Rali da Madeira: a longa viagem até à sustentabilidade

AF!

Há coisas que levam tempo a chegar. Às vezes porque exigem trabalho. Outras porque exigem vergonha. No caso do Rali da Madeira, a sustentabilidade ambiental parece ter andado anos à procura da grelha de partida. Só em 2026, ao que se anuncia com entusiasmo, a prova resolveu vestir o fato verde e falar com solenidade de mangas plásticas, ilhas ecológicas e recolhas criteriosas de resíduos. Antes disso, o ambiente parecia ser uma espécie de copiloto silencioso: estava lá, mas ninguém lhe pedia notas.

O Plano de Sustentabilidade Ambiental do Rali da Madeira foi implementado em 2023 e tem vindo a ser desenvolvido e aperfeiçoado em todas as edições desde então. Segundo a organização, ao longo destes três anos foram introduzidas novas medidas, melhorados procedimentos e criados indicadores que permitem avaliar de forma objetiva o desempenho ambiental da prova.

Em 2024, durante o Fórum de Sustentabilidade no Desporto Automóvel, realizado no Castanheiro da Universidade da Madeira, o trabalho desenvolvido no rali foi elogiado por representantes da Federação Internacional do Automóvel, que destacaram as medidas implementadas e a evolução alcançada.

A evolução é real, ninguém o nega. Já houve protocolo em 2024, já houve articulação institucional, já houve linguagem de responsabilidade e promessas de reflorestação, gestão de resíduos e sensibilização. Em 2026, porém, a coisa ganha corpo, números e fotografia. Já não se fala apenas em intenção; fala-se em 250 quilos de plástico, litros de óleos usados, filtros contaminados, tapetes de proteção e operações no terreno. O problema é que o relato da novidade deixa no ar uma pergunta pouco conveniente: se tudo isto era possível agora, por que razão não o foi antes?

Há aqui uma característica muito própria da nossa época: práticas mínimas passam a ser apresentadas como grandes conquistas quando finalmente ganham embalagem. Recolher resíduos perigosos, proteger o solo, reduzir derrames, encaminhar lixo para operadores licenciados — nada disto devia soar a revolução. Devia soar a rotina. Mas em eventos desportivos com apoio público, e ainda por cima em zonas de reconhecido valor ecológico, a rotina ambiental foi tantas vezes tratada como detalhe que, quando aparece um plano mais estruturado, ele parece quase um gesto heroico.

A verdade é que a sustentabilidade, neste caso, evoluiu como tantas outras boas intenções por cá: primeiro foi discurso, depois foi protocolo, só mais tarde virou operação. E mesmo agora não se percebe totalmente se estamos perante uma mudança de cultura ou apenas perante uma versão mais eficiente da gestão da imagem. Porque limpar depois de passar já é alguma coisa. Mas preservar antes de impactar é outra, bastante mais séria.

A Laurissilva, património mundial natural desde 1999, não precisava de esperar por 2026 para merecer cuidado. O território não ficou mais valioso quando alguém decidiu contar os quilos de plástico recolhidos. Já era valioso antes, quando as mangas plásticas ainda eram apenas mangas plásticas e não símbolo de progresso ambiental. Talvez seja esse o verdadeiro retrato da evolução: não a descoberta tardia de um problema, mas a transformação desse problema em comunicado.

No fundo, o Rali da Madeira foi aprendendo o que muitos eventos aprendem quando o tempo, a pressão pública e a necessidade de parecer responsável se juntam: que a natureza não é um cenário decorativo, e que a sustentabilidade não pode ser só um apêndice bonito no final de uma prova. O caminho feito até aqui merece registo. Mas também merece memória. Porque há evoluções que são mérito; e há outras que são apenas atraso bem organizado.


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