Qual imagem a preto e branco projetada na parede, em câmara lenta, vejo um grupo de miúdos, bem aprumados, vestidos, calçados e penteados a brilhantina, ou descomplexadamente despidos, deliciosamente descalços e desgrenhados, sem regras ou responsabilidades, sujos, mas felizes, como só as crianças podem ser!
Vejo também a minha cidade com menos prédios, menos ruas alcatroadas e poucas iluminadas; tínhamos as nossas brincadeiras ingénuas, à porta de casa, depois da escola: era tirar a bata branca, que nos fazia a todos iguais, e ir para a rua saltar à corda, brincar às escondidas, jogar à bola ou cantar à roda; tudo servia para um jogo: um anel, um lenço… subíamos às árvores e comíamos, dos galhos, mangas e goiabas, pois não havia pesticidas… cuidávamos de galinhas, cães e gatos e das ninhadas quando nasciam…
O futuro era delineado com segurança: casamento e filhos e, com sorte, um amor para toda a vida, encontrado numa tarde dançante, ao som de um gira-discos, entre limonadas e laranjadas. Alguns ousavam sonhar com uma casa, um curso e um emprego, também para toda a vida. Era um tempo de ordem, estabilidade e permanência. E esse tempo era todo nosso, tal como a pequena rua era o nosso mundo!
E o nosso mundo estava bem organizado. Havia os bons e os maus. Sabíamos quem eram os bons e os maus, a partir dos livros dos quadradinhos. Os bons eram altos, brancos e louros; os maus eram baixinhos, gordos e escuros. Os cowboys eram os bons e os índios, os maus. Pensava, só para mim, por que os índios seriam sempre os maus… Havia também os negros e os brancos e, no meio, os mistos. Perguntava-me eu também se, não sendo nem negra, nem branca, nem mista, o que seria eu então? E os meus amiguinhos chineses das lojas onde comprava doces a uma quinhenta?
Onde ficaria eu, sendo filha de pais goeses? E onde ficaria eu como mulher? Aos homens tudo era permitido. Eram eles que deviam dar o primeiro passo para me pedir em namoro (e eu a mostrar-me desinteressada). Eram eles que me convidavam para dançar… Eram eles que tomavam a iniciativa. Azar o meu ter nascido mulher! Mas, por outro lado, nunca ia de pé no machibombo, pois havia sempre um jovem a dar-me o lugar. Nem nunca pagava o milk-shake ou a tosta mista no Nicola…
“Noiva, Esposa e Mãe” era o nome de um livro que me inspirava nas mil e uma maneiras de tirar nódoas de um tecido e preparar uma boa refeição, sem gastar muito dinheiro. Ser uma fada do lar! Havia regras para tudo, e uma mulher que se prezasse não podia fazer má figura. Nada de gestos bruscos, nem gargalhadas sonoras. Devia saber estar sentada, de costas direitas e joelhos bem juntinhos… Dócil e meiga.
Quanto à política, as decisões estavam tomadas. O Estado (Novo) tomava conta de nós, libertando-nos do pesado trabalho de pensar. Não havia isso de partidos de esquerda e de direita. Éramos nós e os outros. Nesses outros estavam incluídos todos os “istas”: comunistas, socialistas, maoístas, trotskistas, terroristas. Nós e os outros. Nós e as nossas províncias ultramarinas, do Minho a Timor. Nós íamos à igreja e à catequese, às procissões de velas, vestidos de anjos, e fazíamos quermesses para angariarmos fundos para os pobrezinhos das palhotas de Chipangara. Nada havia a esconder, até porque as paredes tinham ouvidos.
Se fôssemos bem comportados, a vida fluiria sem sobressaltos e seríamos felizes para sempre.
The End (Seria final feliz?)
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