em observações certeiras sobre a realidade quotidiana. Realidade, aliás, que sempre acompanhou através da sua actividade de cronista, estabelecendo pontes entre o presente e o passado que contribuíram para melhor ir desvendando a natureza do povo ilhéu.

Multifacetado, a sua actividade no domínio cultural não se restringiu aos círculos académicos ou à historiografia, já que foi sempre um observador atento da realidade cultural e política do ‘burgo’, ao mesmo tempo que desenvolvia um activo interesse pela produção literária e de crónica jornalística do nosso meio, catalogando-a e mesmo comentando-a de modo activo e empenhado. Uma das suas características é o discurso interventivo, mas muito ponderado, quer fale de cultura, quer de política, quer de qualquer outro assunto.

Surge agora a encabeçar a lista do JPP à Assembleia da República. O Funchal Notícias entrevistou-o para perceber melhor como tal circunstância se verificou e como se propõe enfrentar mais este desafio.

Funchal Notícias – O que determinou a sua progressiva adesão ao JPP, um partido que surpreendeu pela rápida ascensão a partir de movimento de cidadania e que muitos ainda # como um fenómeno efémero e decorrente do descontentamento com os partidos ditos ‘tradicionais’?

Nelson Veríssimo – A amizade com Élvio Sousa permitiu-me acompanhar de perto a sua atividade, e dos que a ele se juntaram em trabalhos em prol da comunidade, primeiro no domínio cultural, depois no âmbito cívico e social, em particular na freguesia de Gaula e outras localidades de Santa Cruz e Machico. Depois vi nascer o Movimento Juntos Pelo Povo, para as eleições autárquicas, a que se seguiu, por razões logísticas, ditadas pelos escrúpulos da lei em vigor, a formação do Partido. Como sempre considerei fundamental o princípio da cidadania democrática, com contactos frequentes com as populações e desenvolvimento de iniciativas para resolução dos seus reais problemas, vi no JPP uma ação política que, na verdade, correspondia a uma forma diferente de fazer política. E isso devia-se principalmente ao facto de o partido ter, na realidade, nascido a partir do Poder Local. Nas eleições legislativas regionais, o Élvio Sousa convidou-me já para funções que implicavam um grande envolvimento com o JPP. Mas nessa altura achei não ser ainda oportuno, por razões pessoais e profissionais. Bem, em suma, a progressiva adesão veio da amizade, dos ideais e também da convicção que não podemos ficar sempre no sofá a protestar ou criticar o que vamos sabendo pela imprensa, a rádio ou a TV. Há ocasiões em que temos que dar o nosso contributo, defender ideais, enfim, ajudar a construir alternativas que venham a beneficiar o nosso Povo. Mas, verdadeiramente, não pretendo uma carreira política, nem tão-pouco ser um político, no sentido tradicional do termo, isto é daquele que vive do cargo político e serve-se de todas as artimanhas para por aí se manter. Eu tenho a minha profissão: professor.

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FN – Acredita que este partido poderá afirmar-se como diferente dos outros? Sem cair nos mesmos vícios e tentações? Gil Canha, do PND, em entrevista que concedeu ao FX Notícias, foi mesmo cáustico, ao considerar que o JPP tinha feito a campanha mais tradicional das legislativas regionais, ao estilo do PSD, distribuindo adereços e canetas e assim cativando as pessoas simples tal como os povos europeus, em África, distribuíam espelhinhos e bugigangas pelos nativos em troca das suas riquezas naturais. Neste caso, tratou-se, na óptica de Canha, da exploração da riqueza natural que é o voto. O JPP é mesmo diferente?

