Caniço – Uma cidade com favela

Praça do Caniço - Matadouro - 1967
Praça do Caniço – Matadouro – 1967

Roquelino Ornelas

O Caniço está a comemorar 10 anos da sua elevação à categoria de cidade. Dez anos em que se conquistou a consolidação dos milhares de residentes que para aqui se transferiram, uns porque o Caniço estava na moda para construir moradias, outros porque oferecia vantagens e por isso investiram nos apartamentos, que apareceram como cogumelos.

Quando digo que ganharam esses novos moradores, refiro-me ao facto de eles agora se comportarem em relação à nova cidade como sendo o seu lugar. Servem-se na mesma Farmácia que os nados e criados cá, nas mesmas padarias, supermercados e lojas.

Dantes, os domingos e feriados eram mais desertos. A grande maioria das pessoas que se tinham mudado continuava a ir aos lugares de origem porque não se sentiam ligadas à terra.

Pertenciam a outros lugares.

Praça do Caniço - Junho 2015
Praça do Caniço – Junho 2015

Hoje não é assim. Mas continua a faltar muito para se preencher os parâmetros mínimos de uma cidade. De uma cidade que pode tirar vantagem da sua matriz rural e desse ímpeto que cresce e faz reavivar o gosto pelo regresso à terra, à atividade agrícola e à sua integração no molde da nova urbe.

Se é verdade que a Casa do Povo local faz um esforço gigante para satisfazer minimamente algumas necessidades culturais e de apoio à formação e ao lazer e se é verdade que, por outro lado, as unidades hoteleiras e de restauração dão uma nota cosmopolita de oferta de serviços de qualidade, não deixa de pesar a ausência de equipamentos elementares.

Hoje, como há anos, vai voltar a assinalar-se a passagem de vila a cidade com festa no adro. A banda há de tocar um hino ao presidente da junta de freguesia e seus convidados, há de partir-se um bolo e distribuir espumante e depois haverá mais música. De ouvidos a tinir até se pode achar que sabe a pouco a festa da cidade.

O tempo não é para presentes de aniversário de grande monta. Por isso temos de optar.

Coisas simples, palavras amigas, conselhos francos, sorrisos e ideias. Nem mais. Aqui vai a minha ideia, um sonho em jeito de presente de aniversário. Que se retire do centro a favela que envergonha a cidade. Que no seu lugar surja um espaço destinado a atividades culturais e de lazer. Com algum engenho e arte não saí caro. Não me venham com a conjuntura. Que ali seja possível programar exposições, concertos, conferências e atividades afins.

E, o que é favela? Nem mais nem menos que o espaço onde existiu outrora o matadouro e a praça bem como o largo fronteiriço.

Na década de 1980, foi cedido pela Câmara Municipal para funcionar como instalações de apoio ao Cruzado. O clube que tem hoje outro espaço mas ornamentou aquela área toda com muita chapa de zinco, plásticos e tábuas. É deprimente o que lá se fez. Está na altura de devolver a praça para fruição de todos e não apenas de alguns.

Cumpra-se o adágio e depois este sonho oferecido à cidade do caniço.