Apagadas as luzes, arrumados os instrumentos musicais e remetidos os “artistas” ao silêncio, o espectáculo eleitoral cessou. A dura realidade, impor-se-á no nosso quotidiano, durante os próximos anos.
O comboio do progresso colocou a “Madeira em Marcha” em 1976. Numa viagem de 40 anos, levou-nos ao sonho. A Saúde, Habitação, Educação e Pão, foram promessas oníricas repetidas anos a fio e, nalguma medida, conseguidas. Chega agora, o dito comboio, à estação de partida, à qual era suposto não regressar.
Goste-se, ou não, as condições de vida das populações são, hoje, piores que em 1974. As melhorias tiveram pés de barro. Cheira a blasfémia, eu sei, mas já explico. Não havia, estrada, não havia escola, nem centro de saúde. Incontestável! Vivíamos numa Madeira, com uma economia de subsistência. O fim dessa realidade, proporcionada pela infrene “europeização”, foi prejudicial ao tecido social madeirense. O FEOGA faz duas coisas: garante rendimentos aos produtores agrícolas, para compensá-los dos preços internacionais que faziam chegar os bens ao consumidor a preços inferiores aos nossos em cima da terra; permite investimento para adaptar as produções à Política Agrícola Comum. Os mais velhos viram nas ajudas uma grande benesse. Os mais novos, com beneplácito dos gestores de votos, fingiram investir. A aplicação do FEDER (requeria dinheiro nacional) levou ao endividamento e a retirar os jovens da agricultura. A riqueza pletórica exibida encheu os olhos aos papalvos e rendeu “aluviões” de votos. As consequências da má aplicação do dinheiro não se fizeram esperar. O desastre social, sempre negado, aproximava-se célere. Estamos, hoje, endividados até aos ossos, e não estávamos em 1974.Compreendem por que estamos piores?
Não invejo a sorte de quem se propõe “renovar”. Tendo sido utilizada em 1978, no início do ciclo que terminou, a palavra procela falta-me vocábulo para classificar a tempestade medonha que aí vem. Analisemos as grandes ondas a enfrentar por quem agora chega.
A DÍVIDA condicionará toda a acção governativa. Fiel a si próprio, e, ao autismo de que enferma, o Pres. cessante, já em gestão, criou mais compromissos financeiros que gerarão mais dívida. Pensem no aval ao CSM. O valor da dívida, neste momento, é uma incógnita. Falta-lhe: o valor dos fornecimentos de energia às Câmaras (pode gerar despesa pública. Urge conciliar as contas municipais com as da EEM); acerto das contas municipais com a ARM (já tivemos arrufos públicos); a avaliar pelo que já lemos poderemos ser surpreendidos com “esquecimentos” na liquidação de consumos de energia por alguns “amigos do peito”. Só depois de apurados estes valores e encontrada a dívida real, pode a mesma ser renegociada. Há quem defenda que a dívida da RAM deve ser assumida pelo Estado. Penso que isso não será viável, o “crime” não pode compensar. De Faro a Bragança choveriam protestos.
Medida importante e urgente é a fixação de preços, socialmente aceitáveis para os bens de 1ª necessidade (falei de água e energia. Esqueci os combustíveis: gás, gasóleo, fuel e gasolina). É a preocupação com o social que impõe esta primeira cautela. Encontrado o montante da dívida, estabelecidos preços para os bens essenciais e negociado o valor das amortizações e juros, ficará o GR em condições de falar em reduções de impostos e aumentos das despesas, em particular, para o domínio social.
Reconstruir aquilo que nestes 40 anos se destruiu é a maior dificuldade que a partir daqui se advinha. O milagre será reconstruir, sem dinheiro, aquilo que se destruiu numa simbiose entre a falta de juízo e o excesso de dinheiro. Tarefa hercúlea, sem dúvida, espera os novos governantes.
A acção governativa vai desenvolver-se num período conturbado do sistema financeiro internacional. Na União Europeia a 12, quando entrámos, viviam-se anos de esperança. Discutia-se o euro e o federalismo. São muito diferentes os tempos actuais em que se discute a hegemonia Alemã e se acusa o euro da destruição das economias mais fracas. Impõe-se grande atenção a estes aspectos, e um aproveitamento criterioso das ajudas que ainda iremos receber para recuperar várias destruições feitas que vão da paisagem às actividades produtivas em sentido restrito.
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