Língua-Sociedade-Cultura: colocar a Madeira nos Mapas

Em 2022, com Lúcia Pestana, publiquei “O Atlântico e os Nomes dos Arquipélagos: Breve Abordagem Linguística à Toponímia Insular”, que saiu como Dossier Temático, na Revista Atlântida (Revista de Cultura), Carlos Bessa (Ed.), Ano LXVII, Angra do Heroísmo, Instituto Açoriano de Cultura (IAC), 2022, pp. 549-568, ISSN 1645-6815. Nesse texto, comprovou-se que o território arquipelágico madeirense, assim como muitos outros territórios com características insulares, não figuram em alguns mapas. As razões para que isso aconteça podem ser variadas. O certo, como me fui dando conta quando analisei uma diversidade de mapas para a unidade curricular Sociedades e Culturas Insulares, dos Mestrados em Estudos Regionais e Locais e em Linguística Sociedades e Culturas, é que, quando não aparecem nomeados, os territórios são apagados do conhecimento geral e esquecidos integral ou parcialmente. Pode a escala, ou seja, a dimensão do território, ser uma condicionante para que nomes de “topos” surjam ou não mencionados em mapas? Pode! Como fui explicando aos estudantes, ninguém se lembraria de, num mapa, sejam ou não estados independentes, não haver menção à Gronelândia (que tem estado em foco, nos últimos tempos), à Irlanda, ao Reino Unido ou à Austrália, que partilham da condição insular que a Região Autónoma da Madeira (RAM) tem.

Não referir os nomes, geograficamente, é desvalorizar um território pela falta de identificação. Não nomear é esquecer, consciente ou inconscientemente. Pode, sobretudo a nível político, e especialmente no âmbito da Política Linguística, aceitar-se o procedimento? Não, não se poderia aceitar. Mais problemático ainda é juntar, à falta de nome, a de representação figurativa como território cartografado. Por que razão não mencionar todos os territórios ou, mesmo sendo pequenos, não os desenhar para os representar? Em diversos mapas, não figuram de nenhum modo e, noutros, por exemplo, aparecem com uma breve referência. Veja-se, por exemplo, o mural com mapa mundi adaptado, num espaço comercial internacional, presente na cidade do Funchal, apenas com o nome “FUNCHAL”, no continente africano. Provavelmente, isso acontece porque ninguém exige a marcação, a existência, nem pela representação gráfica, nem pelo nome do território arquipelágico. Serão tidos como pormenores desnecessários (apêndices e fragmentos de continentes) e, por isso, dispensáveis. Contudo, não designar ou identificar é meio caminho andado para desconsiderar. A desvalorização começa com procedimentos semelhantes. Esta poderá ser uma questão política, nomeadamente de Política Linguística.

Vem isto a propósito – este assunto de mapas e presença ou ausência de palavras – do Atlas Linguístico-Etnográfico da Madeira e do Porto Santo (ALEMPS), mais precisamente do volume II, com o título A VINHA E O VINHO: OS TRABALHOS DO LINHO E DA LÃ, incluindo A FIAÇÃO E A TECELAGEM (cf. REBELO, Helena, NUNES, Naidea e SARAMAGO, João (2024), Atlas Linguístico-Etnográfico da Madeira e do Porto Santo: A Vinha e o Vinho – Os Trabalhos do Linho e da Lã, volume II, Funchal, SRTC | DRC: Serviço de Publicações, FCT (UIDB/00214/2020), 264 pp, ISBN: 978-972-648-305-2), apresentado no Colégio dos Jesuítas, no passado dia 27-02-2026, com a conferência de João Saramago “Atlas Linguístico-Etnográficos: Áreas Lexicais e Variação Linguística no Continente e nas Ilhas”. A tradição científica dos mapas linguísticos tem permitido comparar dados entre territórios. A não existência de mapas lexicais para a RAM, além de apagar o território do conhecimento científico, faz com que seja inviável qualquer comparação, tanto internacional como nacional. Aliás, isso ficou bem demonstrado na conferência que permitiu visualizar, comparativamente, dados para o território continental, os Açores e a Madeira, sobretudo com resultados do volume I, A CRIAÇÃO DE GADO. O GADO BOVINO, OVINO E CAPRINO. O LEITE E OS DERIVADOS. O PORCO E A MATANÇA. NUNES, Naidea, REBELO, Helena, SARAMAGO, João e VITORINO, Gabriela (2018), Atlas Linguístico-Etnográfico da Madeira e do Porto Santo, Funchal, SRTC | DRC: Serviço de Publicações, FCT-Corpus para um atlas linguístico de Portugal (“Corpus”) (projecto do Programa Lusitânia: PLUS/C/LIN/800/93), 253 pp. Como se diz “grainha” (semente do bago de uva) na RAM? Interessa saber o que os informantes gravados para o ALEMPS, nos 7 pontos de inquérito, disseram para “semente do bago da uva”? O que disseram é que é “puro madeirense” porque são formulações que usam/ usavam no quotidiano. Há todo um património linguístico que está em vias de desaparecimento e de alteração. Registá-lo é preservá-lo.

Falamos muito em “regionalismos” para realçar o vocabulário madeirense, mas, se não se apostar na publicação de resultados de investigação como os vários volumes do Atlas Linguístico-Etnográfico da Madeira e do Porto Santo (ALEMPS), dificilmente se saberá o que é endémico ou não, no plano linguístico. Recentemente, numa investigação individual, uma jovem estudante madeirense considerou “migar”, com o significado de “desfazer em pedaços pequenos”, um regionalismo lexical madeirense, quando o vocábulo é do português comum. Aliás, ouve dizer-se, geralmente, “migar as bolachas no leite” ou “migar o pão na sopa”. Há dias, alguém (oriundo da ilha de São Miguel) me dizia que “abica cachorros” era nos Açores “abica burros”. Ora, cá está: o que é ou não é madeirense, no plano linguístico? A língua portuguesa reveste-se de especificidades consoante as geografias. Viabilizar a publicação do ALEMPS é permitir a presença da Madeira em mapas linguísticos com base em critérios que a equipa do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa que aos Atlas se dedica estabeleceu para todo o território nacional. Os Açores já têm os 9 volumes disponíveis. Quanto ao território continental, os dados estão a ser tratados intensivamente. Para a Madeira, depois do volume II, restam sete. O próximo será sobre O CULTIVO DOS CEREAIS. A MOAGEM E A PANIFICAÇÃO. Haja tempo e vontade, sobretudo política, para colocar a Madeira nos mapas!


 

  • Helena Rebelo

Universidade da Madeira (FAH-DLLC e CIERL), Funchal, Portugal

CLLC da Universidade de Aveiro, Aveiro, Portugal


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