PS diz que o novo Hospital não vai resolver os problemas crónicos do SESARAM

Os problemas crónicos e estruturais de que enferma o Serviço Regional de Saúde estiveram no centro do debate nas Jornadas Parlamentares do PS-Madeira, com vários intervenientes a apontarem que o novo Hospital, só por si, não irá resolver os constrangimentos do sistema.

Juan Carvalho, presidente do Sindicato dos Enfermeiros da Região Autónoma da Madeira, disse que há vários problemas que se arrastam há muitos anos, os quais não se resolveram com a passagem do sector público administrativo para uma Entidade Pública Empresarial.

“A saúde é um sector complicado, de muitas interações e pressões de vária ordem. E, quando muitas vezes, ao longo do tempo, não se tomam as medidas adequadas nos momentos certos, isso repercute-se muito mais tarde”, afirmou.

O sindicalista adiantou que o Serviço de Saúde continua a sofrer as restrições na sequência do plano de ajustamento económico e financeiro a que a Região esteve sujeita, sendo que isso se verifica ao nível da falta de equipamentos, de material de uso corrente e de profissionais, nomeadamente enfermeiros. Conforme referiu, o Serviço Regional de Saúde conta actualmente com cerca de 2.080 enfermeiros, quando deveria ter 2.500.

Instado a propósito da questão, Juan Carvalho disse que o novo hospital, só por si, não vai resolver o problema se não se resolverem atempadamente os constrangimentos que o Serviço de Saúde tem hoje. “Era bom que quem está à frente da Saúde na Região alterasse um conjunto de medidas que hoje constrangem o Serviço Regional de Saúde”, de forma a que a passagem para o novo hospital já se fizesse sem esses problemas, frisou.

Da mesma opinião é Lídia Ferreira, do Sindicato Independente dos Médicos, que alertou que não será a infraestrutura física que irá resolver problemas que estão relacionados com recursos humanos.

Como disse, a saúde está centrada na urgência, quando deveria haver uma maior aposta na medicina preventiva, ao nível do médico de família. O problema, estando o sistema centrado na urgência, acaba por consumir recursos humanos e financeiros e por condicionar outras valências, como os meios complementares de diagnóstico, fundamentais para a prevenção.

Lídia Ferreira alertou, por isso, que, com este sistema, seja o hospital novo ou velho, haverá sempre um afunilamento das respostas que são necessárias.

A oradora apontou também a necessidade de um serviço social que seja capaz de dar resposta aos casos de altas problemáticas, que acabam também por condicionar a prestação de cuidados de saúde.

Falta trabalho em rede na área da saúde mental

Por seu turno, Mathieu Santos, enfermeiro da área da saúde mental do Hospital dos Marmeleiros, alertou para o muito que falta fazer neste campo, apontando o aumento de pessoas com quadros de ansiedade e burnout. No caso dos adultos, há muitos quadros ligados ao trabalho e ao custo de vida, enquanto que os idosos apresentam situações ligadas ao isolamento.

Uma das preocupações está relacionada com os mais novos, sendo que quase 30% dos jovens madeirenses já teve acompanhamento psiquiátrico – o dobro da proporção dos adultos.

O enfermeiro referiu que é nos cuidados primários que a maior parte dos problemas de saúde mental deveriam ser identificados, mas a figura do enfermeiro de saúde mental funciona, muitas vezes, de forma isolada. Da mesma forma, há uma falha de continuidade entre o internamento e a consulta externa, a qual nem sempre é conseguida nos tempos adequados.

De acordo com Mathieu Santos, “o que falta é a ligação entre as peças que já existem”, nomeadamente os enfermeiros dos centros de saúde, os psiquiatras, o hospital e os pólos existentes. “É nessa ligação que está o trabalho que ainda falta fazer”, sublinhou.

São precisos mais médicos dentistas nos centros de saúde

Já Luís Filipe Correia, médico dentista, apontou a necessidade de mais políticas públicas para a saúde oral, alertando que há que aprofundar a aposta nos cuidados preventivos.

O médico adiantou que 65% da população tem falta de dentes, mas explicou que a saúde oral não se resume apenas aos cuidados dentários, exemplificando a actuação ao nível da prevenção de outras doenças, como o cancro oral, o sexto mais prevalente ao nível mundial.

Luís Filipe Correia chamou a atenção também para os problemas do acesso à saúde oral, defendendo um reforço dos médicos dentistas nos centros de saúde. Como deu conta, o ano passado foram realizadas 28 mil consultas de medicina dentária nos centros de saúde, número que é insuficiente dar resposta às necessidades.

Nutricionistas em número insuficiente

Diana Silva, representante da Ordem dos Nutricionistas na Madeira, defendeu que é preciso reforçar o número destes profissionais no serviço público de saúde.

A oradora deu conta que a Região esteve quase dez anos sem contratar nutricionistas, sendo que, presentemente, há um profissional para cada 12 mil pessoas. Um número que é claramente insuficiente, tendo em conta que mais de 60% da população tem excesso de peso.

A responsável realçou que é preciso uma maior aposta na prevenção, trabalhando na educação, no sector social e ao nível do poder autárquico.


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