
Nelson Veríssimo
O Paul do Mar é uma estreita fajã no sopé de uma arriba de cerca de 500 metros de altura, na costa sudoeste da ilha da Madeira. ‘Paul’ significa terra alagadiça, no caso, junto do mar, daí o topónimo ‘Paul do Mar’. O sítio da Lagoa corrobora o paul.
João Anes do Couto Cardoso foi um dos primeiros povoadores do Paul do Mar, onde recebeu terras de sesmaria e viveu.
Na primeira metade do século XVI, foi aqui construída uma ermida dedicada a Santo Amaro, protetor de pescadores e viajantes nos perigos do mar. Devoção que assume particular significado numa comunidade, durante séculos, dependente do transporte marítimo. O acesso às povoações vizinhas fazia-se por veredas íngremes, antes da estrada, concluída em 1968, que ligou a Fajã da Ovelha ao Paul do Mar.

Não se conhece a data da instituição desta freguesia. Em 1695, o Paul era ainda um lugar com ermida, da Fajã da Ovelha.
Noronha escreveu, em 1722, que D. José de Castelo Branco, bispo do Funchal entre agosto de 1698 e julho de 1715, transferiu, há poucos anos, os Prazeres para a jurisdição da freguesia do Paul do Mar. Assim, podemos concluir que a paróquia do Paul do Mar foi criada no início do século XVIII.
Na primeira metade de Setecentos, foi reconstruída a igreja, devido ao estado de ruína do antigo templo de Santo Amaro. Na capela-mor, encontravam-se as pedras tumulares de Francisco do Couto Cardoso, instituidor do morgado do Paul em 1542, e de sua mulher, D. Joana de Lemilhana. No pavimento, segundo Noronha, estava a sepultura de João Anes do Couto e de sua mulher D. Guimar Nunes.


A antiga igreja, de planta longitudinal e nave única, estava implantada num patamar sobrelevado, acessível por uma escadaria de cantaria basáltica. A fachada principal desenvolvia-se num pano único em empena, delimitado lateralmente por blocos de cantaria regional faceada em disposição dentada. No eixo de simetria axial, rasgava-se o portal principal em arco pleno, estruturado sobre pilastras simples de cantaria e rematado por um entablamento com cornija saliente, exibindo no registo fotográfico um festão decorativo de ramagens. O vão era fechado por uma porta de madeira.
A iluminação da nave fazia-se, ao nível do coro-alto, por uma janela de peito retangular com moldura orelhada de cantaria e lintel sobressaído, encimada pelas armas de Portugal. O vão continha uma caixilharia de guilhotina em madeira branca dividida numa malha fina de trinta painéis de vidro, dispostos numa grelha de cinco colunas por seis linhas, sendo a composição do alçado ladeada por dois braços decorativos de iluminação pública.
Uma cornija simples rematava a empena, no vértice da qual um plinto suportava uma Cruz da Ordem de Cristo.
Adossada na fachada poente, erguia-se a torre sineira, de planta quadrada. Esta estrutura desenvolvia-se verticalmente em três pisos bem delimitados por frisos horizontais de cantaria escura. O piso térreo abria-se numa janela em arco pleno com moldura de cantaria e gradeamento de ferro; o segundo piso era rasgado, ao centro, por um pequeno óculo circular vazado. O terceiro piso constituía o campanário, aberto em quatro arcadas, coroado por um coruchéu piramidal de base quadrada, encimado por uma esfera e um catavento de ferro. Os ângulos da torre eram rematados por blocos de cantaria aparelhada, dispostos em silharia dentada, criando um marcado contraste cromático com os paramentos rebocados e caiados.
Adossado ao lado nascente, identifica-se um volume anexo de cércea inferior com cunhal de silharia dentada, servido por escadaria secundária de lanços retos em cantaria aparelhada.
Tratava-se de um exemplar de arquitetura chã de matriz maneirista com adaptação vernacular madeirense.
Esta é a descrição possível através da fotografia da antiga igreja, que o padre Ângelo Álvaro de Freitas (1922-2022) mandou demolir em 1974, após a conclusão de um novo templo, para o qual contou com a generosa contribuição de emigrantes do Panamá, Equador, África do Sul e Austrália.
Em 1971, a nova igreja, com projeto do pintor Afonso Costa, estava já engalgada. A primeira fase da obra importou em 1900 contos. A segunda fase, iniciada em 1973, no valor de 1500 contos, foi suportada por Manuel Ferreira Fernandes, emigrante pauleiro radicado no Panamá há mais de trinta anos, mas com negócios de pesca em Angola.

