“ Afinal a melhor maneira de viajar é sentir…Sentir tudo excessivamente.” * Um poeta veio lembrar-me o que eu por outra maneira tenho dito. Em 1979 escrevi: Quando imagino crio viagens ao instinto de me envolver em todos os caminhos. É isso. Mas há os passos que se dão pelas estradas do mundo que, não sendo imaginados, pisam as pedras e os asfaltos e há o éter que se atravessa, quando a condição das terras insuladas nos obrigam a singrar pelo espaço em veículos alados, lançados às pressões e às desordens do vento. No regresso das viagens vivem-se momentos de ansiosa expectativa até que a terra nos ampare, firme e generosa, e, a casa, que nos espera, nos garanta a solidez das paredes e o calor dos abraços. Ainda que tudo seja precário, uma parede sólida devolve-nos a confiança e a tranquilidade, depois das turbulências eólicas.
Nestas emergências, Santa Catarina reserva de vez em quando a indesejada surpresa de nos remeter para o Porto Santo, que, afortunadamente, ao longo da História, tem oferecido aos nautas do planeta a sua presteza de porto seguro. No penúltimo fim de semana vários procedimentos destes desviaram as aeronaves para a ilha pequena, sempre agradável de rever, apesar de tudo.
Depois da aterragem mal se percebe a noite sem lua e o adejar das palmeiras, tal o cuidado de garantir depressa o lugar do repouso, que conduz a nossa anestesia ao único hotel disponível.
Pelas ruas quase desertas, de manhã, conclui-se que ainda não é tempo de superlotação, a primavera fresca e ventosa não é convidativa, as ondas investem insistentemente pela praia e a longa tira de areia estreita-se perigosamente. Lamento a avidez do mar e a magreza das dunas, mas observo a calma da longa estrada até a Calheta e alegro-me com os quintais das casas, alindados, floridos e verdejantes, a serenidade dourada das colinas arenosas, o manso perfil ondulante da paisagem.
De novo o aeroporto nos permitirá o regresso à ilha grande. A Madeira conta vinte minutos de voo, mais o custo acrescido da insularidade, que, nestes casos, a Companhia aérea não assume como responsabilidade. Para nos libertarmos da insídia, procuramos enterrar a raiva. Sendo assim, outro interesse me prende os olhos e o sentimento, neste desagradável compasso de silêncio e espera: A gare regista de repente a presença duma estranha visitante, pequena quadrúpede cor de areia, que se aninha por entre as cadeiras dos passageiros e, aos pés de cada um, num jeito particular de angariar atenção e carícias, se rebola docilmente e oferece a nudez do corpo e a languidez dos olhos, quase a dizer : olha-me, abraça-me, beija-me, como na velha cantiga portuguesa dum conhecido cantor romântico. Um dos presentes, um jovem viajante que arrastava um português contaminado, não resistiu a esta entrega espontânea e beijou-lhe efusivamente o focinho, num impulso amoroso desconcertante. A pequena cadela cor de areia, no seu vai vem descontraído, na dádiva do seu gesto sedutor, torna-se num lenitivo contra a desfortuna daqueles que, remoendo a contrariedade, tentam, a expensas próprias, atravessar de novo o Atlântico numa assustadora miniatura nervosa e oscilante, depois das horas infindáveis da longa pausa que lhes atrasou o destino.
Viva, saltitante, independente, pequenina e airosa, a bicha despertou em todos um evidente sentimento de união, a empatia capaz de adoçar a amargura, de despistar a contrariedade e unificar as linguagens, igualando a todos na capacidade de amar a vida. Porque a vida, alargando-se a todos os seres e espaços, é essa coisa enorme que tudo une, pacifica e engrandece. Este encontro com um pequeno animal propenso ao amor fez sacudir veementemente a nossa inconformidade com o mundo árido, insatisfeito e violento, incluindo o turbilhão dos aeroportos.
As viagens não nos levam apenas a conhecer os países e as gentes. Muito próximo de nós estão todos os acontecimentos que em cada lugar nos atraem e despertam. Guardo como recomendação um dos princípios fundamentais do viajante prescritos por Giacomo Casanova: “ Não partas com espírito de aquisição, antes avança na maior das humildades, experimentando o mesmo fervor com que amas alguém, sabendo que um mundo de possibilidades te aguarda.”
Contra os ventos desabridos, os saturantes desvios de rota, o atraso angustiante das bagagens, e a habitual indiferença da administração aeroportuária nas horas difíceis que atingem os passageiros, nada há a fazer. Resta-me uma vez mais a reconfortante visão de Casanova: “ Aceita os outros como a ti mesmo, mas vê-os por quem são”.
*Livro de Viagem, Fernando Pessoa
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