
O Funchal Notícias dá continuidade à publicação de textos jornalísticos enquadrados no seu Dossier Transportes Marítimos de e para a Madeira. Para o cidadão comum, esta temática religa-o imediatamente à vinda ou não do barco “Armas” (ou outro) para a Madeira e ao transporte de mercadorias para a Região a um custo mais económico. Questões há anos envoltas em grande controvérsia, mas que urge fazer uma ponto da situação, no sentido do esclarecimento cabal da opinião pública.
Numa pequena entrevista feita a João Welsh – que também já comentou ao FN a problemática dos transportes aéreos e a fixação de tarifas – o empresário procura lembrar que a análise da questão tem de “descer das nuvens” e urge desfazer equívocos. Antes de mais, lembra que a rota marítima Madeira/Continente não tem mercado que garanta a sua rentabilidade. Será, pois, necessário recorrer a subsídios públicos e os madeirenses terão de ponderar se essas mais-valias compensam abrir a torneira dos dinheiros públicos.
Funchal Notícias – Como comenta o apregoado e criticado “monopólio” do Grupo Sousa nos transportes marítimos para a Região?
João Welsh – Pelo que constato, não há um monopólio nos transportes marítimos para a Região. Aliás, há mais de um armador a operar e a capacidade instalada até é superior à procura.
Quanto muito, poderíamos estar a falar na existência ou não de concertação de preços, prática que nunca se provou e, pelo que sei, nunca houve interesse em averiguar se é ou não uma realidade.
Onde não há concorrência, fruto de só existir um único operador em actividade, é na Operação Portuária com todos os reflexos que esta realidade tem em toda a cadeia de transportes marítimos e nas suas efectivas dinâmicas concorrenciais. É sobre esta matéria que tem de ser estudado um modelo de exploração, no quadro das limitações naturais de escala da Região, que não se constitua num bloqueio à competitividade dos transportes marítimos, mas, pelo contrário, seja o garante de que a concorrência será estimulada em toda a cadeia de transportes.

FN – Concorda com a vinda de um “Ferry” para a Madeira no sentido de retomar as ligações marítimas com o continente?
EW – Relativamente às ligações marítimas entre a Madeira e Continente asseguradas por um “Ferry”, sendo uma grande anseio dos madeirenses e, sem dúvidas, uma mais-valia para as acessibilidades das pessoas e para o transportes de veículos e mercadorias, tais vantagens, não permitem concluir de imediato que seja factor vital para a economia regional. Ou seja, não sendo politicamente correcto e simpático o afirmar, um Ferry não é crítico para a real competitividade da nossa economia. Não é tema para sermos, levianamente, contra ou a favor, só porque gostamos da ideia de ter um Ferry a garantir as ligações com o continente.
Os madeirenses têm de refletir muito bem sobre as mais-valias de retorno que poderão ser geradas com os subsídios (sobrecarga ou menor redução futura nos nossos impostos) que inevitavelmente terão de ser dados à rota. A rota em questão, que já estudei diversas vezes por conta de armadores que quiseram avaliar o negócio, não tem mercado associado que permita ser rentável por si só. A viabilidade da mesma passará sempre por um concessão em concurso público internacional que adjudique ao operador que exija o menor valor de compensações. E é a expressão dessas compensações, diga-se subsídios públicos, que deverão permitir perceber o real custo/ benefício, ou, se quisermos, custo de oportunidade económico para os madeirenses do apoio a uma linha Ferry com o continente.
O debate tem de descer das nuvens da demagogia populista para uma avaliação económica séria sobre as mais-valias efectivas do retorno dos apoios que inevitavelmente terão de ser dados.
Não sou contra o Ferry, bem pelo contrário, gostava muito que a Madeira beneficiasse de uma linha regular desta natureza, mas como contribuinte considero importante sabermos se o investimento público é ou não uma aposta com retorno económico justificável. Apoios que terão de resultar de uma concessão e nunca de isenções ou descontos tarifários com impactos negativos nas contas da Administração dos Portos da Madeira.
Em suma, é uma matéria da esfera exclusiva da decisão política, que terá de assegurar que os apoios públicos têm justificação económica sustentável, que beneficia do aval claro dos madeirenses, e que, reunidas estas premissas, há condições para proteger a linha de bloqueios de interesses contrários às dinâmicas concorrenciais nos transportes.
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