As gavetas são territórios íntimos, locais de interioridade, pequenos espaços de vida secreta que tornam os armários objectos significativos. Para além de preencherem as casas por questões utilitárias a servir múltiplas funções, consoante o lugar onde se instalem, os armários são peças decorativas que exibem a arte dos marceneiros, ganhando valor histórico ao longo de séculos de existência. Posta de parte a respectiva utilidade ou qualidade estética, muitos deles ocupam na vida emotiva de cada proprietário um lugar relevante, pelos motivos mais diversos.
Dentro duma casa onde decorrem as vidas de gerações consecutivas, os armários são mudas testemunhas dos vultos que por ali circularam, insinuam-se como presenças onde tantas mãos tocaram, resguardam-se no secretismo das gavetas, no sigilo dos escaninhos que escondem memórias nunca reveladas, no simbolismo de objectos guardados que passaram à história, e ninguém mais sabe para que serviriam. Preciosos contentores de resquícios históricos, arquivos privados de incontáveis emoções.
Ali se guardavam, nos mais antigos, desde os alfinetes às cartas de saudade, desde as contas de mercearia às contas de colares desfeitos, pagelas de santos e velhos passaportes, postais de França, recortes de jornal, caixas de rapé, pregadores e fivelas, lencinhos de cassa com monogramas bordados, agulhas e agulhetas, os mais variados acessórios pertenças das mulheres para a confeccão das prendas domésticas caídas em desuso. Para as novas gerações todo este equipamento recolhido parecerá desprezível, no entanto continua a ser testemunho de um passado quotidiano que fez o seu tempo em época própria.
Então de entre toda esta tralha anacrónica que encontrei num armário de pau de vinhático feito a partir de antigas caixas de açucar, herdado da casa de meus antepassados paternos, retirei dois objectos que se incluem na série dos «Velhos Achados»: um ovo de madeira e uma pequena ponta de marfim com um nome estranho.
O ovo de madeira era o instrumento das cerzideiras. Ainda é. Um anúncio recente respigado dos suportes digitais apresenta para venda ovos de madeira, valorizando a sua utilidade na recuperação de peças de roupa, nesta nossa época em que se recomenda uma economia de sustentabilidade. Um rasgão ou fio puxado numa peça de vestuário não significa o seu fim. Cerzir é uma técnica artesanal defendida pelos opositores do consumismo e existem ainda exímias cerzideiras que colaboram assim nalgumas exigências que os tempos modernos nos apresentam.
O outro objecto tem um nome aglutinado de fura-ilhó, o que indica o seu uso na execução do Bordado Madeira. Um dos chamados pontos abertos deste bordado são os ilhós, que depois de urdidos, ou seja depois da linha passada à volta do orifício feito com
o furalhó, são modelados em círculo com ponto de pau ou caseado. Deste modo se evitava cortar certos tecidos que facilmente se desfiavam, como a cassa e o organdi. Actualmente continua a ser usado para aperfeiçoar a forma circular dos ilhós, após a lavagem dos bordados.
Velhos achados são por vezes pequenos objectos utilitários que, resistindo ao tempo, às tecnologias de ponta e aos espantosos «robots», precisam ainda de mãos humanas que lhes vão garantindo prazos mais alargados de validade para que continuem a cumprir as suas tarefas históricas.
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