NV – O JPP procura ser diferente na sua atuação política, e assim tem sido, mas, como organização de seres mortais, não está livre de, um dia, apanhar vícios e sofrer tentações. Contudo, é inadmissível não corresponder à vontade e aos mandatos populares, praticar atos de corrupção, satisfazer clientelas, traficar influências, promover a “política do tacho” e todos os outros “pecados” que o sistema atual permite e até cultiva. Para isso, não contem comigo nem com o JPP, que eu conheço. Quanto aos brindes da propaganda eleitoral, não acredito que alguém, no século XXI, decida o seu voto em função de uma oferta de uma esferográfica ou uma camisola. Às vezes, até dá jeito a quem não tem. Conheço trabalhadores que cavam a terra, vestindo camisolas do PSD, e pensam e votam bem diferente. Receio mais os cheques distribuídos por aí, mais ou menos de forma encoberta em nome de uma caridade interesseira. Quanto à comparação com o que se passou no tempo da Expansão, é obviamente anacrónica. Por isso, não merece comentários. Nisto de propaganda cada partido escolhe o que quer. Há quem goste de surpreender com iniciativas pouco previsíveis e espaventosas. Há quem prefira o contacto sereno com os eleitores para ouvir e esclarecer. Este será o meu caminho. Se houver dinheiro para dar um brinde, não deixarei de o fazer, pois também ando pelas ruas e quando me oferecem alguma coisa fico contente e agradeço. Isso em nada muda o meu voto.

FN – Há quem critique o JPP por não se situar ideologicamente de forma muito coerente, nos moldes tradicionais, de esquerda, centro e direita. Os seus dirigentes afirmam que as suas preocupações fundamentais são ir ao encontro das justas expectativas de um povo defraudado pelos partidos do chamado “arco da governação”, que se alternam no poder com os mesmos vícios. Esta não será, de certo modo, uma retórica que se aproveita de facto de uma profunda insatisfação dos portugueses, mas de forma um tanto populista?

NV – Os conceitos de esquerda, centro e direita evoluíram muito e, na atualidade, alguns perderam o seu significado tradicional. Há valores que no início do século XX eram da esquerda e hoje ninguém os discute numa democracia. Tornaram-se património de todos. É o caso, por exemplo, da separação da Igreja e do Estado. Claro que há valores que ainda hoje se podem situar mais à direita ou à esquerda, como por exemplo a distribuição da riqueza. Mas até neste campo a direita sabe que se parte da riqueza não for distribuída, ainda que na porção mais pequena, o mercado não funciona, por falta de consumo. Nas linhas programáticas do JPP estão consignados valores e princípios que apontam para uma sociedade democrática, em que os cidadãos possam ver garantidas as suas necessidades, de acordo com o princípio de equidade, da universalidade e solidariedade. Isto não é populismo, mas justiça social, princípio que também defendemos.

FN – Que diferença crê vir a poder fazer, enquanto candidato à Assembleia da República, na defesa dos interesses da Madeira? E, concretamente, quais são actualmente os interesses mais imediatos da Região, que se torna necessário acautelar?

NV – Conforme a nossa Constituição, os deputados à Assembleia da República representam todo o país e não os círculos por que são eleitos. No entanto, sendo eu eleito pelo círculo da Madeira, por uma Região Autónoma, entendo que os problemas e os interesses da Região Autónoma da Madeira estão em primeiro lugar e constituirão a minha principal preocupação. Como interesses mais imediatos, enumeraria: aperfeiçoamento e ampliação da autonomia político-administrativa; promoção de uma melhor e mais eficaz cooperação entre os órgãos regionais e a República; renegociação do PAEF – Plano de Ajustamento Económico e Financeiro para a Madeira; garantia da acessibilidade marítima e aérea, problemática que, apesar de receber um importante contributo recentemente com a aprovação do subsídio de mobilidade, está longe ainda de uma resolução satisfatória.

FN – A sua extensa formação histórica e cultural ajuda-o a pôr as coisas em perspectiva na sua futura acção política? É uma mais valia? Por outras palavras, e sem querer forçá-lo à imodéstia… tem faltado cultura aos nossos políticos? Existe uma maior reserva de seriedade na sociedade civil do que nos ‘profissionais’ da política, actualmente muitos deles descendentes das escolas das ‘jotas’ partidárias? E acredita-se imune aos males que geralmente afectam quem envereda pelos meandros tortuosos daquela que deveria ser a mais nobre das missões?

NV – Direi apenas que, com humildade e honestidade, tentarei fazer o melhor nas funções que me esperam, sempre em consonância com o mandato recebido.