Raimundo Quintal foi à Francisco Franco falar sobre “Impactos da visitação excessiva no equilíbrio dos ecossistemas”

O Clube de Ecologia Barbusano, da Escola Secundária de Francisco Franco, realizou no dia 21 de janeiro uma conferência intitulada “Impactos da visitação excessiva no equilíbrio dos ecossistemas”. O conferencista convidado foi o Professor Raimundo Quintal, geógrafo e investigador do Centro de Estudos Geográficos do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Lisboa.

O Professor Raimundo Quintal iniciou a conferência fazendo um historial deste clube de ecologia no que diz respeito aos seus objetivos e membros fundadores – conhece-o bem, porque foi fundador do mesmo, conjuntamente com alguns professores de matemática, geografia, desenho, entre outras disciplinas, desta escola.

Seguidamente, enfatizou que, após a pandemia, ocorreu um “boom” turístico a nível global, que também se verificou na Região Autónoma da Madeira (RAM), traduzindo-se em problemas delicados para as áreas naturais, em resultado da visitação excessiva. Destacou a zona do Fanal, tendo relembrado que a pavimentação da estrada de acesso, em 2002, foi uma obra muito prejudicial para a preservação ambiental deste local. Defendeu o encerramento do mesmo ao turismo, para recuperação da sua biodiversidade, e o encaminhamento do gado que lá existe para a Santa do Porto Moniz. Neste novo local, argumentou o conferencista, terá melhores condições, garantindo-se o bem-estar animal. Referiu, igualmente, que os lençóis freáticos na zona do Fanal se encontram contaminados pelo que, é urgente que se retire o gado.

Este investigador relembrou que as Nações Unidas declararam a década 2021 – 2030 como a Década para o Restauro dos Ecossistemas, tendo enfatizado, mais uma vez, que os mesmos estão sujeitos a uma enorme pressão, nomeadamente pelo excesso de turismo. Fez alusão às medidas de controlo para o acesso às áreas protegidas açorianas, rigorosas e sensatas, um bom exemplo a seguir pelo governo madeirense. Enfatizou o trabalho desenvolvido pela Associação dos Amigos do Parque Ecológico do Funchal, agora designado Associação dos Amigos dos Ecossistemas do Arquipélago da Madeira (ECOAMA), em prol do restauro dos ecossistemas de montanha e o trabalho de recuperação da floresta Laurissilva – com enfoque para a remoção de plantas invasoras, no Campo de educação ambiental do Santo da Serra (área com 9 hectares), propriedade doada a esta associação pela benemérita, a senhora Eva Durão.

O Professor Raimundo Quintal fez questão de salientar que as taxas turísticas não resolvem por si só a pressão sobre as áreas naturais, defendeu que devem ser assegurados transportes públicos a estes locais, travado o acesso a veículos particulares e definida uma capacidade carga com base em estudos sérios. Criticou o facto de os madeirenses terem de pedir autorização para fazerem estes percursos, tendo justificado, entre motivos, com o facto de algumas pessoas colaborarem também na manutenção destes trilhos para acederem às suas propriedades/bens. Este investigador mostrou um estudo da Secretaria Regional do Turismo, realizado entre 7 de dezembro de 2009 e 4 de janeiro de 2010 com o objetivo de obter o perfil do turista da Madeira, tendo o mesmo revelado que o motivo principal da viagem de férias à Ilha foi o contacto com a Natureza (34%), seguindo-se outros fatores, e com o golfe a representar apenas 1%. Neste sentido, criticou de forma veemente a relevância que o governo regional atribui a este desporto/atividade, que consome volumes de água significativos, a qual deveria ser priorizada para o consumo humano e para a agricultura. Lembrou que em vários locais desta região este precioso recurso escasseia no Verão, o que inviabiliza a atividade agrícola. Defendeu a agricultura madeirense, peculiar e que preserva a paisagem, constituindo um património de extraordinário valor.

Numa referência à importância da floresta Laurissilva, destacou que é Património Natural da Humanidade desde 1999 e que «é a mãe» dos madeirenses, entre outros fatores, por ser fonte de água, essencial à vida. Lamentou o facto de ser pouco conhecida pelos madeirenses e defende uma maior divulgação, porque quem conhece, valoriza e protege. Destacou os efeitos negativos da cultura da cana-sacarina na floresta nativa madeirense, no passado, devido à grande utilização de madeira para a laboração dos engenhos.

Enumerou um conjunto de levadas que garantem o transporte da água da costa norte para a costa sul, com destaque para a Levada do Norte e dos Tornos, tendo enaltecido os homens que arduamente participaram na sua construção, infelizmente, com alguns a perderem a própria vida. Referiu que estes canais asseguram o transporte de água para consumo humano e para a agricultura, permitindo igualmente o funcionamento das centrais hidroelétricas. Questionou algumas opções governamentais, entre elas, a destruição da Levada do Lajeado (Paul da Serra), em virtude da construção da lagoa do Pico da Urze e do “abandono” da Levada Velha do Rabaçal.


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