São Lázaro: irmão de Eduardo Jesus pede aos clubes náuticos para não fazerem ondas

Acalmia em São Lázaro. A hora é de negociação. (Foto Rui Marote)
Acalmia em São Lázaro. Este é o compromisso que terá sido pedido para os próximos tempos. (Foto Rui Marote)

Depois da tormenta, o apaziguamento. Sérgio Jesus, presidente da Associação Regional de Vela e irmão do secretário regional que tutela os Portos, pediu o compromisso dos demais clubes e associações de desporto náutico para esquecerem quezílias antigas e não fazer mais ondas, na tentativa de minorar os efeitos colaterais da presença do museu CR7 em São Lázaro. Na próxima semana, contam ter propostas definitivas a apresentar à APRAM para que, no espaço, sejam criadas as condições desde há muito desejadas com vista ao Parque Desportivo Náutico.

O que está feito, feito está e não há volta a dar. Pelo menos, é isso que alguns dirigentes desportivos querem entender e convencer, quando se aborda o assunto do museu de Cristiano Ronaldo no varadouro de São Lázaro.

Depois do rebuliço inicial, com a denúncia do descontentamento pela retirada de 40% de área em São Lázaro a favor do projeto do museu CR7, pelo Funchal Notícias, os ânimos amainaram e os clubes parecem apostados em navegar agora a favor da corrente, para que o sonho do tão desejado Parque Desportivo Náutico não vá de vez ao fundo.

Neste momento, as coletividades estão comprometidas em remar para o mesmo lado e sem criar ondas à APRAM, tentando ganhar assim contrapartidas em termos de infraestruturas de apoio importantes à prática das modalidades e da realização de eventos de referência internacional.

Um momento de tréguas à APRAM e ao Governo Regional conseguido pelo irmão de Eduardo Jesus, o secretário regional que tutela os Portos, pelo menos enquanto se prepara um documento, a uma só voz, onde irão figurar as propostas de todos os clubes e associações com sede em São Lázaro. Procura-se um consenso alargado, com vista a negociar com a Administração dos Portos um futuro regulamento para aquela zona a contento de todas as partes.

Ao que apurámos, o documento deverá estar pronto para ser entregue à APRAM no decorrer da próxima semana, seguindo-se o período de análise e negociação entre as partes.

De qualquer forma, já se perspetivam alguns condicionalismos ao futuro regulamento que vier a nascer. As obras do museu a oeste e a intervenção da Secretaria dos Assuntos Europeus e Parlamentares na zona da antiga foz da Ribeira de São João, junto à Marina, farão adiar, por largos meses, algumas das aspirações dos clubes.

A indefinição na tutela do espaço criou anarquia. (Foto Rui Marote)
A indefinição na tutela do espaço tem condicionado a requalificação. (Foto Rui Marote)

Indefinição arrasou São Lázaro

As ondas de choque no varadouro de São Lázaro não se prendem apenas com o futuro museu CR7 nem se centram única e exclusivamente na Administração de Portos. É sabido que as relações entre os vários clubes náuticos nem sempre navegaram tranquilamente, muito por força das indefinições em termos de quem realmente tutelava a zona do varadouro.

Durante muito tempo e também devido às obras de engenharia pesada a que a frente mar foi sujeita, sobretudo após o 20 de fevereiro, São Lázaro foi sobrevivendo precariamente através das incertezas geradas em torno das múltiplas tutelas (APRAM, Vice-Presidência, Sociedade Metropolitana de Desenvolvimento), como que num limbo, em que todos mandavam mas ninguém se responsabilizava por nada. Pelo meio, alguns clubes tentavam gerir o espaço de acordo com as suas próprias regras e interesses, criando um clima de crispação com os demais utilizadores do varadouro.

Em resultado deste ambiente de desconfiança e da ausência, até há bem pouco tempo, de uma entidade única de gestão, a anarquia instalou-se e o que deveria ser um espaço organizado e de referência transformou-se num misto de estaleiro de barcos a precisar de reparação e zona de atividades náuticas (desportivas e de recreio), a funcionar de forma precária. São Lázaro foi chão que deu azo a muita especulação. Chegou-se a falar de um aquário, de zona de restauração e de animação noturna. Projetos que nunca passaram disso mesmo.

A questão do museu de Ronaldo foi então a gota de água num oceano de indefinições. Teve, porém, a virtude de sentar todos os parceiros (associações, clubes e APRAM) à mesa das negociações e sob o mesmo objetivo: requalificar São Lázaro para que possa assumir-se num vetor de promoção da Região ao mais alto nível do desporto náutico, compatível com os títulos e participações internacionais e olímpicas.

Associação regional de Vela assume a mediação do processo. (Foto Rui Marote)
Sérgio Jesus anseia por bons ventos na negociação do processo. (Foto Rui Marote)

Pacto de não agressão

Se Viriato Timóteo, presidente da Associação de Canoagem, foi a pedrada no charco, na semana passada, já Sérgio Jesus, presidente da Associação Regional de Vela da Madeira, será a partir de agora o mediador das diferentes sensibilidades e o porta-voz junto da tutela. Segundo apurámos, o homem que está ao leme da ARVM apenas há dois anos terá chamado a si a tarefa de pacificar e reatar a confiança entre os interessados, cansado que está da situação de indefinição e de marasmo que se instalou em torno do varadouro de São Lázaro.

