Escultores do efémero

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Escolheram um estilo de vida alternativo e mais livre. Não são o género de pessoa que se adapte ao tradicional trabalho num escritório, das 9 às 5. Preferem viver descontraidamente e viajar por vários países, conhecendo outras realidades e novas pessoas. Não quer isto dizer, porém, que não trabalhem… Muitos de nós provavelmente não se adaptariam às exigências dos expedientes de que deitam mão para sobreviver, como as esculturas na areia, nas quais demonstram singular criatividade e proficiência. Se ainda não viu do que são capazes, dê hoje um passeio pela Praia Formosa e verifique com os seus próprios olhos como o labor de Alex e Luís contribui para tornar mais agradável e divertida uma ida aos banhos de mar.

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Ambos são naturais da República Checa. Alex tem 28 anos, Luís 43. Já há muitos anos que fazem esculturas na areia. Além do esplêndido castelo que pode ser visto na Praia Formosa, têm um álbum de fotografias com outros trabalhos que já fizeram noutros lugares: nas praias da costa portuguesa e espanhola, do Mediterrâneo ou das ilhas Canárias. Os motivos são os mais variados, e incluem até representações da família Simpson, a dos desenhos animados, ou de Batman e o seu Batmobile.

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Luís é o mais velho dos dois: tem 43 anos. É também homem-estátua, no centro do Funchal. Fica sentado numa cadeira, completamente prateado!

“Gosto deste estilo de vida. É mais relaxado. Posso construir o que quero, onde quero, demorar o tempo que me apetece. Procuramos os lugares que têm boas praias, para construirmos esculturas e ganharmos dinheiro para viajarmos e irmos a outro sítio, outra cidade”, conta Alex. “Aqui na Madeira estamos sempre a viajar pelo arquipélago… Uns dias no Porto Santo, outros no Porto Moniz… E depois, criamos sempre outra escultura”. A Região agrada-lhes particularmente por causa do clima, diz Luís: “Geralmente não está nem calor, nem frio, não chove muito… está sempre bem!”, constata satisfeito.

Onde iniciam as suas obras efémeras no frágil material que é a areia, atraem as atenções. As pessoas passam, acham graça, param para ver. Vários atiram moedas para recompensar os artistas. Outros querem tirar fotografias ao lado das esculturas, e os criadores pedem-lhes uma pequena contribuição em troca. A ‘transacção’ é feita de maneira simpática, por entre conversas com o público, que os interroga sobre diversos aspectos da sua produção, sobre quem são e de onde vêm. A curiosidade é notória, e a simpatia dos artesãos, a par do seu razoável domínio da língua espanhola, tornam a comunicação mais fácil.

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Alex: “Gosto deste estilo de vida”.

Já não tão fácil é a confecção das suas arenosas criações. Na realidade, exige muita paciência e trabalho. Observámo-los enquanto recolhiam balde após balde de água do mar para manter húmida e sólida a estrutura do castelo que fizeram na conhecida praia funchalense. A areia preta, dizem, não é a mais fácil para este tipo de trabalho: a areia branca é melhor, mais fina, mais facilmente moldável. Precisam de aplicar constantemente água salgada para manter os torreões e as ameias do castelo – ao qual não falta nem um pequeno fosso ou lago – sólidos e verticais. “A areia preta não se compacta muito”, diz Luís. “Depois de um dia ou dois, as coisas que se constroem tendem a cair, porque a areia preta atinge uma maior temperatura ao sol, e cai mais facilmente. A areia branca é mais fina, e melhor”, sublinha. Para manter a construção em boa ordem, por vezes não basta só a água do mar; é preciso adicionar um pouco de sal comprado em sacos, no supermercado.

Além do mais, é preciso proteger convenientemente a obra que, por vezes leva vários dias a fazer – por vezes até uma semana. É ela que garantirá o seu ganha-pão: por isso não a deixam de vista. Nem mesmo durante a noite: permanecem acampados debaixo do passadiço da Praia Formosa, aquele mesmo que os funchalenses percorrem nos seus passeios e caminhadas. É ali que dormem, na companhia de uma simpática cadelinha chamada ‘Espina’ – que quer dizer, em checo, sujidade – e que se porta como uma autêntica guarda da escultura, não deixando que as pessoas ultrapassem determinados limites nem se aproximem demasiado.

A cadelinha 'Espina': uma fiel amiga
A cadelinha ‘Espina’: uma fiel amiga

O nome da cadelinha tem uma razão de ser, explica Alex: foi recolhida, ainda bebé, em Valencia, Espanha, quando a descobriram abandonada num caixote de lixo. Estava muito suja. Limparam-na, trataram dela, alimentaram-na a biberão. Hoje é sua amiga dedicada. E bem ensinada. Enquanto dura a escultura de areia, ela protege-a e não lhe toca: no último dia, tem autorização para brincar à vontade, e então diverte-se a destruir o objecto que durante vários dias protegeu.

Há quem possa pensar que Alex e Luís são absolutos boémios, mas não é assim tanto. Cada ano que passa, dizem, é mais difícil sobreviver desta maneira. Mas já passaram por imensas praias, de Cascais ao Porto, da Nazaré ao Algarve ou à Caparica, só para mencionar as portuguesas, sem contar as dos outros países por onde já passaram.

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Há dez meses que se encontram na Madeira. O seu sustento é feito de pequenas doações, que não pesam muito na algibeira de quem dá, mas mesmo assim a crise económica que impende sobre os europeus e que, de entre os portugueses, castiga os madeirenses em particular não facilita as coisas.

Todavia, até agora tem dado para viver. Luís (cujo nome checo tem uma sonoridade ligeiramente diferente mas que é, de facto, equivalente a este nome próprio em português) complementa a actividade das esculturas na areia com a de homem estátua, ou “homem prateado”, se quiserem; devidamente vestido e maquilhado como se fosse um homem de lata, ou de prata, permanece imóvel, sentado numa cadeira na Avenida do Mar, perto do cais do Funchal. São longos períodos de imobilidade ao sol, mas que, como na Praia Formosa, lhe garantem mais algumas moedas dos transeuntes e turistas que param a observá-lo.

Os dois aventureiros montam actualmente guarda diária à sua escultura naquela praia do Funchal, o que equivale a dizer que estão lá 24 sobre 24 horas. Tudo para proteger o seu trabalho dos vândalos. À noite, contam, já surgiram bêbados que queriam estragar o seu castelo de areia, mas mudaram de ideia ao vê-los acordar e sair de debaixo do passadiço.

Já moraram numa pequena casa na zona das Babosas, no Monte, mas era um pouco longe, para eles. Em breve, contam alugar um quarto noutro sítio, ‘contratando’ a ajuda de um homem, actualmente desempregado, para montar guarda à escultura no período nocturno, para que possam dormir mais descansados. “Ele é boa gente”, dizem. “E também lhe fazem falta alguns trocos”.

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Alex e Luís admitem que o seu estilo de vida é descontraído, mas exige também muita paciência. “E muita água”, acrescentam. “E salgada, trazida do mar. A água doce não serve”.

Até hoje, o lugar onde mais dinheiro ganharam fazendo esculturas na areia foi nas ilhas Canárias. Mas quando estiveram em Cascais, há dois anos, também não se deram mal: a própria Câmara Municipal da localidade pagou-lhes para animar as praias com motivos típicos na areia. Não é uma má ideia. Afinal, trata-se de um trabalho honesto e engraçado, que não aborrece ninguém, antes pelo contrário. Oferece, isso sim, mais um motivo para desfrutar da praia. São artistas, à sua maneira, estes escultores do efémero.

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