Nos Velhos Marinheiros, Jorge Amado criou um personagem, ícone dos humanos em todas as suas grandezas e misérias.
Falo de Vasco Moscoso de Aragão, Comandante de Longo Curso. Educado pelo avô, revelou-se um jovem adulto, digamos, inadaptado. O coração empurra-o para uma prendada jovem que lhe diz querer para marido alguém que tenha um “título”. Neto, sem “título”, de um avô rico, ficou marcado entregou-se à esbórnia e ao sonho. Na sua visão onírica da vida, julgava-se Almirante. Num ataque a Buenos Aires, gritaria da ponte comando: cada um a seu posto para dar a vida pelo Brasil.
Aos amigos não escapou que algo o apoquentava. Revelou-lhes o segredo. Sendo os amigos para as ocasiões, influentes como eram, não tardaram a conseguir-lhe um título. Num exame viciado, onde não faltaram registos e carimbos, o Brasil ganhava um COMANDANTE DE LONGO CURSO. Não viria, pensavam, mal ao Mundo pois ele nunca poria os pés num tombadilho. Para que nada faltasse a Vasco, comprados os bons ofícios do cônsul de Portugal, D. Carlos I outorgou-lhe o Grau de Cavaleiro da Ordem de Cristo. Comandante, condecorado, passou a exigir tratamento consentâneo ao novo estatuto. Fanfarrão, enfeitado com a farda de gala e usando os ademanes necessários contava histórias de arrepiar fossem elas de lutas com tubarões ou navegação sob nevoeiro em zona de icebergs. O ferrabrás, contrariando as previsões foi chamado a comandar um barco. Jorge Amado, generoso, levou-o a bom porto, rendendo o Povo Brasileiro àquele personagem. Qualquer Carnaval encanta aquele Povo!
Passemos da ficção Brasileira à realidade lusa, onde o cidadão Alberto João Jardim apresenta grandes afinidades com Vasco Moscoso Aragão. Na juventude, talvez influenciado pelo avô, e também por ser o tempo dos sonhos, imaginou, e, defendeu, um Portugal do Minho a Timor. A realidade destruiu-lhe o sonho.
O feroz e ficcional ataque a Buenos Aires é, na realidade lusa, uma guerra vivida, durante treze anos em três frentes. Tão fanfarrão quanto Vasco, e, com muito menos bom senso que ele, garante que apenas soube do fim da guerra e do 25 de Abril pelo telefone, apesar da Nação inteira haver rejubilado com o fim do impasse político que o País, ao tempo, vivia. O acérrimo defensor do Portugal, uno e valente, do Minho a Timor, num passe de mágica, divide as populações do, agora, diminuto espaço geográfico entre “CUBANOS” e “POVO SUPERIOR”. Estribado no voto popular ofende gravemente as FA´s; no seu instrumento de propaganda, JM, permite que gente da sua confiança afirme que as remunerações no Exército discriminam os madeirenses; numa acção de propaganda, o, então, Conselheiro de Estado, inaugurou a estátua ao Combatente Madeirense – uma sibilina redacção disfarçava, sem eliminar, a dicotomia “Cubanos” “Povo Superior” – em puro acto de promoção pessoal. Alertei, publicamente, para o facto na altura e, convidado para o acto inaugural recusei lá ir. Estive, mais tarde, presente em cerimónias militares, onde, os ex-combatentes como eu, e, militares no activo, prestaram as honras devidas aos que partiram.
A sensatez ficcional de Vasco levou a que o Povo Brasileiro o elevasse à condição de Lenda Viva. A realidade lusa, porém, ultrapassa a ficção. O barco que o nosso fanfarrão comandante dirigiu durante anos – contando-nos histórias de arrepiar como a dos conselhos a Mandela – não chegou a bom porto. A tripulação amotinou-se e correu o comandante quando ele acabara de espatifar o barco na restinga.
Já fora de funções a Instituição Militar – certamente não o fez à revelia do poder político eleito – atribui-lhe a medalha do Patrono do Exército D. Afonso Henriques – 1ª Classe. Porquê tal distinção? Ela ficará bem entregue a quem, como ele, ofendeu as FA’s e se serviu dos combatentes da sua geração para autopromover-se? Merece-a quem, insultuosamente, recorreu ao vocábulo patriota para denegrir quem nada devia à Pátria?
Caso ninguém assuma aquilo que parece ser um tremendo equívoco, como Cidadão Português nascido na Madeira, combatente em África, pergunto: onde coloco a minha emoção quando oiço o toque a mortos junto ao monumento da Mata da Nazaré em cerimónia que pretenda recordá-los? Qual a dignidade que devo atribuir ao acto? Será algo de putativo? A memória colectiva fica onde, quando a 9 de Abril, recuando a 1918, homenageamos os Portugueses mortos em combate na batalha de LA LYS? Servirão os mortos apenas de motivo para umas “sessões solenes” promocionais de um candidato A PAI DA PÁTRIA?
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