41 anos passados, recordar Juan Domingo Perón

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Hoje assinala-se o aniversário da morte, em 1974, de um dos maiores vultos políticos da América Latina, fundador de uma doutrina multifacetada e frequentemente contraditória, que continua a ter reflexos nos dias de hoje: Juan Domingo Perón.

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Militar e político argentino de renome, os seus mandatos como presidente da Argentina foram marcados, tal como as suas ideias – o chamado justicialismo e o peronismo – por uma sucessão de factos e de ideologias contraditórias entre si. Odiado por uns, amado por outros, para os seus apoiantes foi um líder verdadeiramente preocupado com os ‘descamisados’, os trabalhadores pobres que vivem nas franjas da sociedade; um defensor da aplicação de políticas sociais de apoio aos pobres e idosos, de defesa dos sindicatos e dos direitos dos trabalhadores e paladino da justiça social; para os seus detractores, foi, tal como a sua esposa mais famosa, a inigualável Evita, para sempre imortalizada quase como uma santa no imaginário colectivo, um tremendo oportunista e demagogo, que não hesitou em silenciar e perseguir a oposição, em encerrar meios de comunicação social que lhe eram adversos e em desconsiderar os académicos e intelectuais do seu país, fechando universidades e destinando sábios a tarefas humilhantes.

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Ao grande escritor Jorge Luís Borges, por exemplo, foi proposto o cargo de inspector de aviários (que este recusou). A Argentina assistiu, durante o peronismo, a uma ‘fuga de cérebros’ que teria o seu contraponto no modo como Perón acolheu, de bom grado, não só técnicos e cientistas alemães após a Segunda Guerra Mundial, mas mesmo nazis fugidos que ali encontraram refúgio.

Mas lá está, o peronismo está cheio de contradições e Juan Perón, na realidade, não era anti-semita, antes pelo contrário, tinha consultores judeus, e criou condições de acolhimento para os mesmos que não tinham paralelo, na forma nada preconceituosa como os judeus eram tratados – tinham, inclusive, acesso a altos cargos do Estado – nem sequer nos Estados Unidos, que ainda estigmatizavam os ‘filhos de David’.

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A verdade é que Perón, que nos seus tempos de juventude visitou a Europa e se iludiu em acreditar que o totalitarismo alemão e italiano era, na realidade, o caminho para a social-democracia, implementou medidas de protecção social no seu país fortemente típicas da esquerda, e que estão nos antípodas das ideias praticadas por exemplo, por outro famoso caudilho, Augusto Pinochet, do Chile. Aliás, os dois sentiam-se mutuamente desconfortáveis na presença um do outro, e Perón chegou mesmo a ser amigo de Salvador Allende e de Che Guevara.

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No entanto, é indiscutível que utilizou métodos antidemocráticos e mesmo brutais para calar os seus adversários políticos: mas não é menos verdade que os antiperonistas eram também extremamente preconceituosos e mesmo brutais, sendo também culpados de numerosos massacres e assassinatos.

Perón promoveu, durante os seus consulados, justiça social e independência económica; evitou envolver-se exclusivamente quer com os Estados Unidos quer com a União Soviética, cultivando, pelo contrário, relações com ambos em plena Guerra Fria; procurou diminuir o fosso entre ricos e pobres; nacionalizou bancos, linhas férreas, a marinha mercante, as universidades, os transportes públicos e muitas outras coisas, provocando a ira dos norte-americanos e dos seus conglomerados económicos que, como sempre, almejavam dominar e explorar as economias dos países da América Latina.

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Em poucos anos, Perón deu às mulheres o direito ao voto, mais que triplicou o número dos argentinos cobertos pela segurança social, ajudou a aumentar os salários e desenvolveu a economia do país de modo nunca visto, embora a sua prosperidade fosse sol de pouca dura. De qualquer modo, foi o responsável pela construção de muitas infraestruturas de enorme importância, inclusive escolas e hospitais. Mas também foi extraordinariamente populista, ao modo inconfundível dos líderes das repúblicas das bananas, e chegou quase a permitir a sua própria divinização e a de sua esposa Eva, que morreu aos 33 anos de cancro.

Perón morreu aos 78 anos, na sequência de uma série de ataques cardíacos. O seu corpo foi inicialmente levado para a catedral metropolitana de Buenos Aires. Depois o corpo, vestido com uniforme militar, foi levado para o Palácio do Congresso, onde esteve em câmara ardente durante dois dias, sendo visitado por mais de 130 mil pessoas. O seu funeral registou a presença de mais de um milhão de pessoas.

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Foi enterrado no cemitério de La Chacarita, em Buenos Aires. Em 1987, o seu túmulo foi alvo de profanação: as suas mãos foram cortadas por desconhecidos, que posteriormente exigiram a membros peronistas do Congresso um resgate de 8 milhões de dólares pela sua devolução. Um acontecimento bizarro, que nunca foi esclarecido.  peron01

Em 2006, o seu corpo foi trasladado para um mausoléu na sua antiga residência de Verão, reconstruída como um museu evocativo, no subúrbio de San Vicente, em Buenos Aires.

Até hoje Perón influencia a política argentina e mesmo internacional. O seu movimento aglutinou, estranhamente, muitos e contraditórios interesses.