AF!
Ao fim de várias décadas a acelerar por estradas madeirenses — algumas delas inseridas num dos mais valiosos patrimónios naturais do mundo — o Rali da Madeira parece finalmente ter descoberto um conceito inovador: o ambiente.
A edição de 2026 surge agora adornada com um Plano de Sustentabilidade Ambiental e números que a organização apresenta com evidente satisfação: entre 230 e 250 quilos de mangas plásticas recolhidas, dezenas de litros de óleos usados encaminhados e “ilhas ecológicas” que, ao que tudo indica, não serviram apenas de elemento decorativo. Uma operação que percorreu 500 quilómetros para limpar aquilo que o próprio evento espalhou, num exercício que oscila entre a responsabilidade e o gesto simbólico tardio.
A narrativa é simples e eficaz: medir, quantificar, comunicar. O problema é outro — perceber se estamos perante um avanço estrutural ou apenas a formalização, com direito a comunicado, de práticas que já deveriam ser obrigatórias há muito. Porque, tratando-se de um evento financiado com recursos públicos e parcialmente realizado em áreas de elevada sensibilidade ambiental, como a Laurissilva — classificada pela UNESCO desde 1999 —, a sustentabilidade não deveria surgir como novidade, mas como requisito mínimo.
Mais do que os 250 quilos de plástico recolhidos, a questão relevante poderá ser quantos anos foram necessários para que essa recolha passasse a merecer destaque. E mais: se só agora há números, procedimentos e equipas dedicadas, que garantias existiam antes? A ausência de resposta clara transforma o que é apresentado como progresso numa inevitável interrogação sobre o passado.
Também as entidades públicas — do Governo Regional às estruturas de gestão ambiental — não escapam a este enquadramento. Financiar, autorizar e enquadrar um evento desta dimensão implica mais do que confiança: exige critérios, fiscalização e transparência. Caso contrário, corre-se o risco de institucionalizar uma espécie de sustentabilidade retroativa, onde se corrige depois aquilo que nunca deveria ter sido permitido sem controlo rigoroso.
No fim, o Rali da Madeira 2026 deixa uma imagem curiosa: um evento que limpa melhor do que limpava, mede o que antes não media e comunica o que antes não dizia. É um progresso, sem dúvida. Mas também um lembrete desconfortável de que, por vezes, a linha de chegada da sustentabilidade está apenas onde deveria ter estado desde a partida.
Descubra mais sobre Funchal Notícias
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.





