Estepilha- Sarjetas sujas: se “a montanha não vai a Maomé, Maomé vai à montanha”

Rui Marote
O departamento de salubridade da Câmara Municipal do Funchal, que tem poder para inspeccionar e agir, ignorou por três vezes o nosso alerta, acerca das sarjetas sujas e com maus odores na Avenida Zarco. É lamentável. A descarga de óleos usados e substâncias perigosas no sistema de águas pluviais é um crime ambiental previsto no Código Penal.
É muito frustrante ver uma situação deste tipo repetidas vezes e sentir que as autoridades municipais estão a ser negligentes. Só resta escalar a denúncia para órgãos superiores. Alertámos o delegado de saúde. Seguir-se-á a Procuradoria da República. Vamos continuar até que alguém nos ouça. A próxima entidade será o Provedor de Justiça, que defende os cidadãos contra a inércia dos serviços públicos. Há mais instâncias.
Já averiguámos o motivo desses detritos. Não esqueçamos que na época natalícia no Largo da Restauração  funcionou uma “aldeia”. Para onde foram os despejos? Compete ao munícipe averiguar.
O conceito de atentado à Saúde Pública já teve as mais variadas expressões na história do Funchal, e em muitos casos por coisas menores que sarjetas sem manutenção. Em 1926 existia até uma proibição por lei que impedia as pessoas de andar descalças no centro do Funchal e nas restantes cidades portuguesas. Durante o regime do Estado Novo a fiscalização foi intensificada. O regime considerava que o pé descalço transmitia uma imagem de pobreza, de atraso e de falta de higiene desagradáveis para os turistas estrangeiros que visitavam o Funchal.
Como os sapatos eram caros  para as classes  mais pobres e trabalhadores rurais que vinham ao centro do Funchal vender produtos, era muito comum as pessoas caminharem descalças pelos caminhos de terra da Ilha e calçarem os sapatos ou alpercatas no momento de entrar nos limites da cidade para evitar multas da polícia. Esta lei eventualmente caiu em desuso e foi completamente revogada após a revolução de 1974, razão pela qual hoje em dia já não é ilegal andar descalço. A epidemia da tuberculose na região teve também influência na criação da lei. Como a tuberculose  era uma epidemia brutal e as pessoas tinham o hábito de escarrar para o chão das ruas, os médicos temiam que andar descalço ajudasse a transportar a sujidade e germes para dentro das casas. Em suma embora a tuberculose se transmita  pelo ar e não pelos pés, o pânico sanitário causado pelas epidemias da época foi o ambiente perfeito para proibir o hábito por razões de imagem e decoro social. As solas dos sapatos acumulam poeiras bactérias, germes recolhidos na rua. O acto de tirar os sapatos é uma norma social em várias partes do mundo, Hoje em dia em muitas casas essa regra funciona.
Na sarjeta na Rua do Anadia em frente ao Centro Comercial as canas vieiras crescem. Em breve vão ultrapassar o muro de suporte da ribeira com as raízes implantadas no interior da sarjeta. Prova de falta de limpeza.
O Funchal dos nossos dias já não é o que era. Fica  como exemplo o trajecto da rua das Murças desde as traseiras do Golden até o restaurante nepalês na esquina com a rua António José de Almeida. Na calçada portuguesa o calcário branco está negro de sujidade, a aguardar que as águas voltem a cair. Porque sabão (detergente) vassoura e água é coisa que já não acontece há muito tempo… Nesse espaço existem restaurantes e um hotel onde todos os dias clientes tomam o seu breakfast numa rua porca. Um verdadeiro terceiro mundo. Enfim, vamos continuar a denunciar estas situações…

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