Freguesias da Madeira: Fajã da Ovelha

IGREJA DE SÃO JOÃO BAPTISTA, FAJÃ DA OVELHA. FOTO: © ANABELA GOMES, 2026.

Nelson Veríssimo

O topónimo descritivo, Fajã da Ovelha, indica uma extensão de terreno plano de material geológico desprendido e a criação de gado ovino na localidade. É topónimo documentado, pelo menos, desde 1501 e, nos anos seguintes do primeiro quartel do século XVI, devido à produção de açúcar.

A paróquia da Fajã da Ovelha, do concelho da Calheta, foi fundada em data que se desconhece, mas já existia em 1518. O seu orago é São João Baptista.
Antes da instituição da paróquia, o serviço religioso era assegurado por um capelão que, a seu cargo, tinha também a comunidade de fiéis da Ponta do Pargo. Em 1505, Diogo Pires era o clérigo responsável pelos ofícios divinos nos dois lugares. Quatro anos depois, a capelania mantinha-se.

CAPELA DE SÃO LOURENÇO. FOTO: © ANABELA GOMES, 2026.

Na Capela de São Lourenço, foi estabelecida a primeira sede da paróquia. Contudo, nos finais do século XVI, já existia a igreja de São João Baptista. De facto, o bispo D. Luís de Figueiredo, nos provimentos da Visitação de 1587, salientou a necessidade de ampliar a igreja paroquial, construir uma sacristia e um adro em redor e dotá-la com um sino. Já, em 1624, o visitador achou-a formosa e bem acabada.

A ermida de São Lourenço foi, entretanto, merecendo menos atenção e cuidados, pelo que teve de ser reedificada, estando a nova capela concluída no verão de 1653. Contudo, no vértice da empena do frontispício, a cruz de Cristo em cantaria tem, na base, a data de 1648. Na sineira desta capela, foi colocado o sino do navio «Varuna», naufragado no Calhau das Achadas da Cruz, em novembro de 1909.
Uma nova igreja paroquial veio a ser construída na segunda metade do século XVIII, noutro sítio, mudança aprovada pelo alvará de 27 de junho de 1705. Em janeiro de 1747, foi arrematada a obra do novo templo.

ALTAR-MOR DA MATRIZ DA FAJÃ DA OVELHA. FOTO: © ANABELA GOMES, 2026.

Entre 2018 e 2022, a Matriz beneficiou de obras de restauro, designadamente na capela-mor, com o apoio de fundos comunitários (320 000€), verbas atribuídas pela Câmara Municipal da Calheta (107 000€) e pelo Governo Regional da Madeira (259 176,47€) e a contribuição dos paroquianos.

A Igreja possui pinturas em tela de João Silvino João (1909-1971) e de Max Römer (1878-1960). A pintura decorativa dos tectos é obra de Luís Bernes (1865-1936), Cirilo (José Zeferino Nunes, 1885-?) e João Silvino.

Território desta freguesia foi atribuído a uma nova paróquia – Santo António, na Raposeira do Lugarinho – que entrou em funcionamento no dia 1 de janeiro de 1961, na sequência do decreto do bispo D. David de Sousa, de 24 de novembro do ano anterior.

FÁBRICA DA MANTEIGA E DE MOAGEM, CONSUMIDA POR UM INCÊNDIO EM OUTUBRO DE 2023. FOTOS: © ANABELA GOMES, 2026.

Em 1988, na Lombada dos Marinheiros, foi mandada construir uma capela dedicada a Nossa Senhora da Aparecida, por José Ivo de Sousa (1948-2022), emigrante na África do Sul, sua mulher e filhos.

Pela Fajã da Ovelha, entre 27 e 30 de dezembro de 1921, passou o ex-imperador da Áustria e ex-rei da Hungria, Carlos (1887-1922), obrigado a exilar-se na Madeira, após ter tentado retomar o poder na Hungria. Foi de automóvel até à Ribeira Brava. Aqui embarcou no vapor costeiro «Vitória». Desembarcou no Paul do Mar e foi transportado numa rede até à Fajã da Ovelha. Com António Vieira de Castro e Gabriel Bianchi, o ex-imperador participou numa caçada. Visitou também as freguesias das Achadas da Cruz e da Ponta do Pargo, na companhia de Pedro Augusto de Gouveia (1882-1967). Ficou hospedado na casa de Augusto César de Gouveia (1856-1922).

Augusto César de Gouveia desempenhou funções políticas no Município da Calheta, no tempo da Monarquia. Pertencia ao Partido Regenerador. Era também um proprietário abastado e industrial da freguesia, nas áreas da moagem, panificação e serração de madeiras.

ANÚNCIO DA MANTEIGA “ÁGUIA” NA IMPRENSA.

O seu filho, Pedro Augusto de Gouveia, distinguiu-se como autarca, na Calheta e no Funchal, e foi presidente do Club Sport Marítimo nos anos de 1917-1921, mas ficou conhecido como industrial de laticínios. Fundou uma fábrica de manteiga no Lombo de São Lourenço, licenciada em 1917. Situada num prédio industrial, a produção de manteiga era feita no primeiro piso, enquanto no segundo estavam instalados moinhos acionados por força hidroelétrica, um de fabrico alemão e outro austríaco. A produção anual de farinha variava entre os 40 000 e os 100 000 kg.
Comercializada como «Manteiga Águia» era vendida no Funchal e exportada para o Continente e colónias. As embalagens eram transportadas, por carretas, até à Ladeira dos Zimbreiros, e daqui, através de um «fio de carga», até ao Paul do Mar, de onde seguia para o Funchal, por via marítima.