Após a reunião com a APRAM e as ondas de choque resultantes das notícias sobre o museu, na passada semana, o ex-velejador convocou uma reunião com os demais representantes do desporto náutico, em que tentou sensibilizar para a manutenção de um clima de consenso e de pacto de não agressão, durante os próximos tempos em que se negoceia o futuro regulamento.

Gerir e controlar os efeitos colaterais da implantação do museu numa zona que à partida seria para uso exclusivo do desporto náutico terá sido o propósito do responsável pela Associação Regional de Vela. Uma postura de “colaborar para lucrar” que estará a ser acatada pelos demais dirigentes e que não será alheia ao facto de Sérgio Jesus ter uma ligação privilegiada ao atual governo de Albuquerque, já que é irmão do secretário regional da Economia, Turismo e Cultura, Eduardo Jesus. Ele próprio o responsável pela área dos Portos na Madeira.

Controlo nos acessos, equipamentos de vigilância e segurança, iluminação, adequação dos pavimentos e a construção de uma estrutura de apoio às modalidades, integrando sanitários e balneários, são para já as condições que os clubes e associações esperam ver garantidas por parte da APRAM, a entidade que tutela o varadouro. Ideias que estão a ser coligidas no sentido de serem apresentadas ao gabinete de Alexandra Mendonça ainda no decorrer da próxima semana.

Até ao momento, aos clubes não é cobrado qualquer custo pelo espaço, mas a questão parece ser pacífica. Desde que as condições melhorem, há abertura para o pagamento de uma renda razoável face à tesouraria das entidades desportivas.

Será do interesse das partes que São Lázaro tenha um regulamento o quanto antes, o que poderá acontecer ainda antes do verão caso se mantenha o clima de concertação que todos dizem defender.

No entanto, o anúncio de duas empreitadas a este e a oeste do varadouro – alargamento da Praça do Mar à Avenida, na zona da Ribeira de São João, e o museu CR7 – virão a adiar algumas das premissas a constar no futuro regulamento, ao que se julga por mais um ano, já que não são compatíveis com a ocorrência de obras na zona.

Museu CR7 consegue "tréguas", graças a irmão de Eduardo Jesus.
Museu CR7 consegue “tréguas”, graças a irmão de Eduardo Jesus. (Foto Rui Marote)

“Há vontade da APRAM em colaborar”

Contactado pelo Funchal Notícias, Sérgio Jesus aceitou falar para reforçar a ideia de que o momento é de consolidação de “pilares de confiança”, sendo fundamental manter o diálogo e consensos alargados de forma chegar a bom porto nas negociações com a autoridade portuária.

“O processo está bem encaminhado”, garantiu. “Pela primeira vez consigo perceber que há vontade da APRAM em colaborar na gestão do espaço e que há sensibilidade em relação à dinâmica especial daquela zona. Por isso, há que dar uma hipótese a esta relação, nem sempre pacífica, entre clubes e a própria entidade que gere São Lázaro”.

Estando neste momento definido que a Administração de Portos é a entidade gestora do varadouro, esta passará igualmente a ser dotada de competências específicas. Daí que se entenda o interesse de Alexandra Mendonça em liderar o dossiê de forma consensual, mas determinada, em parceria com os mais diretos e antigos utilizadores, alguns, como o caso do Clube Naval do Funchal, com mais de 60 anos de presença em São Lázaro.

O novo quadro de competências e a determinação da APRAM terão feito o presidente da ARVM acreditar na bondade das intenções da autoridade portuária. “Daí a nossa motivação também para contribuir ativamente na criação do regulamento”, explica Sérgio Jesus.

Frontal quanto à localização do museu de Ronaldo – “Para ser sincero, São Lázaro não é o lugar mais indicado” –, o presidente da ARVM contesta porém que se mantenha um clima de hostilidade em relação às autoridades portuárias e à entidade concessionária do espaço.

“Há que entender que são compromissos herdados do anterior executivo. Estar a criar factos para contrariar o que já está consumado poderá ser nefasto. Paciência. O que importa agora é requalificar a zona do varadouro e dar corpo a um espaço de referência para as modalidades náuticas”, defendeu o responsável, comprovando a sua posição de que é preferível trabalhar pelo que ainda existe do que barafustar pelo que já se perdeu, neste momento em que há um novo executivo sensível às questões do mar.

Atualmente, há várias entidades a utilizar o varadouro de São Lázaro: Associação Regional de Vela da Madeira, Associação Regional de Canoagem da Madeira, Associação Náutica da Madeira, Associação de Jet Ski e Motonáutica da Madeira, Clube Força 5, Clube Naval do Funchal, Centro de Treino Mar (CTM), Escuteiros Marítimos e Marinha.

Recorde-se que a implantação do museu CR7 a nascente do Edifício da Praça do Mar vem disputar parte do espaço que estaria destinado exclusivamente a uma área de atividades e eventos náuticos de nível internacional, capaz de rivalizar com outros centros como Canárias. No entanto, o executivo de Jardim resolveu concessionar parte do varadouro a uma entidade privada para aí ser instalada uma estrutura associada ao craque madeirense, compromisso que no entender de Sérgio Jesus terá de ser honrado, sob pena de se penalizar a Região.