Estepilha, os combustíveis sobem, a coerência dos partidos da oposição desce

AF!

Em Portugal, a oposição descobriu finalmente a fórmula mágica da política moderna: apresentar propostas para baixar os combustíveis, reduzir o preço do cabaz essencial e aliviar a vida dos cidadãos — mas votar de maneira a garantir que nada disso aconteça.

É uma solução elegante. O Governo mantém a política, a oposição mantém os discursos e os portugueses mantêm a fatura.

Na Assembleia da República, houve propostas para baixar o IVA dos combustíveis, criar um cabaz alimentar com IVA zero e aliviar a carga fiscal sobre bens essenciais. Tudo muito bonito. Tão bonito que quase parecia que os partidos tinham descoberto a existência de pessoas que precisam de abastecer o carro e ir ao supermercado.

Mas depois chegou o momento perigoso: a votação.

E aí cada partido voltou ao seu estado natural. O PSD e o CDS votaram contra, porque apoiar as propostas seria reconhecer que talvez fosse necessário fazer alguma coisa. O PS também votou contra as iniciativas do Chega, porque uma medida pode ajudar os portugueses, mas não pode, em circunstância alguma, ajudar simultaneamente o adversário político.

O Chega, por sua vez, apresentou propostas para baixar impostos, mas sem conseguir convencer os restantes partidos de que o país deveria aceitar uma vitória parlamentar de André Ventura. Em Portugal, até a redução do preço da gasolina tem de respeitar as regras da rivalidade partidária.

A esquerda dividiu-se, a direita fechou fileiras e o centro procurou uma calculadora para explicar que baixar impostos custa dinheiro. No final, todos encontraram uma boa razão para não aprovar aquilo que, durante o debate, diziam ser indispensável.

E assim nasceu uma nova maioria parlamentar: a maioria dos que querem que o povo pague menos, desde que não sejam eles a votar a favor.

Montenegro pode respirar descansado. Não precisou de aprovar a descida do IVA, nem de reduzir os impostos sobre os combustíveis, nem de criar um cabaz alimentar mais barato. Bastou deixar a oposição falar durante algumas horas e esperar que esta fizesse aquilo que sabe fazer melhor: dividir-se no momento decisivo.

O Governo diz que baixar impostos pode provocar um buraco nas contas públicas. A oposição responde que é preciso proteger as famílias. Depois, quando chega a votação, todos descobrem que o verdadeiro buraco não está no Orçamento do Estado, mas na coerência parlamentar.

A gasolina continua cara, o supermercado continua a subir e o salário continua a chegar a casa já cansado. Mas há uma boa notícia: os partidos continuam a ter propostas. Muitas propostas. Algumas até são iguais. Só falta agora combinarem entre si quem vota nelas.

Até lá, o cidadão pode sempre escolher entre três alternativas: abastecer o carro, encher o frigorífico ou pagar a prestação. As três ao mesmo tempo já são consideradas uma medida de luxo.

No fundo, Portugal tem uma oposição muito especial. É contra o Governo nos discursos, contra os adversários nas votações e, pelos vistos, contra a possibilidade de aprovar qualquer coisa que possa beneficiar os portugueses.

Uma oposição assim não precisa de estar no Governo.


Descubra mais sobre Funchal Notícias

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.