A Fábrica da Manteiga deixou de funcionar no início da década de 60 do século passado. Em 1974, foi vendida a um cidadão estrangeiro e hoje diz-se ser propriedade de uma instituição bancária ou grupo financeiro. Entretanto, em 2002, o imóvel foi classificado como Património de interesse municipal. Falou-se na sua recuperação e na criação de um espaço museológico. Foi delineado um projeto arquitetónico de reabilitação em 2010. Mas nada avançou, a não ser o lume, em outubro de 2023, que destruiu o vetusto prédio industrial.

NA LADEIRA DOS ZIMBREIROS, EXISTIA UM FIO DE CARGA QUE PERMITIA O TRANSPORTE DE MERCADORIAS ENTRE A FAJÃ DA OVELHA E O PAUL DO MAR. FOTO: © ANABELA GOMES, 2026.

Pelo Mapa Geral da produção de todas as freguesias da Província da Madeira e Porto Santo, calculada pelos dízimos de 1836, verifica-se que a Fajã da Ovelha produzia vinho, trigo, cevada e centeio.

Em julho de 1881, Ellen Taylor escreveu numa carta: «Another day we made a long expedition through the Fajã d’Ovelha on to Ponta do Pargo. It is all charming country, and just now looking very verdant and beautiful.» Esses campos verdejantes e belos, por certo, searas, já não existem. A paisagem é agora marcada por terrenos abandonados e cobertos de matagais, mas que há anos eram cultivados.

O Recenseamento agrícola de 2019 apontou 143 explorações. Como culturas principais, são indicadas a batata (semilha) e as hortícolas. Registou ainda frutos subtropicais e vinha, como culturas permanentes, em áreas reduzidas, e 168 hortas familiares.

A produção de trigo tinha grande significado económico nesta freguesia. Atesta-o a existência, na década de 30 do século XX, de dois moinhos motorizados (de Pedro Augusto de Gouveia) e seis azenhas movidas a água, todas pertencentes a mulheres: Matilde de França Gouveia, Joana de França Gouveia, Agostinha de Jesus, Maria Guiomar e Inácia Teresa. Hoje existem apenas dois moinhos, um na Raposeira outro na Maloeira, mas ambos inativos.

No passado, tal como em outras freguesias, existiam muitas plantações de linho, para fabrico de peças de vestuário e de uso doméstico dos fajã-ovelhenses e venda para o Funchal, atividade que pode ser documentada desde o século XVIII. Em abril de 2013, a Junta de Freguesia procedeu à recuperação de um antigo poço do linho, na Raposeira do Cerrado, como memória arqueológica da ‘curtimenta’, isto é o processo de alagar o linho (curtimento ou maceração).

Hoje predomina a agricultura para consumo próprio e venda no mercado regional, de hortícolas e frutícolas. Na Raposeira, cultiva-se, com sucesso, a casta verdelho e podemos encontrar ainda pequenas plantações de cana-de-açúcar.

Atividade que, nos últimos anos, se tornou rendível é o alojamento turístico, com diversas unidades na freguesia. Uma pesquisa rápida, na plataforma de reservas Booking.com, indica-nos 47 alojamentos. Mas o número real, deve ser superior.
Nos ‘Censos de 2021’, a freguesia da Fajã da Ovelha apresentava 812 habitantes, ou seja, 35% do número de moradores em 1864, ano em que tinha 2309. Desde 1970, quando existiam 1625 residentes, verifica-se um acentuado decréscimo populacional. O Recenseamento Eleitoral, de 31-12-2024, registou 1014 eleitores nacionais.

BRASÃO DA FREGUESIA.

Heráldica da freguesia: Armas – Escudo de azul, ‘Agnus Dei’ de prata, nimbado de ouro, sustendo com a pata uma vara crucífera de negro, com lábaro de prata carregado de cruz firmada de vermelho; em chefe, duas flores de linho de prata, botoadas do campo. Coroa mural de prata de três torres. Listel branco, com a legenda a negro: “FAJÃ DA OVELHA – CALHETA”. (Diário da República, n.º 40, 3.ª Série, Parte A, 16-02-2001).

PORMENOR DA ‘CALÇADA MADEIRENSE’ NO ADRO DA IGREJA DA FAJÃ DA OVELHA. FOTO: © ANABELA GOMES, 2026.

A representação heráldica privilegiou a produção de linho, outrora abundante, e o ‘Agnus Dei’, porquanto João Baptista, padroeiro da freguesia, chamou a Cristo, o Cordeiro de Deus (Jo 1,29: «Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!»). No pavimento do adro da igreja, datado de 1949, está também representado o cordeiro com uma cruz e o estandarte, elemento bem conhecido da iconografia cristã como símbolo da redenção (1 Pe 18-21) e do Servo Sofredor (2 Is 53,6-8).


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