Espiral de desvario

h_sampaio

Como é do domínio público, o auto-intitulado “ único importante” instituiu durante o seu longo consulado governativo um conjunto de entidades que designou por “ noivas”, relativamente às quais assumiu que nunca lhes faltaria com um generoso apoio.

Eram três os felizes comtemplados: o “Jornal da Madeira”, a Orquestra Clássica da Madeira e o futebol profissional, aos quais concedeu rios de dinheiro, de modo particular ao jornal que utilizou como órgão de propaganda político-partidária e aos três principais clubes de futebol da Região.

Fê-lo como se a Região fosse um território rico, possuísse minas de ouro ou poços de petróleo, ou tivesse herdado uma fortuna de uma qualquer tia rica com residência em Bruxelas ou Estrasburgo.

A justificar o alegado investimento, que foi estendido a todas as modalidades possíveis e imaginárias, argumentava com a promoção do destino Madeira e como uma forma de evitar que a juventude caísse nos vícios do álcool e da droga.

Ora, hoje, é o próprio novo governo regional, através do actual Secretário da Educação, que assume ter dados que indicam que o desporto profissional afinal não promove o destino Madeira e, relativamente aos vícios, nem vale a pena falar – o consumo de álcool e de bloom falam por si.

Imbuído da máxima que norteou o seu desgoverno: “não se preocupem com as dívidas, alguém as há-de pagar”, a criatura, que o insuspeito jornal espanhol “El Mundo” denominou de “campeão português do insulto”, deu dinheiro a clubes para construírem infra-estruturas desportivas, construiu outras, como pavilhões, piscinas, etc, muitas das quais se encontram completamente desaproveitadas e ao abandono, e subsidiou tudo e mais alguma coisa, tendo até um exemplar equídeo sido beneficiado.

A título de mera comparação atente-se, por exemplo, que na rica cidade italiana de Milão, o AC Milão e o Inter, que têm no seu curriculum vários títulos de campeão europeu, utilizam o mesmo estádio, o Giussepe Meazza.

À conta desses chorudos subsídios, os clubes contrataram brasileiros, norte-americanos, chineses, nigerianos, gente das mais diversas nacionalidades, à custa de quem obtiveram títulos nacionais que o poder político regional posteriormente reivindicava como sendo fruto da sua política desportiva.

Ao longo de décadas foi um fartar vilanagem. Uma prática que, diga-se em abono da verdade, se estendeu a muitas outras áreas. E que fazia jus à velha máxima reivindicada pelo condottiere do burgo: “com dinheiro, faço obra e ganho eleições”. Que, aliás, o levou a, na hora da saída, agradecer a ajuda que também recebeu dos clubes.

Entretanto, quando o despesismo e a estratégia da subsídio-dependência tiveram que cessar, em consequência do dinheiro ter começado a faltar e da posterior descoberta da dívida “oculta”, quase tudo deu à costa. E num ápice nem os contratos – programa celebrados com as colectividades desportivas passaram a ser cumpridos. Ao mesmo tempo que o pai e o padrinho de tudo isto passou a estar na mira de muitos daqueles que se habituaram a viver à conta da mesa do orçamento e que durante muito tempo o endeusaram.

Eis, porém, que quando se esperaria que, também no desporto, se passasse a viver em função das disponibilidades financeiras, da própria dimensão da Região e simultaneamente houvesse a assunção de que não há dinheiro, como o próprio governo regional tem vindo a ser forçado a reconhecer, um presidente de um dos principais clubes locais, de regresso às funções que já havia desempenhado, não só não se contenta em contestar a redução dos apoios financeiros entretanto verificados, como vai ainda mais longe e reivindica a Quinta Magnólia, um ginásio e um colégio. Com o argumento de que a um clube rival concederam umas quantas benesses de natureza idêntica ou semelhante. Um pouco à imagem do que fazem as crianças, não todas, está bom de ver.

Ao fim e ao cabo, até não pediu muito. Podia ter apresentado uma lista de exigências mais alargada. Mas, compreende-se, custa passar de rico a remediado.

De resto, a culpa até não é do próprio. Mas de quem criou esta monstruosidade.

Ou seja, razão tinha o dr. Aníbal Faria quando, algures nos anos 60 do século passado, recomendava que se colocasse uma cerca em volta da ilha.


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