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Paris anos sessenta, sec XX, A surpresa , o deslumbramento duma cidade que se visita pela primeira vez, com tempo alargado de quinze dias. A um sonho imaginado durante os anos da adolescência, que nos pareciam longos demais, não bastavam uns dias de passagem, um salto de lebre, mas sim, exigiam o tempo vagaroso dos passos e dos olhos atentos, ávidos dos sortilégios daquela que transportava consigo a legenda apelativa de «cidade-luz». Horas e horas nos museus, o de Arte Moderna, Louvre, Cluny, Orangerie, de passeio nos «Boulevards», nos alfarrábios dos «Bouquinistes», a deambular à beira do Sena acenando às «vedetes», a ouvir algures os três tempos da valsinha «musette» batida num acordeão ambulante, eram privilégios que saboreávamos, nós, duas estudantes de Arte vindas da Ilha Atlântica, com um guia Michelin na bagagem, poucos haveres, mas a cabeça bem provida de motivos e de planos minuciosamente organizados para usufruir, desde a Île de la Cité, à colina mais distante, a excitante Paris. Pouco faltou ao primeiro espanto: Uma ida à ópera na sala Favart, o espectáculo nocturno no Moulin Rouge; as vinhas de Montmartre e Le Lapin Aggile, a Rue Le Pic, onde viveu Van Ghog, a subida da Butte até o Tertre. Do Trocadero ao Sacré Coeur, e ao acolhedor Cemitério dos Cães em Asnières, a magia dos velhos sonhos que procurávamos exorcizar, para que a realidade se resgatasse nesses dias reais, e até os pés sentissem que Paris era verdade.
Sim, os pés. Na descida dos Champs Élysées a poucos metros do Arco do Triunfo, expunha-se a montra larga da Sapataria André. Preços razoáveis para a nossa modesta bolsa. Belos modelos a fazer jus à fama duma moda que corria mundo. Mais do que a vaidade fácil de exibir os estafados «souvenirs», adquirir ali um par de sapatos representaria um gesto de afecto espontâneo e uma recompensa. Então, as sandálias de meio salto de estreitas tirinhas brancas, seria o par escolhido, um mimo, por raro e gracioso. Tirinhas brancas com a particularidade de serem roliças, num trabalho exímio de hábil artesão.
Anos e anos a palmilhar as calçadas da Ilha era nocivo demais para sapatos tão delicados, ainda que, por razões de estimação, fossem usados apenas em ocasiões especiais. Confiava-os então ao Mestre José de Sousa, o sapateiro da Rua das Hortas que, pacientemente, voltava a prender-lhes as tiras às solas, o ponto mais frágil por onde se soltavam. Ao Mestre sapateiro da Rua das Hortas, devo a longevidade desse acessório que o tempo a passar por mim, acabou, inevitavelmente, por descartar. Os meus «pés de Botticelli» como alguém um dia os classificou, pela semelhança com os das figuras do pintor Maneirista, deformaram-se, o osso desviou-se na base do dedão do pé esquerdo e um nefasto joanete surgiu, agressivo e doloroso. O par de sandálias de tirinhas brancas, arrumei-o para sempre numa mala que há dias revisitei. Não tem serventia, mas contém a grata memória da Paris longínqua e brilhante dos meus vinte anos.
A sapataria André dos Champs-Elysées pertencia a uma cadeia de «magasins» ainda hoje existente, mas, com as várias mudanças de proprietários, reduziu-se a um restrito número de lojas, e actualmente pratica um novo processo de expansão. Apesar de tudo, ainda possui setenta filiais em toda a França e um sitio de venda em linha. A marca André nasceu em 1806, em Nancy, criada por Albert Lévy e Jerôme Lévy e obedecia a um conceito económico que favorecia a maior parte da população, através de preços acessíveis. Nos primeiros anos ocupava o grande imóvel que se ergue no cruzamento das Ruas de Rennes e Vieux-Colombier, no 5º arrondissement. Era uma marca de prestígio que se alargou até à Argélia Colonial.
No mesmo âmbito de conceito, havia em Lisboa a sapataria «Mariazinha», que servia a preços módicos a classe média e cuja qualidade e variedade de modelos, constituía uma verdadeira atracção, com grandes filas â porta e, de modo relevante, a quem vinha das ilhas. Esta icónica loja de Lisboa, já não existe. Situava-se na R, António Pedro e vendia em exclusividade sapatos desenhados por Charles Jordan exibidos muitas vezes em grandes desfiles de moda.
Os velhos achados, para além de objectos votivos, constituem elementos importantes para a reconstituição dos cenários da nossa ancestralidade. Sobre a existência do calçado, que remonta à Pré-História, presente em representações rupestres, sua utilidade e simbologia, há muito que contar.
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