Contra a excêntrica igreja em construção, com volumetria desmedida para o número de habitantes e dissonante com o aglomerado urbano do Paul do Mar e a arquitetura vernácula, só uma voz publicamente se ergueu, a de Jorge Valdemar Guerra, no ‘Comércio do Funchal’ em 1973, que veementemente denunciou o atentado ao património cultural em curso naquela freguesia, onde o pároco, em vez de preservar a igreja setecentista ainda em bom estado, optara por uma aberração arquitetónica e a destruição da antiga matriz.
Por mau caminho vai hoje a casa paroquial, há anos desabitada e com marcas de degradação. É, contudo, uma bonita moradia dos finais dos anos 40 do século passado e que se distingue no aglomerado urbano. A Igreja Católica deve dar valor ao património imobiliário que possui.

O Paul do Mar teve, no passado, umas salinas. João de Nóbrega Soares (1831-1890) referiu-as no regresso da sua viagem ao Rabaçal, em 1859, e Morna Gomes (1913-2004) dedicou-lhes um soneto.
Em 1912, António Rodrigues Brás obteve alvará para estabelecer uma fábrica de conservas de peixe nesta freguesia, da qual resta a chaminé, envolvida por um bloco de apartamentos.

Existiu também uma fábrica de aguardente de José Gomes H. de Araújo, conforme anúncio publicitário no ‘Jornal da Madeira’, de junho de 1925.
A pesca foi, no passado, a principal atividade económica no Paul do Mar. O geógrafo Orlando Ribeiro publicou, em 1949, um estudo sobre a Madeira, no qual incluiu uma fotografia, da sua autoria, do calhau do Paul do Mar, onde se podem observar muitas embarcações de pesca e cestos de vime para o isco.
Na segunda metade do século XX, muitos pescadores emigraram para países da América, sobretudo para o Panamá, onde continuaram a exercer a sua profissão, mas mais bem remunerados.

Em 21 de abril de 2004, foi inaugurado o alargamento e prolongamento do cais existente e reparação da rampa de varadouro, passando a freguesia a dispor de um molhe de abrigo para a pesca artesanal e lúdica, náutica de recreio e atividades marítimo-turísticas.
Atualmente, no Paul, predominam atividades turísticas, nos domínios do alojamento e da restauração, e reduzidas plantações de bananeiras.

A procura acentuou-se após a abertura do troço de ligação do Jardim do Mar ao Paul do Mar com um túnel de 2510 metros, inaugurado em 9 de julho de 2000.

Nos ‘Censos de 2021’, esta freguesia do concelho da Calheta apresentava 635 habitantes. Desde 1950, a população tem vindo a diminuir consideravelmente. Pelos últimos Censos, verifica-se que a população era 35% da de 1950. O Recenseamento Eleitoral, de 15 de junho de 2025, registou, porém, 926 cidadãos nacionais.

Heráldica da freguesia: Armas – Escudo de azul, com barco de ouro realçado de vermelho, vogando sobre campanha diminuta de prata e verde de três tiras ondadas, vestido de prata, com mastro e cordame de negro. Coroa mural de prata de três torres. Listel branco, com legenda a negro: “PAUL DO MAR”. (Diário da República, n.º 154, 2.ª Série, Parte H, de 10-08-2007).
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